Enganada, eu achava que obrigatoriamente teria que sair de entre quatro paredes... (com a mochila "Yin's girly backpacks" - preta com estampa imitando listrinhas de zebra e acabamentos e zíperes cor rosa choque brilhante - que meu pai comprou pra mim e que eu resolvi usar só porque foi ele que me deu).. pra esbarrar com gente estranha. No bom sentido, claro. Sim, eu falo, eu adoro conversar com estranhos. Estranhos, estranhamente, extremamente legais.
Aí ontem minha felicidade ganhou mais um nome. Melhor, dois: Bárbara e Michele. A felicidade que o cantor Otto descreve muito bem na canção "A Noite mais linda do mundo". Ele canta:
"Felicidade
Não existe
O que existe na vida são momentos felizes"
E a Bárbara e a Michele me deram um super momento feliz. Tão feliz, que eu quase não cabia em mim mesma. E elas me presentearam da forma mais simples.
Depois de eu publicar " O Homem do cheiro verde e alface", a postagem logo abaixo. Depois de eu divulgar no facebook e aguardar feito uma boba alguém curtir, como se fosse uma condição pra eu ser uma pessoa feliz e realizada. Depois de esperar, e nada, começaram as raras e pouquíssimas curtidas (momento pena de mim mesma):
Fulano curtiu isto (1),
Sicrano curtiu isto (2 curtiram isso),
Beltrana curtiu isto (3 curtiram isso).
- E acabou! Mais ninguém curtiu ou vai curtir seu texto bobo, Elaine! (O Facebook fala pra mim.)
Quase conformada, desligo a janelinha do facebook malvado. Afinal, não é nada bom ficar alimentando falsas esperanças. Ainda mais sendo uma aspirante a escritora com apenas três leitores, três curtidas ( que eu saiba sim, só três. E até combina com o nome do blog: Três Paredes).
Tento esquecer e abro uma nova janela. Vou checar meu e-mail (e aquela esperança martelando no coração). É quando uma surpresa, em forma de e-mail, sorri pra mim. O Gmail, feito um anjinho que só traz notícia boa, me avisa:
- Bárbara marcou você no Facebook.
"Tinha que ser a fofa da Bárbara", penso com meus botões, três botões, três paredes e a triste lembrança de APENAS três "curtiram isso."
E lá estava no facebook dela, compartilhado com "Público", o presente que ganhei:
"Como é bom encontrar gente que presta atenção no
dia a dia, nos detalhes das coisas mais corriqueiras (e que ainda
escreve tudo isso!). Só amor por essa Elaine ♥"
Sem pensar duas vezes, eu curti e comentei: "E como é bom ver que as amigas gostam." E uma nova estranha legal me surpreende. Isso enquanto estou entre as quatro paredes do meu quarto, achando que não sou tão bem aventurada assim pra conhecer gente estranha e legal em pleno conforto da minha casa. Sem precisar ir até a parada de ônibus, toda paciente na espera graças ao livro que tiro de dentro da sacola.
A felicidade chamada Michele está online e comenta a publicação da outra felicidade chamada Bárbara:
"Não sou amiga, mas adorei!"
E pra felicidade completar o sorrisão pra mim, até ficar com furinhos na bochecha, ela complementa:
" E ah, o trocador eu não conheço, mas o senhorzinho do "Jesuuus está voltando!!!", já vi muito! HAHAHA"
E assim a minha felicidade passou a ter mais dois nomes.
xD
Porque janelas e portas abertas não são suficientes pra ver o mundo e as pessoas lá fora, tive que demolir uma das quatro paredes.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
quinta-feira, 16 de maio de 2013
O Homem do cheiro verde e alface
"- Cheiro veeeeerde e alface!"
Do jardim, e acho que em qualquer canto da minha casa, eu consigo ouvir o homem simples que passa na rua. A rua quase deserta do meu bairro, em torno das nove da manhã. O vendedor faz repetidos anúncios do seu produto verde usando o método mais tradicional: sua própria voz, e repetindo sempre "Cheiro verde e alface". Até que uma hora ele cansa e anuncia apenas o cheiro verde, prolongando ainda mais a pronúncia da segunda palavra, como pra compensar a ausência do alface.
De férias do trabalho, eu aproveito pra voltar às minhas raízes. De corpo inteiro de volta à infância. De volta à minha casa. Sempre andando descalça e ouvindo minha mãe com sua incansável ladainha "Calça a chinela, menina!"
Eu não me importo com chinelas e vou curiosa até o portão pra saber como o dono daquela voz é. Como meu querido personagem da vida real é. Como é seu andar. Como é seu rosto. Onde ele carrega o cheiro verde e o alface.
Ele já tinha caminhado mais da metade da rua, quando eu apareci no portão. De costas pra mim, eu não pude ver seu rosto. Magro e baixinho, ele seguia em frente carregando um carrinho de mão, sobre o qual havia um pano cuidadosamente colocado para receber os cheiros verdes e alfaces. Enquanto eu o observava, reparava também, com alguma expectativa, nos portões das casas vizinhas. Com formação em publicidade, passei a ter o hábito de observar se determinado anúncio faz efeito nas pessoas. Fiquei esperando alguém aparecer com moedinhas a fim de trocar por verduras. Mas o homenzinho parecia não esperar ninguém. Resignado, ele prosseguia com seu carrinho e seu tom de voz já cansada.
Fiquei observando até ele desaparecer como uma miragem que, de repente, se desfaz. Pensei: " Poxa, ninguém comprou as verdurinhas dele! Tomara que nas outras ruas dê certo" Voltei pro jardim e tranquei o portão por medo de assalto. E agora eu tô matutando que tenho até a próxima semana, minha última semana de férias, pra ficar a postos, esperando por ele com minha bolsinha de moedas na mão. Na rua 13 ele vai ganhar uma cliente vegetariana.
Do jardim, e acho que em qualquer canto da minha casa, eu consigo ouvir o homem simples que passa na rua. A rua quase deserta do meu bairro, em torno das nove da manhã. O vendedor faz repetidos anúncios do seu produto verde usando o método mais tradicional: sua própria voz, e repetindo sempre "Cheiro verde e alface". Até que uma hora ele cansa e anuncia apenas o cheiro verde, prolongando ainda mais a pronúncia da segunda palavra, como pra compensar a ausência do alface.
De férias do trabalho, eu aproveito pra voltar às minhas raízes. De corpo inteiro de volta à infância. De volta à minha casa. Sempre andando descalça e ouvindo minha mãe com sua incansável ladainha "Calça a chinela, menina!"
Eu não me importo com chinelas e vou curiosa até o portão pra saber como o dono daquela voz é. Como meu querido personagem da vida real é. Como é seu andar. Como é seu rosto. Onde ele carrega o cheiro verde e o alface.
Ele já tinha caminhado mais da metade da rua, quando eu apareci no portão. De costas pra mim, eu não pude ver seu rosto. Magro e baixinho, ele seguia em frente carregando um carrinho de mão, sobre o qual havia um pano cuidadosamente colocado para receber os cheiros verdes e alfaces. Enquanto eu o observava, reparava também, com alguma expectativa, nos portões das casas vizinhas. Com formação em publicidade, passei a ter o hábito de observar se determinado anúncio faz efeito nas pessoas. Fiquei esperando alguém aparecer com moedinhas a fim de trocar por verduras. Mas o homenzinho parecia não esperar ninguém. Resignado, ele prosseguia com seu carrinho e seu tom de voz já cansada.
Fiquei observando até ele desaparecer como uma miragem que, de repente, se desfaz. Pensei: " Poxa, ninguém comprou as verdurinhas dele! Tomara que nas outras ruas dê certo" Voltei pro jardim e tranquei o portão por medo de assalto. E agora eu tô matutando que tenho até a próxima semana, minha última semana de férias, pra ficar a postos, esperando por ele com minha bolsinha de moedas na mão. Na rua 13 ele vai ganhar uma cliente vegetariana.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Je-sus!
Subi no ônibus. A moça que subiu primeiro tinha mechas roxas por baixo dos cabelos desalinhados. Tinha também uma tatuagem qualquer estampada na panturrilha. "Qualquer", porque ainda não trabalhei a habilidade de observar todos os detalhes no caos das inércias dos ônibus do transporte público daqui de Fortaleza. Mas o que era a tatuagem não importa. O que importa é que presenciei uma situação divertida. Um diálogo divertido entre a moça das mechas roxas e o trocador.
Trocador:
- Como é?
A moça tinha acabado de passar pela catraca e resmungava alguma coisa que não ouvi, mas o trocador sim.
Não obtendo resposta, o trocador insistiu:
- O que é?!
A moça se desentendia com sua própria bolsa, ou melhor, com a confusão de coisas dentro da sua bolsa, quando se deu conta do trocador.
Moça:
- Oi?
Trocador:
- Não, é que você falou meu nome, aí...
Moça:
- Eu falei teu nome? Em que momento?
Trocador:
- Você falou: "Jesus"
A moça, incrédula:
- Sério que teu nome é Jesus? (Risadas)
Fiquei imaginando o que a moça das mechas roxas tinha dito no momento em que falou "Jesus." Com certeza não era afirmação parecida com a do senhorzinho careca e profeta, que sempre está na janela dos ônibus gritando aos quatro ventos, com toda a força que ainda lhe resta nos pulmões: -"Jesuuus está voltando!!!"
Na hora da moça guardar o troco, talvez a briga com a bolsa tivesse feia o bastante pra ela reclamar com certa impaciência algo parecido com: " Ow, Jesus!" E o trocador quis saber "o que é que tem eu?" Como aquela passageira sabia o nome dele sem nem ao menos ele ter se apresentado? E a moça das mechas roxas e tatuagem na panturrilha parecia não acreditar que existe outro Jesus no mundo. Um Jesus de carne e osso, mortal e, ainda por cima, trocador de ônibus. Talvez a moça do cabelo semi-roxo fale "Jesus" só por falar. Tem gente que vive resmungando e colocando o "Jesus" no meio ou no final ou no início.
Trocador:
- Como é?
A moça tinha acabado de passar pela catraca e resmungava alguma coisa que não ouvi, mas o trocador sim.
Não obtendo resposta, o trocador insistiu:
- O que é?!
A moça se desentendia com sua própria bolsa, ou melhor, com a confusão de coisas dentro da sua bolsa, quando se deu conta do trocador.
Moça:
- Oi?
Trocador:
- Não, é que você falou meu nome, aí...
Moça:
- Eu falei teu nome? Em que momento?
Trocador:
- Você falou: "Jesus"
A moça, incrédula:
- Sério que teu nome é Jesus? (Risadas)
Fiquei imaginando o que a moça das mechas roxas tinha dito no momento em que falou "Jesus." Com certeza não era afirmação parecida com a do senhorzinho careca e profeta, que sempre está na janela dos ônibus gritando aos quatro ventos, com toda a força que ainda lhe resta nos pulmões: -"Jesuuus está voltando!!!"
Na hora da moça guardar o troco, talvez a briga com a bolsa tivesse feia o bastante pra ela reclamar com certa impaciência algo parecido com: " Ow, Jesus!" E o trocador quis saber "o que é que tem eu?" Como aquela passageira sabia o nome dele sem nem ao menos ele ter se apresentado? E a moça das mechas roxas e tatuagem na panturrilha parecia não acreditar que existe outro Jesus no mundo. Um Jesus de carne e osso, mortal e, ainda por cima, trocador de ônibus. Talvez a moça do cabelo semi-roxo fale "Jesus" só por falar. Tem gente que vive resmungando e colocando o "Jesus" no meio ou no final ou no início.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Esse cara que olha pra dentro da gente
O homem, que olha pra dentro da gente, parece ser
um cara comum, como qualquer outro. Não nasceu com poderes especiais dos heróis
de quadrinhos. Não se revela como
personagem central nas narrativas do cotidiano. Tem seus defeitos de fabricação
e os desenvolvidos ao longo de sua existência. Tem seus estresses e anseios. Não
é bem um “Homem que é Homem”, como dizem. Ele também chora. Pode muito bem ainda
não saber o que quer desta vida. É inseguro. É medroso. Enfim, ele lembra um
homem normal.
Justamente por isto, o cara que olha pra dentro da
gente consegue nos pegar de surpresa e, de quebra, não deixar outra alternativa
a não ser a de corresponder ao contato visual (quase espiritual). É muito
provável que este homem descubra mulheres tímidas o suficiente para desviar o
olhar, deixando-o solitário no fixo jeito de olhar. Mas estas também alimentam
a mesma curiosidade daquelas que têm coragem de encarar.
O olhar é sem segundas intenções, por incrível
que pareça. Vem em forma de confissão. Quase chega a gritar: "Ei, moça, eu
estou te vendo, de verdade!" Ou, no caso do seu par, do seu amor
lindamente possível e correspondido: "Ei, moça, eu te vejo e eu te amo,
de verdade!". É um grito mesmo, contido nos lábios e incontido nos olhos.
É mais ou menos dessa forma que o cara que
olha pra dentro da gente consegue nos abduzir sem necessariamente ser um ET.
Eu não faço ideia de quais meios este homem utiliza
para alcançar tal ato de coragem. Coragem
de lançar-se sobre o temido, quase mitológico, interior feminino. Eu não faço
ideia disso, mas faço questão de reparar nessas pessoas que conseguem olhar pra
dentro de seus semelhantes e, principalmente, dos seus nadinha semelhantes.
Essa gente, ao meu ver, é um “Esse cara sou eu” do Roberto Carlos. É o cara! Palmas para pessoas assim.
domingo, 21 de abril de 2013
O espetáculo atrás da coxia do palco
![]() | |
| Grupo Diego Borges Dança de Salão |
Até chegar a este momento aí registrado na foto, foram muitos encontros, desencontros, risadas, "bullying", aplausos e gritos de torcida trocados entre dançarinos. Antes mesmo de dançarinos, pessoas de bem e parceiras, como diria nosso querido e carismático professor Diego.
Antes da portaria permitir a entrada do público, foram muitas decisões tomadas em grupo. Foram muitos ensaios e, a cada término destes, todos formavam um círculo. Os mais exaustos se rendiam ao chão, sentados feito crianças ou deitados no colo do amigo mais próximo. Nessas rodas discutia-se sobre quando, que horas seria o próximo ensaio, quem poderia ou não comparecer, quando não, isso não era problema, via-se a dama ou o cavalheiro dançando com sua parceira invisível. (Ok, meus olhos se encheram d'água agora ao perceber um sentido forte o bastante pra explicar isso: o amor pela arte. A arte de dizer o que não dá pra traduzir com a fala, e sim com o corpo e toda sua desenvoltura).
Diante do que presenciei durante os preparativos e execução do evento "Sun City Swing 2013", pra mim, e acredito que para todos, fato é que o espetáculo já se inicia antes mesmo de darmos o primeiro passo na direção da coxia do palco. Não somos banhados por luzes só naquele momento em que saímos da coxia não, já somos iluminados só de pensarmos em construir algo em conjunto.
Eu poderia acabar o relato aqui, mas eu preciso compartilhar uma sensação que tive na parte final do espetáculo, quando cada grupinho de 3 a 4 pessoas aparecia no palco para cumprimentar o público. Mas não era só aparecer de qualquer jeito, cada grupinho criou sua própria mini-coreografia. Até nisso nossos professores e coreógrafos acertaram em cheio. A ideia de dar autonomia aos alunos, ou melhor, "alumigos", para inventarem seus passinhos em parceria com o amigo do lado é linda demais. Percebi isso ao olhar pro lado, quando já estávamos, eu e mais três parceiras, centralizadas em fila horizontal no meio do palco. Então, comecei a brincadeira do passinho em sincronia com a amiga que ficava na outra ponta da fila, enquanto as duas do meio faziam um passo diferente. (Confesso que olhei pra amiga da outra ponta da fila pra garantir a sincronia do passo, mas me surpreendi ao notar o quanto ela estava linda e todas nós estávamos lindas ali, compartilhando algo que construímos juntas)
sexta-feira, 19 de abril de 2013
O trocador de sorrisos da 03
" Sejam bem-vindos." Foi o que ouvi ao pegar a 03 hoje à noite. Era o trocador, um senhor muito comunicativo com escrachado talento para ser um belo de um locutor de rádio do povão. "Povão" no sentido de gente de verdade, que acorda de madrugada para batalhar num trabalho suado, gente que, mesmo na dificuldade, sabe tratar bem o outro (conhecido ou não), sabe sorrir naturalmente e fazer o outro sorrir junto.
Assim é o trocador da 03 desta noite. Ele fez eu seguir o percurso inteiro com um sorriso bobo no rosto. Foi a viagem mais rápida da história. Sonhei que durasse por mais tempo ou que ele se tornasse o único trocador de topics, dividido em mil clones.
A cada passageiro, ele direciona sua voz forte e carregada de bom humor. Aos que estão de chegada, antes mesmo de passarem pela catraca, o bom cidadão faz questão de já deixar claro que é um prazer tê-los ali presentes.
- Boa noite. Bem-vindos! Boa noite para todos nós!
Então, os passageiros bem-vindos se aproximam da catraca e recebem o boa noite animado de quem provavelmente passou o dia ( a noite) ali, indo e voltando pelo mesmo roteiro de avenidas e ruas, recebendo e trocando moedas e agradecendo muito por isso.
Aí, esses passageiros, contagiados pela gentileza do trocador, resolvem agradecê-lo. E o que ele responde: "- Eu é que agradeço! Pra mim é um prazer!"
Eu estava quietinha, com meu sorriso de boba estampado na cara, sentada próxima a ele. Fiquei de ladinho na cadeira para que eu pudesse observá-lo de frente, já pensando em apresentá-lo como personagem real aqui no três paredes. Pensei bastante antes de chegar na minha parada. Eu pensava em como eu poderia agradecer o tamanho bem-estar que ele deu de presente pra todo mundo ali. Como eu poderia fazer ele tomar conhecimento do bem que me fez.
Como expressar o que senti, eu não soube e ainda não sei, mas aproveitei aquele momento de avisar que "desce na próxima" pra cutucar o braço dele e, quando olhou nos meus olhos, me ouviu dizer:
" Parabéns pelo seu trabalho!"
Eu quis ter dito algo mais bonito, mas ele me pareceu bem feliz e satisfeito com o que ouviu, embora mais uma vez tenha devolvido o elogio que ganhou de volta pra quem o fez.
Assim é o trocador da 03 desta noite. Ele fez eu seguir o percurso inteiro com um sorriso bobo no rosto. Foi a viagem mais rápida da história. Sonhei que durasse por mais tempo ou que ele se tornasse o único trocador de topics, dividido em mil clones.
A cada passageiro, ele direciona sua voz forte e carregada de bom humor. Aos que estão de chegada, antes mesmo de passarem pela catraca, o bom cidadão faz questão de já deixar claro que é um prazer tê-los ali presentes.
- Boa noite. Bem-vindos! Boa noite para todos nós!
Então, os passageiros bem-vindos se aproximam da catraca e recebem o boa noite animado de quem provavelmente passou o dia ( a noite) ali, indo e voltando pelo mesmo roteiro de avenidas e ruas, recebendo e trocando moedas e agradecendo muito por isso.
Aí, esses passageiros, contagiados pela gentileza do trocador, resolvem agradecê-lo. E o que ele responde: "- Eu é que agradeço! Pra mim é um prazer!"
Eu estava quietinha, com meu sorriso de boba estampado na cara, sentada próxima a ele. Fiquei de ladinho na cadeira para que eu pudesse observá-lo de frente, já pensando em apresentá-lo como personagem real aqui no três paredes. Pensei bastante antes de chegar na minha parada. Eu pensava em como eu poderia agradecer o tamanho bem-estar que ele deu de presente pra todo mundo ali. Como eu poderia fazer ele tomar conhecimento do bem que me fez.
Como expressar o que senti, eu não soube e ainda não sei, mas aproveitei aquele momento de avisar que "desce na próxima" pra cutucar o braço dele e, quando olhou nos meus olhos, me ouviu dizer:
" Parabéns pelo seu trabalho!"
Eu quis ter dito algo mais bonito, mas ele me pareceu bem feliz e satisfeito com o que ouviu, embora mais uma vez tenha devolvido o elogio que ganhou de volta pra quem o fez.
terça-feira, 16 de abril de 2013
O feitiço contra a feiticeira
A bobona aqui vai catar as moedas enterradas lá no fundo da bolsa, naquela agonia da espera da topic às dez horas da noite, quando, diante da bagunça de notas fiscais mais moedas mais carteira de estudante mais batom, mais tudo no mundo, ao invés de encontrar 1 real e 10 centavos, dá de cara com a barata de mentirinha que pegou emprestada da amiga pra fazer molecagem com os amigos.
E o legal de tudo é que, antes disso, eu tava borocochô. Depois disso, meu riso frouxo guardado escapuliu.
Parecia uma bobinha-bobona, rindo sozinha e falando quase em voz alta:
" - Rá! O feitiço vira contra a feiticeira!"
E o legal de tudo é que, antes disso, eu tava borocochô. Depois disso, meu riso frouxo guardado escapuliu.
Parecia uma bobinha-bobona, rindo sozinha e falando quase em voz alta:
" - Rá! O feitiço vira contra a feiticeira!"
terça-feira, 9 de abril de 2013
Quem não tem colírio, usa óculos.
Semana passada, eu perdi um par de olhos com seu belo par de pernas que se encaixam direitinho nas minhas orelhas. Nem preciso dizer que eu fiquei louca, atônita, tonta, perdida no universo, deslocada, sem saber o que seria de mim, enfim, tudo de ruim da face da terra.
Depois de procurar em todos os possíveis cantos onde eles pudessem estar e não achá-los, me vi sendo um daqueles personagens de desenho animado, que continuam correndo mesmo sem ter mais chão e que no final se dão conta disso, quando já não tem mais jeito. Assim eu pude curtir meu inferno astral naquele dia. Era uma segunda-feira.
Depois de me desesperar, de sair perguntando pra todo mundo do trabalho a respeito do paradeiro dos meus famosos óculos de grau ( se duvidar, até o superintendente já estaria sabendo que eu tinha perdido meus óculos); depois de fazer aquela clássica reconstrução de caminhos, de, pelo o amor de, mandar minha memória reagir, vem o Eberson, sabe o Eberson? Já contei aqui sobre o Eberson, o homem que era invisível! (Se não leu, dá uma lidinha no post: " O Homem invisível") Foi ele que veio com meus óculos nas mãos. E eu lá, já tentando ser uma pessoa melhor, me conformando com a perda. Não teve jeito, abri o maior sorrisão. Agradeci, mas agradeci muito mesmo, e o Eberson só ria de mim. Intrigada, perguntei como ele achou. Disse que passou a vassoura debaixo do sofá e os óculos vieram junto.
Agora todo dia o Eberson "insulta" comigo, perguntando: "Cadê o óculos?" E todo dia eu me dou conta da ironia do destino que foi isso tudo: eu, que não enxergava o carinha da limpeza, perco os óculos e é ele quem os acha e me devolve. Talvez só pra garantir que eu nunca mais deixe de vê-lo ou de ver qualquer outra pessoa.
Depois de procurar em todos os possíveis cantos onde eles pudessem estar e não achá-los, me vi sendo um daqueles personagens de desenho animado, que continuam correndo mesmo sem ter mais chão e que no final se dão conta disso, quando já não tem mais jeito. Assim eu pude curtir meu inferno astral naquele dia. Era uma segunda-feira.
Depois de me desesperar, de sair perguntando pra todo mundo do trabalho a respeito do paradeiro dos meus famosos óculos de grau ( se duvidar, até o superintendente já estaria sabendo que eu tinha perdido meus óculos); depois de fazer aquela clássica reconstrução de caminhos, de, pelo o amor de, mandar minha memória reagir, vem o Eberson, sabe o Eberson? Já contei aqui sobre o Eberson, o homem que era invisível! (Se não leu, dá uma lidinha no post: " O Homem invisível") Foi ele que veio com meus óculos nas mãos. E eu lá, já tentando ser uma pessoa melhor, me conformando com a perda. Não teve jeito, abri o maior sorrisão. Agradeci, mas agradeci muito mesmo, e o Eberson só ria de mim. Intrigada, perguntei como ele achou. Disse que passou a vassoura debaixo do sofá e os óculos vieram junto.
Agora todo dia o Eberson "insulta" comigo, perguntando: "Cadê o óculos?" E todo dia eu me dou conta da ironia do destino que foi isso tudo: eu, que não enxergava o carinha da limpeza, perco os óculos e é ele quem os acha e me devolve. Talvez só pra garantir que eu nunca mais deixe de vê-lo ou de ver qualquer outra pessoa.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Ser feliz assim
Escrever com o coração; publicar; perceber que as pessoas se identificam, e sentir que você não está só nesse mundinho, sentir que você é forte de mãos dadas com muita gente.
Sentir que você é feliz assim.
Sentir que você é feliz assim.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Do tempo em que.
Tô caminhando de volta pra casa, ao mesmo tempo, tô ouvindo barulhinho de bicicleta descendo a rua.
Tô lembrando do tempo em que eu não tinha medo desse som; do tempo em que eu não via maldade nas pessoas; do tempo em que eu nunca imaginaria o menino na bicicleta vindo na minha direção, pra levar algo (não) valioso de mim.
Do tempo em que eu apenas pensaria em pegar minha bicicleta pra pedalar junto.
Tô lembrando do tempo em que eu não tinha medo desse som; do tempo em que eu não via maldade nas pessoas; do tempo em que eu nunca imaginaria o menino na bicicleta vindo na minha direção, pra levar algo (não) valioso de mim.
Do tempo em que eu apenas pensaria em pegar minha bicicleta pra pedalar junto.
segunda-feira, 25 de março de 2013
O homem invisível
Escutei meu nome, Elaine!, claramente pronunciado pela boca de um homem invisível, ou pelo menos até então invisível e até então "um" homem qualquer.
Que homem é este?
Lembra daquele filme "A Mulher Invisível"? Então(!), nada a ver com esta história aqui.
Esse homem é simplesmente o carinha que cuida da limpeza do meu local de trabalho e, sei que é vergonhosa esta confissão, mas o fato é que eu nunca o vi antes, isto é, antes de ouví-lo dizer meu nome, com pronúncia super correta. Nem minha mãe, que é minha mãe, consegue se dirigir a mim falando meu nome direitinho assim! (Ela sempre chama por uma tal de "Elane", que por acaso sou eu, E-la-i*-ne. Mas não que ela não saiba o nome que deu à própria filha, e sim por talvez achar mais prático me chamar dessa forma.
Voltando ao homem que era invisível pra mim até sexta passada. Tá certo que eu poderia alegar que onde eu trabalho (diversos veículos dentro de uma empresa só) é muito grande pra alguém ter a incrível habilidade de enxergar e decorar os traços físicos, personalidades, os rostos, os nomes ou apelidos, ou o que quer que seja de todas as pessoas que circulam por ali. E mesmo assim, mesmo com essa desculpa, ainda não me sinto confortável com a ideia do homem invisível saber o meu nome e eu não saber o dele; pior ainda: ele ter me enxergado e eu não ter enxergado ele.
Mas, tá! Nunca é tarde. Eis o momento em que eu o enxerguei pela primeira vez.
Eu tinha chegado de manhã muito cedo, pouco mais de uma hora antes do horário do expediente. As luzes estavam apagadas. O meu computador ligado. As portas sempre abertas, afinal, não tem porta nos departamentos. Eu estava quieta e com sono, sentada na minha mesa, procurando ler alguma coisa na internet. Foi então que o homem invisível se projetou na minha frente, segurando suas simples ferramentas de trabalho: balde e vassoura de pano. Olhou pra mim com ar de preocupação e disse:
- Bom dia, Elaine! Vai te atrapalhar, se eu ligar a luz?
Respondi de imediato que não tinha problema algum, mas demorei um tempão pra processar o que tinha acabado de acontecer. "Ele me chamou pelo meu nome! Como ele sabe meu nome?", pensei, surpreendida. No meu silêncio, fiquei mentalizando uma forma de retribuir aquilo. Com impulso, consegui dizer:
- Qual seu nome? Você sabe o meu e eu não sei o seu! (risadinha)
- É que eu ouvi te chamarem aqui, aí eu decorei, entendeu? Eu decoro.
- Ah, sim! Mas qual teu nome?
- Eberson!
- Everson?
- Não, é ÉBerson!
- Ah, tá! Éber-son!
E foi assim que, naquele dia, deixei de lado minha indisposição matinal para bate-papos. O homem, agora visível aos meus olhos, me contou sobre a sorte que foi a equipe da madrugada não ter sofrido nenhum acidente grave por conta do transporte que capotou.
Que homem é este?
Lembra daquele filme "A Mulher Invisível"? Então(!), nada a ver com esta história aqui.
Esse homem é simplesmente o carinha que cuida da limpeza do meu local de trabalho e, sei que é vergonhosa esta confissão, mas o fato é que eu nunca o vi antes, isto é, antes de ouví-lo dizer meu nome, com pronúncia super correta. Nem minha mãe, que é minha mãe, consegue se dirigir a mim falando meu nome direitinho assim! (Ela sempre chama por uma tal de "Elane", que por acaso sou eu, E-la-i*-ne. Mas não que ela não saiba o nome que deu à própria filha, e sim por talvez achar mais prático me chamar dessa forma.
Voltando ao homem que era invisível pra mim até sexta passada. Tá certo que eu poderia alegar que onde eu trabalho (diversos veículos dentro de uma empresa só) é muito grande pra alguém ter a incrível habilidade de enxergar e decorar os traços físicos, personalidades, os rostos, os nomes ou apelidos, ou o que quer que seja de todas as pessoas que circulam por ali. E mesmo assim, mesmo com essa desculpa, ainda não me sinto confortável com a ideia do homem invisível saber o meu nome e eu não saber o dele; pior ainda: ele ter me enxergado e eu não ter enxergado ele.
Mas, tá! Nunca é tarde. Eis o momento em que eu o enxerguei pela primeira vez.
Eu tinha chegado de manhã muito cedo, pouco mais de uma hora antes do horário do expediente. As luzes estavam apagadas. O meu computador ligado. As portas sempre abertas, afinal, não tem porta nos departamentos. Eu estava quieta e com sono, sentada na minha mesa, procurando ler alguma coisa na internet. Foi então que o homem invisível se projetou na minha frente, segurando suas simples ferramentas de trabalho: balde e vassoura de pano. Olhou pra mim com ar de preocupação e disse:
- Bom dia, Elaine! Vai te atrapalhar, se eu ligar a luz?
Respondi de imediato que não tinha problema algum, mas demorei um tempão pra processar o que tinha acabado de acontecer. "Ele me chamou pelo meu nome! Como ele sabe meu nome?", pensei, surpreendida. No meu silêncio, fiquei mentalizando uma forma de retribuir aquilo. Com impulso, consegui dizer:
- Qual seu nome? Você sabe o meu e eu não sei o seu! (risadinha)
- É que eu ouvi te chamarem aqui, aí eu decorei, entendeu? Eu decoro.
- Ah, sim! Mas qual teu nome?
- Eberson!
- Everson?
- Não, é ÉBerson!
- Ah, tá! Éber-son!
E foi assim que, naquele dia, deixei de lado minha indisposição matinal para bate-papos. O homem, agora visível aos meus olhos, me contou sobre a sorte que foi a equipe da madrugada não ter sofrido nenhum acidente grave por conta do transporte que capotou.
terça-feira, 19 de março de 2013
Meu arranhão,
Depois de muito tempo sem nenhum arranhão em parte alguma do corpo, olha só, olha aqui meu cotovelo! Roxo com casquinha de ferida no meio seguindo em ziguezague. Parece cicatrizar a cada minuto. Parece até que logo, logo vai desaparecer da minha pele. Eu não quero que suma de repente. Eu quero mostrar meu arranhão como quem levanta um troféu pra todo mundo ver.
Não estou fazendo metáfora. Este não é um texto pra dizer que estou me curando de uma "dor de cotovelo". É apenas pra contar que voltei a ser menina; que voltei a não ter medo de cair, de me esborrachar no chão e levantar em seguida, chorando ou não. Parece até que estou naquela época em que eu calçava os patins pela primeira vez e saía me apoiando na mão do meu melhor amiguinho, até que eu pudesse seguir patinando sozinha, correndo riscos por conta própria.
O arranhão passou a fazer parte do meu cotovelo esquerdo depois de eu escalar uma garrafa de coca-cola gigante em uma ação promocional na praia. Foi até engraçada a cena: eu, que não consumo refrigerante há anos, por opção e por achar que não é nada legal pra saúde, agarrada a uma garrafa de Coca-Cola, fazendo força pra alcançar o topo, ou melhor, a tampa. Já sentindo arder o cotovelo, a aventura seguinte era descer na tirolesa; moleza, ao menos eu não tive que tirar forças de onde eu já não tinha.
E assim eu sigo nesses últimos meses, enfrentando medos bobos: indo duas vezes no Calafrio do Beach Park (Insana ainda não, tá?!), - sem fechar os olhos, sem gritar -; permitindo dois amigos me levantarem até o teto nos ensaios de coreografia, - sem o medo pintado no meu rosto-; escalando refrigerantes que eu não bebo, etc e etc.
Assim tem sido. E é assim que eu volto a escrever por aqui, sem medo de publicar textos bobinhos, sem medo de tentar tocar o coração de quem me ler.
Não estou fazendo metáfora. Este não é um texto pra dizer que estou me curando de uma "dor de cotovelo". É apenas pra contar que voltei a ser menina; que voltei a não ter medo de cair, de me esborrachar no chão e levantar em seguida, chorando ou não. Parece até que estou naquela época em que eu calçava os patins pela primeira vez e saía me apoiando na mão do meu melhor amiguinho, até que eu pudesse seguir patinando sozinha, correndo riscos por conta própria.
O arranhão passou a fazer parte do meu cotovelo esquerdo depois de eu escalar uma garrafa de coca-cola gigante em uma ação promocional na praia. Foi até engraçada a cena: eu, que não consumo refrigerante há anos, por opção e por achar que não é nada legal pra saúde, agarrada a uma garrafa de Coca-Cola, fazendo força pra alcançar o topo, ou melhor, a tampa. Já sentindo arder o cotovelo, a aventura seguinte era descer na tirolesa; moleza, ao menos eu não tive que tirar forças de onde eu já não tinha.
E assim eu sigo nesses últimos meses, enfrentando medos bobos: indo duas vezes no Calafrio do Beach Park (Insana ainda não, tá?!), - sem fechar os olhos, sem gritar -; permitindo dois amigos me levantarem até o teto nos ensaios de coreografia, - sem o medo pintado no meu rosto-; escalando refrigerantes que eu não bebo, etc e etc.
Assim tem sido. E é assim que eu volto a escrever por aqui, sem medo de publicar textos bobinhos, sem medo de tentar tocar o coração de quem me ler.
sábado, 24 de novembro de 2012
Elaine vegetariana versus Sogra
Estou eu, lá no meu cantinho da mesa da cozinha, já pondo a última garfada na boca do prato preparado por mim, trazido de casa e no qual há pouco tinha arroz integral, berinjela, soja com cebola e alho batida no liquidificador com molho de tomate, rodelas de batata, cenoura e beterraba, -os dois últimos generosamente servidos pela sogra-, quando ela me vem com a panela e-nor-me, retira a tampa, sobe aquele cheiro que já não é mais nada familiar, e insulta:
- Ó, olha, olha! Morra de inveja do meu frango!
Fazer o quê? Tive que fingir que olhei pro frango, tadinho, morto ao molho branco. Fingir que o mau cheiro não me incomodou. Tive que ser vegetariana simpática mais uma vez. Todas as vezes, aliás, pra não ficar com fama de "cheia das frescuras."
- Ó, olha, olha! Morra de inveja do meu frango!
Fazer o quê? Tive que fingir que olhei pro frango, tadinho, morto ao molho branco. Fingir que o mau cheiro não me incomodou. Tive que ser vegetariana simpática mais uma vez. Todas as vezes, aliás, pra não ficar com fama de "cheia das frescuras."
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Se sorrir pra mim,.
Na Bienal Internacional do Livro daqui, do Ceará, tinha um rapaz segurando uma plaquinha branca que "gritava" em letras pretas garrafais, mais ou menos assim:
SE SORRIR PRA MIM AGORA, GANHA UM POEMA.
Que pressão! Não ganhei poema; não queria mesmo! Mas não me entenda mal, acho lindo poema. Apenas achei a condicional desafiante demais "pro meu gosto", como diz minha mãe. Não consegui sorrir pra ele, assim como não consigo sorrir para tantas coisas desse mundo.
Já perdi as contas de quantas vezes observei situações nada risonhas da cidade, e, que tola, sequei a lágrima contida que escapuliu, passando rapidamente as costas da mão nas maças do rosto. Ah, a timidez que dá essa emoção escancarada de uma provável manteiga (melhor margarina) derretida. A mão nervosa, "limpando" a cara, parece ordenar: "Engole o choro, menina!" Que loucura é essa de supor que a compaixão é vergonhosa?
"Que mundo feio!". Eu me envergonho mesmo é de me expressar desse jeito ao final de um papo sério. Pobre mundo, incriminado injustamente. Pobre a gente, que tira a beleza dele.
SE SORRIR PRA MIM AGORA, GANHA UM POEMA.
Que pressão! Não ganhei poema; não queria mesmo! Mas não me entenda mal, acho lindo poema. Apenas achei a condicional desafiante demais "pro meu gosto", como diz minha mãe. Não consegui sorrir pra ele, assim como não consigo sorrir para tantas coisas desse mundo.
Já perdi as contas de quantas vezes observei situações nada risonhas da cidade, e, que tola, sequei a lágrima contida que escapuliu, passando rapidamente as costas da mão nas maças do rosto. Ah, a timidez que dá essa emoção escancarada de uma provável manteiga (melhor margarina) derretida. A mão nervosa, "limpando" a cara, parece ordenar: "Engole o choro, menina!" Que loucura é essa de supor que a compaixão é vergonhosa?
"Que mundo feio!". Eu me envergonho mesmo é de me expressar desse jeito ao final de um papo sério. Pobre mundo, incriminado injustamente. Pobre a gente, que tira a beleza dele.
domingo, 11 de novembro de 2012
Preferencial para gentilezas
Outro dia, eu estava no supermercado e vi o caixa preferencial de bobeira. Levei meu 1kg de maças e duas goiabas até lá, mas logo uma senhora muito bem vestida e maquiada surgiu também com poucas comprinhas, no máximo, dois itens. Claro que cumpri meu dever de respeitar o direito dos mais velhos, ou melhor, dos mais experientes, cedendo a vez que não era minha.
Mas a senhora apenas olhou nos meus olhos e disse:
- Não, querida. Pode passar primeiro.
Eu não achei justa a ideia e abri caminho, pedindo várias vezes que ela tomasse minha frente. Mas a senhora, que podia ser a avó que eu nunca tive, insistiu no "Não, não! Pode ficar!". E passou a buscar uma boa justificativa pra eu não me sentir mal. Nem precisou me observar muito para, diante da minha aparência de 15 anos (mas já quase nos meus 25), tentar adivinhar meu destino:
- Tá indo pro colégio?
Então, dei uma risadinha, achando a situação e aquela senhora muito meiga e gentil. Se ainda havia alguma chance de eu convencê-la de que tinha o direito de passar na minha frente, perdi ao responder:
- Não, não...indo pro trabalho.
Ela parecia satisfeita. Tinha encontrado a grande razão de ceder sua vez. Então, colocou-se no meu lugar, não no sentido de espaço, mas de empatia mesmo:
- Ah! Trabalho? Eu sei como é, minha filha. Eu sei porque eu já trabalhei! Pode passar logo, eu espero, não tem problema.
E só me deu a opção de sorrir e agradecê-la. Saí de lá pensando que ela poderia ser a presença de vó no meu cotidiano. Saí pensando também que o mundo não está perdido.
Mas a senhora apenas olhou nos meus olhos e disse:
- Não, querida. Pode passar primeiro.
Eu não achei justa a ideia e abri caminho, pedindo várias vezes que ela tomasse minha frente. Mas a senhora, que podia ser a avó que eu nunca tive, insistiu no "Não, não! Pode ficar!". E passou a buscar uma boa justificativa pra eu não me sentir mal. Nem precisou me observar muito para, diante da minha aparência de 15 anos (mas já quase nos meus 25), tentar adivinhar meu destino:
- Tá indo pro colégio?
Então, dei uma risadinha, achando a situação e aquela senhora muito meiga e gentil. Se ainda havia alguma chance de eu convencê-la de que tinha o direito de passar na minha frente, perdi ao responder:
- Não, não...indo pro trabalho.
Ela parecia satisfeita. Tinha encontrado a grande razão de ceder sua vez. Então, colocou-se no meu lugar, não no sentido de espaço, mas de empatia mesmo:
- Ah! Trabalho? Eu sei como é, minha filha. Eu sei porque eu já trabalhei! Pode passar logo, eu espero, não tem problema.
E só me deu a opção de sorrir e agradecê-la. Saí de lá pensando que ela poderia ser a presença de vó no meu cotidiano. Saí pensando também que o mundo não está perdido.
sábado, 20 de outubro de 2012
Tudo termina bem (num mundo inventado)
Enquanto tomava café, vidrada na tv que alguém ligou na cozinha, passando TV Globinho, vejo desenhos mostrando para os pequenos o medo dos porquinhos de ir pra panela (episódio da versão em desenho do Sítio do Picapau Amarelo).
Logo em seguida, desenho da "Mônica" sozinha em casa, morrendo de fome, preparando mingau, e o gatinho aterrorizado fugindo pela casa, achando que ela ia jogá-lo na panela com água fervente.
Mas, claro, tudo terminou bem! Ninguém tinha intenção de transformar os bichinhos em comida.
Acho que o escritor é vegano. (:
Logo em seguida, desenho da "Mônica" sozinha em casa, morrendo de fome, preparando mingau, e o gatinho aterrorizado fugindo pela casa, achando que ela ia jogá-lo na panela com água fervente.
Mas, claro, tudo terminou bem! Ninguém tinha intenção de transformar os bichinhos em comida.
Acho que o escritor é vegano. (:
sábado, 13 de outubro de 2012
- Tô triste!
O que fazer quando uma criança chega pra você e desabafa:
- "Tô triste"
- Mas por quê?
- "Meu pai esqueceu de trazer o 'vídeo game' " !
- Ah, pera aí...Aqui oh, joga o joguinho do meu celular (dos mais pebinhas)
E lá estava o pequeno sentadinho na cadeira, todo entretido com um joguinho de carrinho dos mais simples.
E eu fico pensando: ah, se tristeza de gente grande fosse fácil de resolver (acabar) assim!
domingo, 23 de setembro de 2012
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
O que é fofo
Pois bem, o que eu acho bonitinho; sem bem que bonitinho não, já que dizem que é apelido de feio. O que eu acho fofo, pronto!
Fofo é receber uma ligação da minha mãe, enquanto estou concentrada no trabalho, analisando o que mostra a tela do computador, e ouvir ela assim:
- Oi, Filha. Vai chegar tarde hoje da aula? Quer que eu prepare uma sopinha?
Eu: - Oww...Hum, não vai por Knorr de galinha não, né?
Ela: - Não, não, o de legumes! (Aquela mãe já preparada para conviver com os "estranhos" hábitos alimentares da filha)
Eu: - Oww..Brigada, Mãe!
Cheguei às 22 horas em casa e corri pro notebook pra escrever aqui no blog, claro que com a sopa na cabeça e, principalmente, com a lembrança da ligação fofa. Então, meu pai aparece no meu quarto e dá um aviso importante:
- Tem sopa vegana, Filha! Vou dormir. Boa noite!
( Tão lindo, falando "sopa vegana"! E pensar que, meses atrás, ele franzia a testa enquanto me ouvia falar sobre veganismo)
A sopa estava uma delícia, e eu sou nada sem esses dois.
Fofo é receber uma ligação da minha mãe, enquanto estou concentrada no trabalho, analisando o que mostra a tela do computador, e ouvir ela assim:
- Oi, Filha. Vai chegar tarde hoje da aula? Quer que eu prepare uma sopinha?
Eu: - Oww...Hum, não vai por Knorr de galinha não, né?
Ela: - Não, não, o de legumes! (Aquela mãe já preparada para conviver com os "estranhos" hábitos alimentares da filha)
Eu: - Oww..Brigada, Mãe!
Cheguei às 22 horas em casa e corri pro notebook pra escrever aqui no blog, claro que com a sopa na cabeça e, principalmente, com a lembrança da ligação fofa. Então, meu pai aparece no meu quarto e dá um aviso importante:
- Tem sopa vegana, Filha! Vou dormir. Boa noite!
( Tão lindo, falando "sopa vegana"! E pensar que, meses atrás, ele franzia a testa enquanto me ouvia falar sobre veganismo)
A sopa estava uma delícia, e eu sou nada sem esses dois.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Quem disse que não pode sair por aí amando todo mundo?
Já sentiu o coração ocupando mais espaço do seu corpo? Assim, muito além do peito ou do que chamam de espírito. Assim, descompassado mesmo!
Ah, e todos teriam mais razões pra viver. A gente experimentando distribuir amor, compreendendo que não há exagero nem exclusividade nesse sentimento do peito, da cabeça, das pernas, dos braços, - porque o amor não fica só ali, concentrado na área onde bate o coração-. Porque ele tende a se espalhar, dirigindo-se de quem o sente a um outro corpo, a uma outra alma. Melhor: a uma porção de corpos, a uma porção de almas.
E se isso é tão bom, e se isso nos faz tão bem, por que a gente não diz pra qualquer um, para um estranho mesmo:
- Ei! Eu te amo, sabia?
Será que nos mandariam para um manicômio? Ou nos chamariam de "Jesus"? Ou mesmo de impostor?
Quem disse que não podia? Quem disse que não pode sair por aí amando todo o mundo?
Ah, e todos teriam mais razões pra viver. A gente experimentando distribuir amor, compreendendo que não há exagero nem exclusividade nesse sentimento do peito, da cabeça, das pernas, dos braços, - porque o amor não fica só ali, concentrado na área onde bate o coração-. Porque ele tende a se espalhar, dirigindo-se de quem o sente a um outro corpo, a uma outra alma. Melhor: a uma porção de corpos, a uma porção de almas.
E se isso é tão bom, e se isso nos faz tão bem, por que a gente não diz pra qualquer um, para um estranho mesmo:
- Ei! Eu te amo, sabia?
Será que nos mandariam para um manicômio? Ou nos chamariam de "Jesus"? Ou mesmo de impostor?
Quem disse que não podia? Quem disse que não pode sair por aí amando todo o mundo?
sábado, 1 de setembro de 2012
Por que só agora?
E eu me pergunto.
Aliás, lanço a pergunta pra ela, pra minha amiga Natália:
- Poxa, por que a gente não consegue descobrir logo a maldade que tem por trás das coisas? Por que só vim descobrir ou abrir mais meus olhos só agora?
(sobre a crueldade dos humanos com os animais)
E a resposta de uma pessoa linda só poderia ser:
- Isso tem a ver com maturidade, eu acho; tem a ver com visão de mundo, quando a gente deixa de pensar só na gente pra pensar no mundo e nos outros!
Aliás, lanço a pergunta pra ela, pra minha amiga Natália:
- Poxa, por que a gente não consegue descobrir logo a maldade que tem por trás das coisas? Por que só vim descobrir ou abrir mais meus olhos só agora?
(sobre a crueldade dos humanos com os animais)
E a resposta de uma pessoa linda só poderia ser:
- Isso tem a ver com maturidade, eu acho; tem a ver com visão de mundo, quando a gente deixa de pensar só na gente pra pensar no mundo e nos outros!
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Uma mudança assim, meio light
Sim, as pessoas mudam, e eu mudei.
Claro que muitas coisas permaneceram, como o meu apego por este blog e o meu prazer de ler e escrever. Não troquei de amigos, nem de família, nem de namorado. Não renovei meu guarda-roupa. Não mudei de profissão.
Só mudei os cardápios. Os cardápios por aí não me dão muita opção, mas eu me dou a opção de não comer mais bichinhos, nem o que deriva deles. Então, eu procuro cantos especializados. Eu faço o meu próprio jantar. Só lamento por minha mãe, que, vez ou outra, fica toda saudosista:
- Ah, ela adorava as minhas comidas!
E aí que eu não tomo mais leite de vaquinhas "felizes" de propaganda (nem de canto nenhum), não como mais farofa de ovos. Eu tô assim, "0% Lactose 0% Colesterol".
Eu deixei de ser aquela que morria pela boca; aquela magra que pensa como gorda.
Eu agora, mais do que nunca, sou do contra.
Contra sofrimento dos bichos, que pra mim são que nem gente: sentem medo, dor, frio, calor (Vegetal não tem sistema nervoso pra sentir essas coisas); contra impacto ambiental, etc e tal.
Eu sou a favor da saúde do planeta e de toda e qualquer espécie que habita nele. Eu acredito que bicho tem seus direitos.
Parece que agora já tenho mais ou menos uma ideia do que significa "você é o que come".
Claro que muitas coisas permaneceram, como o meu apego por este blog e o meu prazer de ler e escrever. Não troquei de amigos, nem de família, nem de namorado. Não renovei meu guarda-roupa. Não mudei de profissão.
Só mudei os cardápios. Os cardápios por aí não me dão muita opção, mas eu me dou a opção de não comer mais bichinhos, nem o que deriva deles. Então, eu procuro cantos especializados. Eu faço o meu próprio jantar. Só lamento por minha mãe, que, vez ou outra, fica toda saudosista:
- Ah, ela adorava as minhas comidas!
E aí que eu não tomo mais leite de vaquinhas "felizes" de propaganda (nem de canto nenhum), não como mais farofa de ovos. Eu tô assim, "0% Lactose 0% Colesterol".
Eu deixei de ser aquela que morria pela boca; aquela magra que pensa como gorda.
Eu agora, mais do que nunca, sou do contra.
Contra sofrimento dos bichos, que pra mim são que nem gente: sentem medo, dor, frio, calor (Vegetal não tem sistema nervoso pra sentir essas coisas); contra impacto ambiental, etc e tal.
Eu sou a favor da saúde do planeta e de toda e qualquer espécie que habita nele. Eu acredito que bicho tem seus direitos.
Parece que agora já tenho mais ou menos uma ideia do que significa "você é o que come".
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Minha Religião?
Tem coisa mais bonita do que entender as razões do outro e isso resultar numa reconciliação entre pessoas incrivelmente conectadas, entre amigos(as) de verdade?
Eu não consigo não chorar de alegria com isso. Eu não consigo não ver o tal de "Deus" nisso. Essa é minha religião: a do amor, primeiro pelo outro, pra depois por mim mesma.
:)
Eu não consigo não chorar de alegria com isso. Eu não consigo não ver o tal de "Deus" nisso. Essa é minha religião: a do amor, primeiro pelo outro, pra depois por mim mesma.
:)
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Quando a saudade
Quando a saudade do meu blog "3 paredes" aperta,
quando a saudade de escrever sobre coisas bobas da vida vem.
Ah, saudade!
quando a saudade de escrever sobre coisas bobas da vida vem.
Ah, saudade!
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Um nó na garganta guardado pra mais tarde
Eu pego o copo d’água que já foi suficiente pra satisfazer minha necessidade e guardo os outros 50% dele na geladeira. Mais tarde eu posso puxar a porta da geladeira como quem tem o vício de só verificar o que tem ali dentro e acabo bebendo da água do copo de novo.
Estranhamente a água no copo parece que é reposta por conta própria, sem que ninguém dê razões físicas pra isso. Assim eu faço com a minha tristeza. Seguro as pontas evitando que ela desabafe em momentos e lugares inapropriados. Deixo pra me consumir nela depois.
Quando o nó aperta , primeiro o coração, e logo logo a garganta, é difícil desatá-lo. Ele permanece na gente, lembrando que está lá, que não tem pressa, que aguarda você se sentir à vontade pra tanto. Os ombros ficam acanhados junto aos músculos frígidos, travados como se alguém os empurrassem com plena força e para o fundo (do “poço”).
Mais uma dose de tristeza e perco a vontade de escrever meus pensamentos, e até a coragem de publicá-los; perco o interesse no bom e paciente livro a minha espera na estante, não acho graça nas canções e apenas vejo-as como trilhas do meu filme egocêntrico.
Finalmente estou em casa, entre as quatro paredes do meu cantinho, onde posso derramar todas as lágrimas que deixei pra outra hora por conveniência. Afinal, chorar em público é para os fracos. Todos nós somos orientados a não expormos nossas fraquezas numa praça. Por que eu colocaria meu desapego numa vitrine pra todo mundo ver? Escondo meus escombros. Assim, posso, enfim, desmoronar - protegida por quatro resistentes paredes de tijolos, já que as minhas já eram.
Ah, e se fosse só choro. O nó aperta mais e falta oxigênio no coração que, às vezes, parece parar ; suas batidas rotineiras já não fazem mais batuque em nossa vontade de ser o que estamos nos tornando.
É, todo mundo canta “ Meu mundo caiu” vez ou outra ou mesmo com frequência. E o engraçado é que esse mundo se levanta rapidinho em grande parte dos casos, não é?
Estranhamente a água no copo parece que é reposta por conta própria, sem que ninguém dê razões físicas pra isso. Assim eu faço com a minha tristeza. Seguro as pontas evitando que ela desabafe em momentos e lugares inapropriados. Deixo pra me consumir nela depois.
Quando o nó aperta , primeiro o coração, e logo logo a garganta, é difícil desatá-lo. Ele permanece na gente, lembrando que está lá, que não tem pressa, que aguarda você se sentir à vontade pra tanto. Os ombros ficam acanhados junto aos músculos frígidos, travados como se alguém os empurrassem com plena força e para o fundo (do “poço”).
Mais uma dose de tristeza e perco a vontade de escrever meus pensamentos, e até a coragem de publicá-los; perco o interesse no bom e paciente livro a minha espera na estante, não acho graça nas canções e apenas vejo-as como trilhas do meu filme egocêntrico.
Finalmente estou em casa, entre as quatro paredes do meu cantinho, onde posso derramar todas as lágrimas que deixei pra outra hora por conveniência. Afinal, chorar em público é para os fracos. Todos nós somos orientados a não expormos nossas fraquezas numa praça. Por que eu colocaria meu desapego numa vitrine pra todo mundo ver? Escondo meus escombros. Assim, posso, enfim, desmoronar - protegida por quatro resistentes paredes de tijolos, já que as minhas já eram.
Ah, e se fosse só choro. O nó aperta mais e falta oxigênio no coração que, às vezes, parece parar ; suas batidas rotineiras já não fazem mais batuque em nossa vontade de ser o que estamos nos tornando.
É, todo mundo canta “ Meu mundo caiu” vez ou outra ou mesmo com frequência. E o engraçado é que esse mundo se levanta rapidinho em grande parte dos casos, não é?
sábado, 30 de junho de 2012
Da parede alheia: resenha de Magda Frediani
Neste livro, a autora convida o jovem leitor para uma conversa encantadora sobre a arte de escrever. Nos “conselhos” cheios de poesia, ilustrados com delicadeza pelo artista plástico Eduardo Albini, a autora convida meninos e meninas, e também “jovens” de todas as idades, a se envolverem pela magia das palavras e a aceitarem o desafio de criar seus próprios textos. Ao dialogar com um escritor imaginário – que somos todos nós, leitores – Stela Maris Rezende explica que o importante é saber olhar, com emoção e respeito, todas as coisas que fazem parte de nosso cotidiano. É neste universo, feito de coisas aparentemente sem importância, que a premiada escritora mineira vai buscar a inspiração para seus textos... E ela revela um “segredo” aos seus leitores: tudo o que nos rodeia tem algo a nos dizer. Stela Maris busca também na natureza as imagens com as quais representa, de forma sutil e única, o ofício do escritor.
Uma bela forma de ensinar os jovens escritores a se debruçarem sobre as páginas em branco dos cadernos, ou sobre a tela do computador, em busca de novas histórias, participando desta eterna e mágica aventura da criação...
Catálogo da Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, www.casadapalavra.com.br
Magda Frediani é especialista em Literatura Infantil e Juvenil, ensaísta e escritora
sábado, 23 de junho de 2012
Uma visitinha e, logo depois, um dilúvio.

Pouco antes do "dilúvio" repentino, um passarinho veio da janela aberta do meu trabalho e tentou se abrigar no cantinho da minha mesa. Não pude presenciar essa situação pra lá de agradável e linda, linda demais; isso porque eu havia acabado de ser convocada para uma reunião em outra sala. Mas, claro, minhas amigas e colegas de trabalho me contaram tim-tim por tim-tim, pois já tenho até fama de "passarinha", de tão apaixonada por eles.
O passarinho tentou comunicar que algo incomum estava por vir, que algo forte e devastador viria diretamente do céu para a cidade, lavando-a como quem enxágua uma calçada fazendo uso de uma vassoura nervosa. Um temporal sem sereno antes como aviso prévio, assolou nossa cidade hoje. Sabe aqueles fenômenos sobre os quais você fica se perguntando: " Quando e como começou essa tempestade num copo d'água mesmo?" Neste caso, numa cidade nada preparada para acolher (escorrer) uma grande quantidade de água ao mesmo tempo, tempestade num copo mesmo, literalmente.
Então, o passarinho tentou avisar; fez sua trajetória de voo mais improvável, entre as quatro paredes de um ambiente de trabalho fechado, quase lacrado, não fosse a janela aberta só por um instantinho.
Contaram-me que a danadinha da ave foi parar no cantinho da minha mesa, em cima das impressões, quietinha na dela, na certa fazendo dali seu abrigo enquanto o Sol era encoberto. Com certeza, sabendo que naquele lugar há o amor de quem passa o dia trabalhando, mas não deixa de perceber cada canto de pássaro entoado em várias direções.
O passarinho estava lá até que alguém resolveu fazer uma fotografia sua. Assustou-se e acabou sendo resgatado no outro lado da sala. O herói do dia, o colega de trabalho, fez da sua palma da mão uma pista de voo, dando a dica pro bichinho:
- Vamos! Voa! Vai!
Nada, nem sinal da avezinha bater as asas. Não queria ir de modo algum. Então, o colega de trabalho deixou-a no batente da janela. Ficaria ali até que a coragem de voltar pro céu sombrio, que antecede a tempestade, voltasse. Talvez não botasse fé na força das árvores contra a força da água. O passarinho só temia o que teria de enfrentar lá fora.
Quando retornei da reunião, me relataram tudo e corri imediatamente até a janela na esperança de encontrá-lo. Já não estava mais. Pena que eu é que não estava na hora para protegê-lo.
Depois da visitinha, mais inesperado ainda foi o temporal que tomou conta das ruas e avenidas praticamente o dia inteiro. Até o painel, daqueles que exibem temperatura e hora, foi ao chão, vencido pela água aos montes.
O temporal passou, só não passaram minhas preocupações: "Será que todo mundo tá bem? O passarinho também? Espero tanto que sim!"
domingo, 17 de junho de 2012
O vendedor de batatas fritas e a felicidade pelas pequenas coisas
Tem dias que preciso voltar pra minha casa, a casa dos meus pais. Preciso pegar um ônibus e ficar chateada dentro dele, ao ver alguém jogar embalagem pela janela como se fosse um ato absolutamente normal; tento falar algo, mas me calo e com ar de reprovação, balanço a cabeça pra pessoa como quem diz “ - Faça um exame de consciência, meu amigo!”
Depois de descer desse ônibus, cabisbaixa e desacreditada de pessoas como aquela, preciso atravessar a avenida e ir até a parada onde pego a topic que segue direto pra minha casa. Fico em pé esperando, esperando e ouvindo meu cansaço físico e mental falar mais alto do que tudo. Já são 22horas , e aí eu lembro que apenas enganei meu estômago na hora do lanche com algo rápido.
O vazio do estômago me incomoda, quando percebo o vendedor de batatas fritas. Resolvo ficar mais perto daquela espécie de fogão acoplado num carrinho de mão e de três rodas. Ali, do lado do ponto de venda, no sentido do vento que sopra, posso sentir o cheiro bom das batatas fritando, o cheiro da casa da minha infância, de quando eu vibrava vendo minha mãe preparando essa delícia para o almoço de domingo.
Apesar do cheirinho servindo de propaganda das batatas, não tive intenção de comprá-las, porque hoje evito frituras, elas já me fazem mal, e porque desconfio da higiene de cozinha ao ar livre. Apenas fiquei ali, sentindo o ânimo pela vida, e até pela rotina, retornar no simples movimento do respirar.
A topic me buscou, e eu cheguei feliz da vida no melhor lugar do mundo pra passar a noite e ver chegar o dia.
Depois de descer desse ônibus, cabisbaixa e desacreditada de pessoas como aquela, preciso atravessar a avenida e ir até a parada onde pego a topic que segue direto pra minha casa. Fico em pé esperando, esperando e ouvindo meu cansaço físico e mental falar mais alto do que tudo. Já são 22horas , e aí eu lembro que apenas enganei meu estômago na hora do lanche com algo rápido.
O vazio do estômago me incomoda, quando percebo o vendedor de batatas fritas. Resolvo ficar mais perto daquela espécie de fogão acoplado num carrinho de mão e de três rodas. Ali, do lado do ponto de venda, no sentido do vento que sopra, posso sentir o cheiro bom das batatas fritando, o cheiro da casa da minha infância, de quando eu vibrava vendo minha mãe preparando essa delícia para o almoço de domingo.
Apesar do cheirinho servindo de propaganda das batatas, não tive intenção de comprá-las, porque hoje evito frituras, elas já me fazem mal, e porque desconfio da higiene de cozinha ao ar livre. Apenas fiquei ali, sentindo o ânimo pela vida, e até pela rotina, retornar no simples movimento do respirar.
A topic me buscou, e eu cheguei feliz da vida no melhor lugar do mundo pra passar a noite e ver chegar o dia.
sábado, 16 de junho de 2012
Sobre Mar de Rosas, Alma gêmea e tampa da panela
Nós temos é que acreditar mesmo nessa história de fulaninho de tal é a alma gêmea da sicraninha ali. Sério mesmo, isso sim é sabedoria popular das mais astutas que já ouvi circular de boca em boca. Está comigo a Sorte da experiência própria que me leva a defender esse tipo de crença desse nosso povo cheio das espiritualidades.
Sabe aquelas coincidências extremamente coincidentes, em cujos fenômenos você está diretamente ou indiretamente envolvido? Pois é, não sei se com você, mas comigo sempre acontece disso: estou eu por ali, retornando pra casa à noite, depois do trabalho ou da aula ou da academia; caminhando tão borocochô em pedacinhos por conta do cansaço do dia, “muso” inspirador das constantes reflexões sobre a vida, a minha vida, da minha família, da mendiga até, logo ali na esquina, muito bem acomodada num papelão ( o que faz de mim uma reclamona sem causa, ou melhor, uma “caixa de reclamações” com porções de razões descartáveis, lá dentro, resmungando. Enquanto, na realidade, ando nadando num “Mar de Rosas”, aqui me entrego ao uso dessa expressão. Minha viagem é tanta que, diante da situação da mendiga, ali, e da miséria em geral, ponho-me a olhar as pontas de meus próprios dedos. Nesse simples gesto, quase consigo visualizar minha pele enrugada de tanto estar afogada na água cheirando à rosa do Mar de Rosas em que vivo mergulhada).
Voltando agora pra história de alma gêmea, além dessa minha sorte de ter acesso à educação, a emprego, a casa própria da família, a um quarto aconchegante, acontece de, quando no clímax do momento borocochô, no qual rola aqueles chô-ro-rôs que lavam as maçãs do rosto; enfim, acontece muito do meu aparelho celular vibrar, tocar e me mostrar na tela: “ Meu amor ligando...”ou “1 nova mensagem” dele. E toda vez que isso se repete, fico me perguntando: “ Como ele consegue adivinhar as horas em que mais preciso do amor dele?”
Quando não estou afetada por pessimismos bobos, minha primeira ocupação passa a ser o feliz pensamento nele. Eis outra frequente coincidência: a de pensarmos um no outro simultaneamente, o que resulta em: eu tento ligar pra ele, dá ocupado. Ele tenta me ligar, dá ocupado. Mas um de nós, que é menos impaciente, decide esperar e pronto! É o amor, certeza, é a tal da alma gêmea, da tampa da panela.
Sabe aquelas coincidências extremamente coincidentes, em cujos fenômenos você está diretamente ou indiretamente envolvido? Pois é, não sei se com você, mas comigo sempre acontece disso: estou eu por ali, retornando pra casa à noite, depois do trabalho ou da aula ou da academia; caminhando tão borocochô em pedacinhos por conta do cansaço do dia, “muso” inspirador das constantes reflexões sobre a vida, a minha vida, da minha família, da mendiga até, logo ali na esquina, muito bem acomodada num papelão ( o que faz de mim uma reclamona sem causa, ou melhor, uma “caixa de reclamações” com porções de razões descartáveis, lá dentro, resmungando. Enquanto, na realidade, ando nadando num “Mar de Rosas”, aqui me entrego ao uso dessa expressão. Minha viagem é tanta que, diante da situação da mendiga, ali, e da miséria em geral, ponho-me a olhar as pontas de meus próprios dedos. Nesse simples gesto, quase consigo visualizar minha pele enrugada de tanto estar afogada na água cheirando à rosa do Mar de Rosas em que vivo mergulhada).
Voltando agora pra história de alma gêmea, além dessa minha sorte de ter acesso à educação, a emprego, a casa própria da família, a um quarto aconchegante, acontece de, quando no clímax do momento borocochô, no qual rola aqueles chô-ro-rôs que lavam as maçãs do rosto; enfim, acontece muito do meu aparelho celular vibrar, tocar e me mostrar na tela: “ Meu amor ligando...”ou “1 nova mensagem” dele. E toda vez que isso se repete, fico me perguntando: “ Como ele consegue adivinhar as horas em que mais preciso do amor dele?”
Quando não estou afetada por pessimismos bobos, minha primeira ocupação passa a ser o feliz pensamento nele. Eis outra frequente coincidência: a de pensarmos um no outro simultaneamente, o que resulta em: eu tento ligar pra ele, dá ocupado. Ele tenta me ligar, dá ocupado. Mas um de nós, que é menos impaciente, decide esperar e pronto! É o amor, certeza, é a tal da alma gêmea, da tampa da panela.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Escuridão de luz
Desligou quase todas as luzes pra que pudesse contemplar a escuridão tomada por pontinhos de luz azuis. Mas só podia ver as estrelas, quando as nuvens resolviam passear de mãos dadas com o vento. Deitou no chão do quintal sem frescuras, sem dar cabimento aos mosquitos. Parecia que a noite a acalentava em seu colo.
A mulher não, a menina; isso, a menina, porque naquele momento não passava de uma menina mesmo, encantada com tudo ao redor e longe de qualquer preocupação. Ali, tinha a liberdade de ser a autêntica artista que aparentava ser.
Cantou feito uma cigarra maluca, como se tivesse apenas aquilo para fazer pela eternidade. Escreveu feito um poeta inspirado. Dançou uma dança esquisita, metade sambista, metade bailarina. Desenhou feito uma desenhista inventiva a cruz que as quatro estrelas tentavam formar no céu; ah, era fácil pra ela, bastava ligar os pontinhos, conectar as estrelas. E ainda interpretou feito uma atriz de teatro numa tela de cinema. Como a menina conseguia? Simplesmente ela podia, sua espontaneidade permitia tudo aquilo.
Cigarreou, brincou com as palavras, bailou, ao mesmo tempo reverenciando cada ponto que piscava sobre o véu negro. Não havia nela pretensão de ser uma daquelas estrelas. Sabe que ninguém brilha como elas. Na verdade, sempre contou com elas para não se apagar como gente no universo.
Deitadinha sob os astros que habitavam a escuridão, sentiu que, se pudesse, ficaria ali para sempre, afinal, tinha forte atração pelo contraste do azul estrelar sobre o preto da meia-noite.
Esperou, desejou que aquela noite durasse por um bom tempo, até que viesse o Sol despertado pelo cantoria e algazarra dos pássaros.
A mulher não, a menina; isso, a menina, porque naquele momento não passava de uma menina mesmo, encantada com tudo ao redor e longe de qualquer preocupação. Ali, tinha a liberdade de ser a autêntica artista que aparentava ser.
Cantou feito uma cigarra maluca, como se tivesse apenas aquilo para fazer pela eternidade. Escreveu feito um poeta inspirado. Dançou uma dança esquisita, metade sambista, metade bailarina. Desenhou feito uma desenhista inventiva a cruz que as quatro estrelas tentavam formar no céu; ah, era fácil pra ela, bastava ligar os pontinhos, conectar as estrelas. E ainda interpretou feito uma atriz de teatro numa tela de cinema. Como a menina conseguia? Simplesmente ela podia, sua espontaneidade permitia tudo aquilo.
Cigarreou, brincou com as palavras, bailou, ao mesmo tempo reverenciando cada ponto que piscava sobre o véu negro. Não havia nela pretensão de ser uma daquelas estrelas. Sabe que ninguém brilha como elas. Na verdade, sempre contou com elas para não se apagar como gente no universo.
Deitadinha sob os astros que habitavam a escuridão, sentiu que, se pudesse, ficaria ali para sempre, afinal, tinha forte atração pelo contraste do azul estrelar sobre o preto da meia-noite.
Esperou, desejou que aquela noite durasse por um bom tempo, até que viesse o Sol despertado pelo cantoria e algazarra dos pássaros.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Um capítulo que seja.
Concentrar-se em histórias contadas em livros não significa que você ignora e deixa de refletir sobre sua própria vida e a de quem você ama. A mente de um leitor está sempre martelando as xis possibilidades de escrever e reescrever aqueles capítulos cruciais de sua desafiante história real.
Leitura não é abstração, não é fuga da realidade e, definitivamente, não é mero passa-tempo. Ler é um exercício diário que deixa o indivíduo com um pé no chão e o outro levitando.
Vamos ler, ter disciplina nisso. Que tal criar com carinho esse hábito todo santo dia?! Um ou dois capituluzinhos por dia,que seja, faz um bem danado!
Leitura não é abstração, não é fuga da realidade e, definitivamente, não é mero passa-tempo. Ler é um exercício diário que deixa o indivíduo com um pé no chão e o outro levitando.
Vamos ler, ter disciplina nisso. Que tal criar com carinho esse hábito todo santo dia?! Um ou dois capituluzinhos por dia,que seja, faz um bem danado!
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Quando gente do bem chega perto.
O entregador na moto, que tem Bob Marley estampado na camiseta, com certeza, é um cara legal;
A mulher que seria apenas uma "estranha", se não fosse o "bom dia", o sorrisão simpático dela, a conversa comigo sobre o noticiário na TV, como se fôssemos amigas de longa data, é uma mulher alto-astral, comunicativa e cheia de benevolência;
A moça, que há muito tempo atrás deu de cara com minhas lágrimas no ônibus e me perguntou se eu tava precisando de ajuda, é uma moça com vontade de fazer o bem, olhando bem a quem.
Esses e muitos outros tipos de pessoas semelhantes, podemos, sim, viver encontrando-os por aí. Bem aventurado é a gente, que percebe essa gente do bem a quilômetros de distância; e faz de tudo pra quebrar essa distância.
A mulher que seria apenas uma "estranha", se não fosse o "bom dia", o sorrisão simpático dela, a conversa comigo sobre o noticiário na TV, como se fôssemos amigas de longa data, é uma mulher alto-astral, comunicativa e cheia de benevolência;
A moça, que há muito tempo atrás deu de cara com minhas lágrimas no ônibus e me perguntou se eu tava precisando de ajuda, é uma moça com vontade de fazer o bem, olhando bem a quem.
Esses e muitos outros tipos de pessoas semelhantes, podemos, sim, viver encontrando-os por aí. Bem aventurado é a gente, que percebe essa gente do bem a quilômetros de distância; e faz de tudo pra quebrar essa distância.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Papel de Pai
- Pai, tô tão feliz com meu blog!
Então, ele me pergunta novamente o que seria um blog; e de novo, já perdi as contas, eu tento explicar, do jeito mais entendível que posso, o que é essa "modernidade", - no ponto de vista dele -.
Essa situação sempre acontece em outros aspectos, já que a realidade vivida pelos filhos é sempre diferente daquela dos pais. Acho que é por isso que, mais à frente, quando tivermos filhos também, chegaremos mais ou menos perto de entender nossos pais, de nos colocarmos em seus lugares. Talvez só assim daremos razão a eles, ou, ainda assim, talvez não, confusos e birrentos que somos.
Mas, sem dúvida, tudo o que nossos pais falam é único e exclusivamente para o nosso bem; "Para nossa alegria!".
Brincadeiras à parte, precisamos admitir que Mãe pressente quando algo vai bem ou não, e que Pai, ao ouvir nosso recado de saída pra encontrar os amigos ou namorado, faz muito bem em chamar pelo nosso " Juízo!". E para que eles fiquem um pouco tranquilos, temos de ser bem convincentes, lembrando-os de que o tal Juízo permanece muito bem acomodado em nossa caixola.
Então, depois de expressar, com meu jeito bobo de ser, o orgulho e carinho pelo tresparedes.blogspot.com; e depois de traduzir pra ele meu vocabulário de internauta (blog! post!), o Pai, que amo de montão, me responde assim:
" - Tá ganhando quanto com isso, Filha?"
Então, ele me pergunta novamente o que seria um blog; e de novo, já perdi as contas, eu tento explicar, do jeito mais entendível que posso, o que é essa "modernidade", - no ponto de vista dele -.
Essa situação sempre acontece em outros aspectos, já que a realidade vivida pelos filhos é sempre diferente daquela dos pais. Acho que é por isso que, mais à frente, quando tivermos filhos também, chegaremos mais ou menos perto de entender nossos pais, de nos colocarmos em seus lugares. Talvez só assim daremos razão a eles, ou, ainda assim, talvez não, confusos e birrentos que somos.
Mas, sem dúvida, tudo o que nossos pais falam é único e exclusivamente para o nosso bem; "Para nossa alegria!".
Brincadeiras à parte, precisamos admitir que Mãe pressente quando algo vai bem ou não, e que Pai, ao ouvir nosso recado de saída pra encontrar os amigos ou namorado, faz muito bem em chamar pelo nosso " Juízo!". E para que eles fiquem um pouco tranquilos, temos de ser bem convincentes, lembrando-os de que o tal Juízo permanece muito bem acomodado em nossa caixola.
Então, depois de expressar, com meu jeito bobo de ser, o orgulho e carinho pelo tresparedes.blogspot.com; e depois de traduzir pra ele meu vocabulário de internauta (blog! post!), o Pai, que amo de montão, me responde assim:
" - Tá ganhando quanto com isso, Filha?"
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Pessoas, Livros e Canções
Há qualquer momento, pode está certo, será postada aqui mais uma lembrança de infância. A minha caixinha de memórias mais parece um baú aberto, sempre com a tampa escancarada. Eu vou até ele e às vezes nem me dou conta que já fui lá revirar alguns itens simbólicos. As pessoas costumam contemplar retratos. Já eu faço isso raramente, porque minhas recordações já se fazem muito vivas. Desse jeito, eu nem preciso de fotografias para me transportar para a época tal, situação tal, sentimento tal qual do momento relembrado.
As coisas e fatos recordados passam como um filme projetado dentro de mim, não como imagens rapidamente sequenciadas e envelhecidas pelo tempo, e sim lentamente e de forma clara e atual numa resolução quase perfeita, se não fossem algumas cenas embaçadas em que não consigo visualizar rostos e lugares bem definidos.
Não só de imagens são feitas as minhas lembranças. Coleciono diálogos da vida real e das vidas contadas nos livros. A minha história nesse mundo de nosso Deus e povo é permeada de trechos de canções com os quais me identifico. Assim como se encontram lá na linha do tempo do Facebook, essas letras, notas e tons ficam registrados em mim, chegando até mesmo a compor meu caráter. Meu pai comenta um tanto abismado que eu conheço todas as músicas da face da Terra, que eu só sei viver o tempo todo ouvindo música. É, quanto a essa última afirmação não acho que seja exagero dele não, mas, quanto à teoria de que conheço todas as músicas, é humanamente impossível.
Com isso, todo dia eu aprendo algo com composições musicais alheias e com os livros e com as pessoas conhecidas e anônimas e com meus próprios deslizes, enfim, com as muitas coisas da vida. Coisas que me rodeiam e que rodeiam os outros. Observo esses outros enquanto caminho na rua ou em pé na parada de ônibus ou da janela do veículo. Fico curiosa com suas histórias de vida. Não quero saber o que eles fazem, suas profissões; quero saber como eles são, se são severos, sensíveis, sinceros. Se são pais, avós, noivos. Se são o que os outros querem que eles sejam ou se puramente eles mesmos. Penso que essas pessoas todas dariam bons personagens de um Romance ou inspirações para poemas.
Dia desses, peguei a carona matinal do meu Pai. Ele parou no sinal. Mesmo mal acompanhada pela sonolência acomodada comigo no banco, percebi o sorriso do senhor moreno de bigodinho branco. Ele não sorria pra mim; sorria pra vida. Comentei dando uma risadinha:
- Olha, pai. Acabei de ver um senhor todo sorridente a essa hora.
Notei que meu pai tem o mesmo hábito de observar gente, quando ele respondeu:
- Ah, sim. Ele fica nessa avenida o dia todo. Agora ele está ali, porque tem sombra lá. Mais tarde, ele vai estar em frente a um barzinho, em pé. Ele muda de posição de acordo com a localização do Sol. Ele passa o dia assim, sem nada pra fazer. Com certeza é aposentado e não gosta de ficar em casa. Aí ele vem pra cá, acompanhar o movimento. Fica olhando os carros passando...
Meu pai observou isso tudo dele e eu só consigo me perguntar até agora, curiosa como sou: " Ele estava sorrindo ao pensar em algo? Pensando em alguém? Achando algum motorista engraçado? Notando alguma situação divertida que não consegui ver com ele?"
As coisas e fatos recordados passam como um filme projetado dentro de mim, não como imagens rapidamente sequenciadas e envelhecidas pelo tempo, e sim lentamente e de forma clara e atual numa resolução quase perfeita, se não fossem algumas cenas embaçadas em que não consigo visualizar rostos e lugares bem definidos.
Não só de imagens são feitas as minhas lembranças. Coleciono diálogos da vida real e das vidas contadas nos livros. A minha história nesse mundo de nosso Deus e povo é permeada de trechos de canções com os quais me identifico. Assim como se encontram lá na linha do tempo do Facebook, essas letras, notas e tons ficam registrados em mim, chegando até mesmo a compor meu caráter. Meu pai comenta um tanto abismado que eu conheço todas as músicas da face da Terra, que eu só sei viver o tempo todo ouvindo música. É, quanto a essa última afirmação não acho que seja exagero dele não, mas, quanto à teoria de que conheço todas as músicas, é humanamente impossível.
Com isso, todo dia eu aprendo algo com composições musicais alheias e com os livros e com as pessoas conhecidas e anônimas e com meus próprios deslizes, enfim, com as muitas coisas da vida. Coisas que me rodeiam e que rodeiam os outros. Observo esses outros enquanto caminho na rua ou em pé na parada de ônibus ou da janela do veículo. Fico curiosa com suas histórias de vida. Não quero saber o que eles fazem, suas profissões; quero saber como eles são, se são severos, sensíveis, sinceros. Se são pais, avós, noivos. Se são o que os outros querem que eles sejam ou se puramente eles mesmos. Penso que essas pessoas todas dariam bons personagens de um Romance ou inspirações para poemas.
Dia desses, peguei a carona matinal do meu Pai. Ele parou no sinal. Mesmo mal acompanhada pela sonolência acomodada comigo no banco, percebi o sorriso do senhor moreno de bigodinho branco. Ele não sorria pra mim; sorria pra vida. Comentei dando uma risadinha:
- Olha, pai. Acabei de ver um senhor todo sorridente a essa hora.
Notei que meu pai tem o mesmo hábito de observar gente, quando ele respondeu:
- Ah, sim. Ele fica nessa avenida o dia todo. Agora ele está ali, porque tem sombra lá. Mais tarde, ele vai estar em frente a um barzinho, em pé. Ele muda de posição de acordo com a localização do Sol. Ele passa o dia assim, sem nada pra fazer. Com certeza é aposentado e não gosta de ficar em casa. Aí ele vem pra cá, acompanhar o movimento. Fica olhando os carros passando...
Meu pai observou isso tudo dele e eu só consigo me perguntar até agora, curiosa como sou: " Ele estava sorrindo ao pensar em algo? Pensando em alguém? Achando algum motorista engraçado? Notando alguma situação divertida que não consegui ver com ele?"
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Faça uma blogueira feliz!
E lá vem a "blogueira" com as histórias do cotidiano dela de novo! Sério, já duas pessoas me abordaram me chamando de blogueira.
Sou blogueira mesmo nos tempos livres que me restam. Quando não estou de férias do trabalho, o tempo que usufruo com afinco é geralmente da meia-noite até uma e meia, duas da manhã. Não que o tempo seja generoso comigo só a partir da meia-noite, mas, não sei explicar, minha cabeça parece que fica a todo vapor de madrugada, quando eu já deveria ter sumido com todos os carneirinhos, quando meus neurônios já deveriam estar se esbaldando no travesseiro velho, mas aconchegante.
Fico aqui, escrevendo, escrevendo, e quando lembro que existe contagem de tempo nesse mundo, quando penso que no dia seguinte será difícil esconder as olheiras e o cansaço mental, já é tarde demais. E o pior é que não vejo mal nenhum nisso, simplesmente porque enquanto estou aqui, invertendo orações, tentando organizar a ordem dos pensamentos, criando comparações de um diferente simples, procurando colocar as vírgulas nos lugares certos, duvidando do meu conhecimento do significado das palavras; enquanto isso tudo, juro, posso dizer que sou uma das criaturas mais realizadas desse mundo.
Se interessar ao meu leitor, o processo é mais ou menos assim:
1) Penso em alguma coisa, qualquer coisa. Hum..isso seria interessante compartilhar, quem sabe?;
2) Ah, tem isso que poderia. Pensando melhor, não, não, muito pessoal; deixo só no word mesmo, na pasta " Meus textos";
3) Essa outra situação aqui é que merece ser contada;
4) Esqueço que existe papel e, mesmo que eu quisesse escrever à mão, perdi o hábito de sempre deixar caneta na bolsa. Não faço ideia de onde encontrar uma caneta em casa;
5) Vou decidida fazer login no Blogger. Em seguida, " Nova postagem";
6) Eis que vem o pensamento: " Será que vale a pena mesmo?" "Será que vou fazer o bem a alguém com esse texto?"
7) Finalmente, começo a "costurar" palavras. Vou analisando fio por fio e desconfiando a todo momento do meu vocabulário, da ortografia.
São constantes as visitas ao Dicionário da língua portuguesa. Fico feliz quando Ele quase diz pra mim:
- Você estava certa. É assim mesmo que se escreve, garota!
Embora haja todo esse esforço, não ponho minha mão no fogo quanto à assertividade das coisas que escrevo aqui. A Língua Portuguesa tem seus segredos e armadilhas, por isso sou tão seduzida por ela.
8) Depois dessa costura toda e dessa desconfiança de conhecimentos, a maior alegria é clicar no " Publicar", compartilhar o link e esperar.
Então, a segunda maior alegria é verificar o "Painel" e vê escrito lá " 1 comentário". Isso porque a troca de experiências é um dos maiores presentes para quem escreve e para aquele que lê.
E pra finalizar de vez mais um texto publicado, confesso que sou viciada em verificar as "Estatísticas" de visualizações.
Caso tenha interesse, leitor, aqui vai o Ranking de visualizações desde o ano em que criei o blog (Maio/2008), que já foi intitulado de " Entre Riscos e Rascunhos". São apenas "visualizações", quer dizer, não sei se é de leitura mesmo. Afinal, o internauta pode ter esbarrado na página sem querer e nem leu. Mas é melhor não pensar nisso para o bem do ego de uma aspirante a escritora(hahaha).
Eis o Ranking ( Post = nº de visualizações de página):
1º) Círculo imperfeito = 39
2º) E aí, como é = 33
3º) Vamos ver Novela e Telejornal = 26
4º) O que nem a ciência explica = 23
5º) Pai e Mãe e Filho = 21
Então, é isso aí! Faça essa "blogueira" aqui feliz: leia, comente, elogie, critique, que a gente está nessa vida mesmo é pra tentar fazer, se não muito, ao menos um pouco melhor.
Sou blogueira mesmo nos tempos livres que me restam. Quando não estou de férias do trabalho, o tempo que usufruo com afinco é geralmente da meia-noite até uma e meia, duas da manhã. Não que o tempo seja generoso comigo só a partir da meia-noite, mas, não sei explicar, minha cabeça parece que fica a todo vapor de madrugada, quando eu já deveria ter sumido com todos os carneirinhos, quando meus neurônios já deveriam estar se esbaldando no travesseiro velho, mas aconchegante.
Fico aqui, escrevendo, escrevendo, e quando lembro que existe contagem de tempo nesse mundo, quando penso que no dia seguinte será difícil esconder as olheiras e o cansaço mental, já é tarde demais. E o pior é que não vejo mal nenhum nisso, simplesmente porque enquanto estou aqui, invertendo orações, tentando organizar a ordem dos pensamentos, criando comparações de um diferente simples, procurando colocar as vírgulas nos lugares certos, duvidando do meu conhecimento do significado das palavras; enquanto isso tudo, juro, posso dizer que sou uma das criaturas mais realizadas desse mundo.
Se interessar ao meu leitor, o processo é mais ou menos assim:
1) Penso em alguma coisa, qualquer coisa. Hum..isso seria interessante compartilhar, quem sabe?;
2) Ah, tem isso que poderia. Pensando melhor, não, não, muito pessoal; deixo só no word mesmo, na pasta " Meus textos";
3) Essa outra situação aqui é que merece ser contada;
4) Esqueço que existe papel e, mesmo que eu quisesse escrever à mão, perdi o hábito de sempre deixar caneta na bolsa. Não faço ideia de onde encontrar uma caneta em casa;
5) Vou decidida fazer login no Blogger. Em seguida, " Nova postagem";
6) Eis que vem o pensamento: " Será que vale a pena mesmo?" "Será que vou fazer o bem a alguém com esse texto?"
7) Finalmente, começo a "costurar" palavras. Vou analisando fio por fio e desconfiando a todo momento do meu vocabulário, da ortografia.
São constantes as visitas ao Dicionário da língua portuguesa. Fico feliz quando Ele quase diz pra mim:
- Você estava certa. É assim mesmo que se escreve, garota!
Embora haja todo esse esforço, não ponho minha mão no fogo quanto à assertividade das coisas que escrevo aqui. A Língua Portuguesa tem seus segredos e armadilhas, por isso sou tão seduzida por ela.
8) Depois dessa costura toda e dessa desconfiança de conhecimentos, a maior alegria é clicar no " Publicar", compartilhar o link e esperar.
Então, a segunda maior alegria é verificar o "Painel" e vê escrito lá " 1 comentário". Isso porque a troca de experiências é um dos maiores presentes para quem escreve e para aquele que lê.
E pra finalizar de vez mais um texto publicado, confesso que sou viciada em verificar as "Estatísticas" de visualizações.
Caso tenha interesse, leitor, aqui vai o Ranking de visualizações desde o ano em que criei o blog (Maio/2008), que já foi intitulado de " Entre Riscos e Rascunhos". São apenas "visualizações", quer dizer, não sei se é de leitura mesmo. Afinal, o internauta pode ter esbarrado na página sem querer e nem leu. Mas é melhor não pensar nisso para o bem do ego de uma aspirante a escritora(hahaha).
Eis o Ranking ( Post = nº de visualizações de página):
1º) Círculo imperfeito = 39
2º) E aí, como é = 33
3º) Vamos ver Novela e Telejornal = 26
4º) O que nem a ciência explica = 23
5º) Pai e Mãe e Filho = 21
Então, é isso aí! Faça essa "blogueira" aqui feliz: leia, comente, elogie, critique, que a gente está nessa vida mesmo é pra tentar fazer, se não muito, ao menos um pouco melhor.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
O que nem a ciência explica.
O que explica; como se explica certas coisas? Sabe, há tantos acontecimentos para os quais não há explicação óbvia e nenhuma outra.
Ontem estávamos ouvindo Led Zeppelin nas alturas. Da cozinha, a mãe falou que já era hora de dencansar o juízo. Como assim música cansa o juízo? Coisas da minha mãe. Então ela pediu que pelo menos baixássemos o volume. Bem, achei meio impossível ouvir Led Zeppelin baixinho, melhor seria desligar logo o som. Mas, não, eu resolvi reduzir o volume mesmo. De repente, depois de girar o "botão" do aparelho, baixando assim o volume, dei um passo pra trás e ao mesmo tempo algo girou o botão com uma força capaz de produzir um som assustadoramente alto. Ok, o aparelho está sem o controle, logo não era brincadeirinha de ninguém. Estávamos conversando de frente para o troço e não havia uma quarta pessoa conversando de frente para o som que nem a gente. Definitivamente não havia ninguém que pudesse contrariar o pedido da minha mãe de que ouvíssemos Led Zeppelin baixinho mesmo. Não era irregularidade de altura da própria música, e não havia possibilidade alguma do aparelho aumentar o seu volume por livre e espontânea vontade.
Enfim, não há explicações para o que aconteceu, como também não há para o fato de eu sentir às vezes, muito raramente, ainda bem, a chegada de alguém até mim. Desde criança, sinto aproximações, uma espécie de energia que emana de um corpo não identificado e invisível. Sempre espero que seja minha mãe, vindo me contar as histórias absurdas do bairro onde moramos, ou meu pai vindo conferir com certo alívio que a filha está em casa. Mas, não, não são eles nem meu irmão, são as visitas estranhas que recebo periodicamente. São presenças calorosas, de tão vivas que parecem. Movo meus olhos na mesma direção das chegadas como quem consegue enxergar silhuetas transparentes. Aí, decido não "quebrar" a cabeça com isso. Simplesmente decido não buscar explicação; e fico na minha até a sensação se esvair.
Outra vez, era de madrugada, todos dormindo e eu acordada, sentada na escrivaninha do quarto ouvindo uma música que me emocionou ao extremo. Eram letras e melodias tão incríveis, que naturalmente minhas lágrimas seguiam impacientes seus cursos ondulantes pelas bochechas e queixo. Foi então que senti o deslocamento de muita energia concentrada. Moveu-se por trás de mim e se colocou ao meu lado, na minha esquerda. Não, eu não estava tendo pesadelo; estava muito bem acordada, isso sim.
Relatei essas mesmas coisas a um amigo cético e ele concluiu que eu devo ter alguma doença. Tá, mas tenho saúde e disposição de sobra e acho que meu único "distúrbio mental" é pensar demais ou ser sensível demais com certas coisas.
Acho que meu amigo precisa entender que nem tudo a ciência explica. Nem tudo que acontece nesse plano é explicável.
Ontem estávamos ouvindo Led Zeppelin nas alturas. Da cozinha, a mãe falou que já era hora de dencansar o juízo. Como assim música cansa o juízo? Coisas da minha mãe. Então ela pediu que pelo menos baixássemos o volume. Bem, achei meio impossível ouvir Led Zeppelin baixinho, melhor seria desligar logo o som. Mas, não, eu resolvi reduzir o volume mesmo. De repente, depois de girar o "botão" do aparelho, baixando assim o volume, dei um passo pra trás e ao mesmo tempo algo girou o botão com uma força capaz de produzir um som assustadoramente alto. Ok, o aparelho está sem o controle, logo não era brincadeirinha de ninguém. Estávamos conversando de frente para o troço e não havia uma quarta pessoa conversando de frente para o som que nem a gente. Definitivamente não havia ninguém que pudesse contrariar o pedido da minha mãe de que ouvíssemos Led Zeppelin baixinho mesmo. Não era irregularidade de altura da própria música, e não havia possibilidade alguma do aparelho aumentar o seu volume por livre e espontânea vontade.
Enfim, não há explicações para o que aconteceu, como também não há para o fato de eu sentir às vezes, muito raramente, ainda bem, a chegada de alguém até mim. Desde criança, sinto aproximações, uma espécie de energia que emana de um corpo não identificado e invisível. Sempre espero que seja minha mãe, vindo me contar as histórias absurdas do bairro onde moramos, ou meu pai vindo conferir com certo alívio que a filha está em casa. Mas, não, não são eles nem meu irmão, são as visitas estranhas que recebo periodicamente. São presenças calorosas, de tão vivas que parecem. Movo meus olhos na mesma direção das chegadas como quem consegue enxergar silhuetas transparentes. Aí, decido não "quebrar" a cabeça com isso. Simplesmente decido não buscar explicação; e fico na minha até a sensação se esvair.
Outra vez, era de madrugada, todos dormindo e eu acordada, sentada na escrivaninha do quarto ouvindo uma música que me emocionou ao extremo. Eram letras e melodias tão incríveis, que naturalmente minhas lágrimas seguiam impacientes seus cursos ondulantes pelas bochechas e queixo. Foi então que senti o deslocamento de muita energia concentrada. Moveu-se por trás de mim e se colocou ao meu lado, na minha esquerda. Não, eu não estava tendo pesadelo; estava muito bem acordada, isso sim.
Relatei essas mesmas coisas a um amigo cético e ele concluiu que eu devo ter alguma doença. Tá, mas tenho saúde e disposição de sobra e acho que meu único "distúrbio mental" é pensar demais ou ser sensível demais com certas coisas.
Acho que meu amigo precisa entender que nem tudo a ciência explica. Nem tudo que acontece nesse plano é explicável.
domingo, 29 de abril de 2012
Colírio não!
Consultei um médico novo. Há tempos eu não retornava para saber como anda meu astigmatismo. Há tempos uso óculos. Lembro de mim minúscula como um ponto indo ao bebedouro da escola. Duas crianças mais velhas conversando, uma olhou pra mim e comentou: "Ela, tão pivetinha e já usa óculos!" Mas eu não me importei, porque nunca tive vergonha de usá-los e jamais passou pela minha cabeça usar lentes. Se eu sequer imaginar um objeto estranho entrando em olhos, tenho arrepios de agonia. Talvez por isso eu sempre dou muito trabalho as pobrezinhas das assistentes de oftalmologista. Vejo-as vindo em minha direção com colírio numa mão e um lenço de papel na outra. Essa é uma cena de tortura. Sentada na cadeira, transfiro toda minha tensão para as pernas e braços. Tenho pavor, pavor. Ela vai pedir que eu jogue minha cabeça para trás, vai derramar gotas de pimenta que ardem e deixam cegos os olhos. Com as pupilas totalmente dilatadas, oh meu pai, terei que lidar com a incapacidade de enxergar, de ler um bilhete que seja por uma duração dura demais. Dura e dolorosa como um chute numa pedra. Dói não ver as coisas direito. Também o que os olhos não veem o coração sente. Há tanta distorção nesse mundo afora, sem uma visão em perfeito estado fica difícil desviar das coisas e pessoas claramente distorcidas, que podem chegar a distorcer também o nosso caminho.
Então, não suporto colírios, até aqueles anti-sépticos. Tenho olhos sensíveis além do que se considera normal, certeza. Vivo com os olhos aguados; e se percebo o menor sinal de alagamento no olho alheio, os meus rapidamente se transformam em riachos daquele rio revelado pelo outro.
Bem, a consulta; eu sobrevivi. Sai com uma receita dentro da bolsa. Além de uma pequena alteração de grau do olho direito, a ovelha negra, porque o outro leva pouco grau, sai com uma indicação de colírio. Por que eu fui dizer que trabalhava o dia inteiro no computador? Sou sempre obediente com os tratamentos que me passam, mas desta vez não há como seguir direitinho. Pavor, terror de gotas estranhas serenando nos meus olhos. Natural é que elas brotem deles, em seguida, transbordando em forma de empatia, alegria ou tristeza.
Então, não suporto colírios, até aqueles anti-sépticos. Tenho olhos sensíveis além do que se considera normal, certeza. Vivo com os olhos aguados; e se percebo o menor sinal de alagamento no olho alheio, os meus rapidamente se transformam em riachos daquele rio revelado pelo outro.
Bem, a consulta; eu sobrevivi. Sai com uma receita dentro da bolsa. Além de uma pequena alteração de grau do olho direito, a ovelha negra, porque o outro leva pouco grau, sai com uma indicação de colírio. Por que eu fui dizer que trabalhava o dia inteiro no computador? Sou sempre obediente com os tratamentos que me passam, mas desta vez não há como seguir direitinho. Pavor, terror de gotas estranhas serenando nos meus olhos. Natural é que elas brotem deles, em seguida, transbordando em forma de empatia, alegria ou tristeza.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Acontece. Aconteceu.
Não é lorota nem invencionice nem viagem na maionese o que dizem os textos pendurados nas tais das três paredes deste blog. Não sei se por falta de imaginação, mas até o momento está fora da minha realidade contar histórias que nunca ocorreram de fato. É, meu amigo, está provada, ao menos para mim, a minha predisposição a transformar pequenos fatos reais em histórias, sejam essas divertidas ou tristes, esquisitas ou normais, frias ou sentimentais até demais.
Para mim, contar histórias por meio de palavras não ditas, escritas, é quase uma terapia, meu pão, meu ioga de cada dia. Quando não tenho sequer uma história em processo de formulação, se movendo da minha cabeça ao coração, fico tão solitária quanto um livro nunca lido esquecido na estante. Beiro à loucura de achar que a história vai bater na minha porta fardada de Correios. É claro que ela não virá assim, eu que devo ir até ela, procurando-a ou encontrando-a ao acaso. E essas histórias, prestes a serem relatadas com pitadas de impressões que deixam em mim, são povoadas de personagens que representam seus próprios papéis rabiscados pela realidade. Afinal, quem sou eu para criar uma pessoa-personagem com claras definições de personalidade e tantas outras complexidades?
Então, por enquanto, eu só consigo descrever situações que aconteceram mesmo, e que sobre as quais, por sorte, minha deficiência de memória ainda não conseguiu prevalecer. Acho que pouco antes da falta de memória vir, desnorteadora como só ela é, eu já tenho anotado aqui as ações, sensações e reações de fatos que realmente importam. Importantes a ponto de não serem tão facilmente descartados pela memória seletiva.
Essa vontade de estar sempre contando alguma história é tão inesgotável, que hoje não é a primeira nem a última noite durante a qual me pergunto sobre a próxima postagem, o próximo texto daqui. Que história vale a pena compartilhar; se vai acrescentar algo duradouro e valioso dentro de alguém que se dispor a ler.
Estava me sentindo vazia agora a pouco, e ainda estou, mas acho que esse desabafo quebrou o galho, - um pouco -. Que mania de inquietude, meu Deus! Seria desespero demais implorar:" Por favor, alguma cena bonita ou feia da vida cotidiana, se revele agora ou não aconteça nunca mesmo!" ?
Para mim, contar histórias por meio de palavras não ditas, escritas, é quase uma terapia, meu pão, meu ioga de cada dia. Quando não tenho sequer uma história em processo de formulação, se movendo da minha cabeça ao coração, fico tão solitária quanto um livro nunca lido esquecido na estante. Beiro à loucura de achar que a história vai bater na minha porta fardada de Correios. É claro que ela não virá assim, eu que devo ir até ela, procurando-a ou encontrando-a ao acaso. E essas histórias, prestes a serem relatadas com pitadas de impressões que deixam em mim, são povoadas de personagens que representam seus próprios papéis rabiscados pela realidade. Afinal, quem sou eu para criar uma pessoa-personagem com claras definições de personalidade e tantas outras complexidades?
Então, por enquanto, eu só consigo descrever situações que aconteceram mesmo, e que sobre as quais, por sorte, minha deficiência de memória ainda não conseguiu prevalecer. Acho que pouco antes da falta de memória vir, desnorteadora como só ela é, eu já tenho anotado aqui as ações, sensações e reações de fatos que realmente importam. Importantes a ponto de não serem tão facilmente descartados pela memória seletiva.
Essa vontade de estar sempre contando alguma história é tão inesgotável, que hoje não é a primeira nem a última noite durante a qual me pergunto sobre a próxima postagem, o próximo texto daqui. Que história vale a pena compartilhar; se vai acrescentar algo duradouro e valioso dentro de alguém que se dispor a ler.
Estava me sentindo vazia agora a pouco, e ainda estou, mas acho que esse desabafo quebrou o galho, - um pouco -. Que mania de inquietude, meu Deus! Seria desespero demais implorar:" Por favor, alguma cena bonita ou feia da vida cotidiana, se revele agora ou não aconteça nunca mesmo!" ?
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Criança também copia coisa ruim de adulto
Eu estava no meio da rua, que ainda tinha cheiro de asfalto novo, brincando de jogar vôlei com minha amiga mais velha.
A bola foi rolando pra longe. Vi o menino, que costumava brincar do outro lado da rua, passando. Pedi que pegasse a bola pra gente. Ele trouxe. Aproveitei para convidá-lo pro jogo. Espantei-me com a resposta:
- Eu não! Lá vou jogar com uma aleijada!
Ele se referiu a minha amiga assim. Ela podia dobrar muito pouco as pernas e andava com aparelhos. Isso não a impedia de jogar vôlei comigo.
Fiquei um bom tempo parada, ainda digerindo o que o menino havia dito. Assumi a vergonha que ele não teve. Ela só me aconselhou a não dar bola pro menino, literalmente. Eu aceitei. Afinal, ele podia estar só copiando os pais ou algum outro adulto. Enfim, ele era uma criança. Pode ser que hoje, já adulto, tenha uma melhor opinião formada sobre esse tipo de coisa.
E assim, desde cedo, desde criança, eu soube da existência do preconceito e da sua companheira fiel: a ignorância.
A bola foi rolando pra longe. Vi o menino, que costumava brincar do outro lado da rua, passando. Pedi que pegasse a bola pra gente. Ele trouxe. Aproveitei para convidá-lo pro jogo. Espantei-me com a resposta:
- Eu não! Lá vou jogar com uma aleijada!
Ele se referiu a minha amiga assim. Ela podia dobrar muito pouco as pernas e andava com aparelhos. Isso não a impedia de jogar vôlei comigo.
Fiquei um bom tempo parada, ainda digerindo o que o menino havia dito. Assumi a vergonha que ele não teve. Ela só me aconselhou a não dar bola pro menino, literalmente. Eu aceitei. Afinal, ele podia estar só copiando os pais ou algum outro adulto. Enfim, ele era uma criança. Pode ser que hoje, já adulto, tenha uma melhor opinião formada sobre esse tipo de coisa.
E assim, desde cedo, desde criança, eu soube da existência do preconceito e da sua companheira fiel: a ignorância.
domingo, 15 de abril de 2012
Os honestos pagam pelos desonestos
Eu era criança quando fui abordada por um catador de lixo. Estacionou o carrinho de mão pesado em frente à calçada da minha casa e pediu, humildemente, que eu lhe trouxesse um copo d`água. Lembrei da recomendação de não falar com estranhos, mas sempre achei isso esquisito. Como ignorar um ser humano que se dirige a você como se ele fosse invisível?
Raciocinei rapidamente para que pudesse emitir logo uma resposta, mesmo que hesitante, afinal, eu tinha que responder algo a uma pessoa que poderia estar mesmo com muita sede. Eu já tinha senso do perigo. Então, antes de esboçar alguma reação, fiquei imaginando a cena: eu entrando pra buscar água, deixando o portão aberto, porque eu teria vergonha de fechar a porta na cara dele, com receio de mostrar a minha desconfiança e a pessoa se ofender, o cara se aproveitando da minha inocência para entrar na casa, roubá-la, ou ainda fazer algum mal a minha família.
A minha saída foi dizer que água "de beber" estava em falta. Depois, hesitei e passei a me contradizer, alegando que até tinha água, mas que não estava gelada. Ele rebateu dizendo que não tinha problema. Mas eu não arredaria o pé dali. Não diria a ele que minha mãe havia me proibido de falar com estranhos, o que implicaria também na minha impossibilidade de entregar um copo d`água. Eu fiquei falando justificativas incoerentes, até que ele se convenceu de que eu tinha medo. Medo só, porque a maldade de negar água a alguém não poderia haver numa criança.
Foi embora. Desde esse dia, nunca esqueci do meu jeito de negar água a um pobre catador de lixo. Eu me sentia uma pessoa horrível, mas sabia que tinha minhas razões para tal.
Outro dia, eu estava no canteiro central, em frente à parada de ônibus, quando outro catador de lixo, este mais novo e cheio de energia, embora já com claros sinais de cansaço, se dirigiu a mim sem implorar nem nada:
- Moça, tem alguma moeda para ajudar no meu almoço?
Senti algo apertar dentro de mim. Pude ver a imagem do primeiro catador me implorando por um copo d`água. Era uma projeção trêmula de uma cena real e triste, retrato da miséria do nosso país. Novamente, o senso do perigo e a premonição do cara arrancando minha bolsa, enquanto eu estivesse procurando a carteira. Desta vez, estive mais decidida ao dar resposta. Disse prontamente que não! E o catador demonstrou já estar acostumado com esse tipo de resposta. Conformado, retomou os braços do carrinho, tão exaustos quanto os dele, e continuou no seu caminho sem destino.
Ele foi, e eu fiquei me sentindo mais estática do que nunca diante dos sérios problemas da sociedade. Percebi que agora eu já havia negado não só um copo d`água, como também um almoço a quem tinha fome de verdade. Tudo por medo da violência e da insegurança. Quer dizer, poderiam ser pessoas honestas pedindo minha contribuição, mas que tiveram seus pedidos negados por conta da imagem suja projetada pela maioria desonesta.
Raciocinei rapidamente para que pudesse emitir logo uma resposta, mesmo que hesitante, afinal, eu tinha que responder algo a uma pessoa que poderia estar mesmo com muita sede. Eu já tinha senso do perigo. Então, antes de esboçar alguma reação, fiquei imaginando a cena: eu entrando pra buscar água, deixando o portão aberto, porque eu teria vergonha de fechar a porta na cara dele, com receio de mostrar a minha desconfiança e a pessoa se ofender, o cara se aproveitando da minha inocência para entrar na casa, roubá-la, ou ainda fazer algum mal a minha família.
A minha saída foi dizer que água "de beber" estava em falta. Depois, hesitei e passei a me contradizer, alegando que até tinha água, mas que não estava gelada. Ele rebateu dizendo que não tinha problema. Mas eu não arredaria o pé dali. Não diria a ele que minha mãe havia me proibido de falar com estranhos, o que implicaria também na minha impossibilidade de entregar um copo d`água. Eu fiquei falando justificativas incoerentes, até que ele se convenceu de que eu tinha medo. Medo só, porque a maldade de negar água a alguém não poderia haver numa criança.
Foi embora. Desde esse dia, nunca esqueci do meu jeito de negar água a um pobre catador de lixo. Eu me sentia uma pessoa horrível, mas sabia que tinha minhas razões para tal.
Outro dia, eu estava no canteiro central, em frente à parada de ônibus, quando outro catador de lixo, este mais novo e cheio de energia, embora já com claros sinais de cansaço, se dirigiu a mim sem implorar nem nada:
- Moça, tem alguma moeda para ajudar no meu almoço?
Senti algo apertar dentro de mim. Pude ver a imagem do primeiro catador me implorando por um copo d`água. Era uma projeção trêmula de uma cena real e triste, retrato da miséria do nosso país. Novamente, o senso do perigo e a premonição do cara arrancando minha bolsa, enquanto eu estivesse procurando a carteira. Desta vez, estive mais decidida ao dar resposta. Disse prontamente que não! E o catador demonstrou já estar acostumado com esse tipo de resposta. Conformado, retomou os braços do carrinho, tão exaustos quanto os dele, e continuou no seu caminho sem destino.
Ele foi, e eu fiquei me sentindo mais estática do que nunca diante dos sérios problemas da sociedade. Percebi que agora eu já havia negado não só um copo d`água, como também um almoço a quem tinha fome de verdade. Tudo por medo da violência e da insegurança. Quer dizer, poderiam ser pessoas honestas pedindo minha contribuição, mas que tiveram seus pedidos negados por conta da imagem suja projetada pela maioria desonesta.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Ele dividiu com o outro a única esfiha que ganhou.
De vez em quando, esse pessoal que "olha" o carro da gente, quando paramos em algum canto, nos dá exemplos de humanidade. E melhor ainda; nos lembra que ainda há gente que pensa no outro nesse mundo, mesmo não vivendo a própria vida levada por uma maré boa.
Diante de tantas atrocidades nos noticiários, meu Deus, ainda há gente com um coração que não cabe no peito.
Essa semana fui com o namorado ao Habibi's, e o carinha avisou:
"- Pode deixar que eu olho!"
Certo, teríamos que reservar algumas moedinhas para dá-las na volta. Voltamos. Entregamos moedas e, de quebra, uma esfiha de carne. Na saída, o namorado olha pelo retrovisor, esquece que é motorista por instantes,parando tudo que está fazendo, e comenta muito surpreso:
- Olha, amor, ele dividiu com o outro cara a esfiha!
Também estava surpreendida e com uma sensação boa chegando depressa ao peito. Tive a impressão de que meu coração se derretia e ficava cada vez mais macio. Era o contágio do Bem. Meu coração se contagiou com aquela atitude altruísta. Eu precisava fazer algo. Manifestei isso tudo num pedido:
- Pega aí no pacote mais uma esfiha pra ele, pega!
Diante de tantas atrocidades nos noticiários, meu Deus, ainda há gente com um coração que não cabe no peito.
Essa semana fui com o namorado ao Habibi's, e o carinha avisou:
"- Pode deixar que eu olho!"
Certo, teríamos que reservar algumas moedinhas para dá-las na volta. Voltamos. Entregamos moedas e, de quebra, uma esfiha de carne. Na saída, o namorado olha pelo retrovisor, esquece que é motorista por instantes,parando tudo que está fazendo, e comenta muito surpreso:
- Olha, amor, ele dividiu com o outro cara a esfiha!
Também estava surpreendida e com uma sensação boa chegando depressa ao peito. Tive a impressão de que meu coração se derretia e ficava cada vez mais macio. Era o contágio do Bem. Meu coração se contagiou com aquela atitude altruísta. Eu precisava fazer algo. Manifestei isso tudo num pedido:
- Pega aí no pacote mais uma esfiha pra ele, pega!
domingo, 8 de abril de 2012
Mulher desapegada de certas coisas
Passei uns dias sem publicar aqui. Se você sentir minha falta e perguntar "como vai?", é provável que eu responda assim:
- Estou indo, todo dia levando nas costas uma mudinha de roupas desbotadas, dobradas de qualquer jeito, com um livro no meio.
Causo a impressão em quem me observa ou bate o olho por acaso de que todos os dias estou de mudança.
Desde depois de criança, venho me mudando. Quando menina, eu achava o máximo ganhar roupa nova dos meus pais. Minha mãe dava o toque final fazendo trança bonita nos meus fios lisos, e eu saía alegre e faceira desfilando a novidade. De alguma forma a roupinha nova me proporcionava felicidade.
Hoje não, passei a dar a mínima, quase nula importância a coisas coisificadas (materiais). Este desapego parece se intensificar com o passar do tempo.
Hoje eu mantenho certa distância dos shoppings e suas vitrines com muitas coisas que muita gente não pode comprar, mas que são compradas mesmo assim. Não que eu abomine compras sem necessidade; a economia do país precisa girar, claro, mas é que eu não consigo me encaixar em certas situações, como esta que sempre acontece comigo: estou eu entre os amigos e, como de costume, as mulheres, por afinidade, se aproximam pra bater um papo. Papo esse que acho interessante até o momento em que elas começam a falar com afeto exagerado sobre um vestido ou sapato lindíssimo que viram numa loja aí.
Aí eu olho fixo para a parede e pergunto a ela: “E aí, sou mulher mesmo?” Como não ouço resposta, me esquivo pro lado dos homens e aguardo elas voltarem a um assunto com o qual me identifico.
Acredite ou não, sou mulher que usa um só par de sapato, até o fim, até que a sola se despedace e até depois do ferrinho do salto pequeno surgir, fazendo barulho fora do comum.
Sou mulher que continua carregando uma bolsa que já dá sinais, há muito tempo, de sua incapacidade de ser exibida em público. Sou mulher vaidosa me utilizando da última das últimas gotas de corretivo líquido.
Mas, sabe, isso não faz de mim uma mulher excêntrica, nem "mulher-macho". Isso só demonstra que sou econômica e, principalmente, desapegada de tudo que não dura muito ou de tudo que não for capaz de me arrancar sorrisos ou lágrimas.
- Estou indo, todo dia levando nas costas uma mudinha de roupas desbotadas, dobradas de qualquer jeito, com um livro no meio.
Causo a impressão em quem me observa ou bate o olho por acaso de que todos os dias estou de mudança.
Desde depois de criança, venho me mudando. Quando menina, eu achava o máximo ganhar roupa nova dos meus pais. Minha mãe dava o toque final fazendo trança bonita nos meus fios lisos, e eu saía alegre e faceira desfilando a novidade. De alguma forma a roupinha nova me proporcionava felicidade.
Hoje não, passei a dar a mínima, quase nula importância a coisas coisificadas (materiais). Este desapego parece se intensificar com o passar do tempo.
Hoje eu mantenho certa distância dos shoppings e suas vitrines com muitas coisas que muita gente não pode comprar, mas que são compradas mesmo assim. Não que eu abomine compras sem necessidade; a economia do país precisa girar, claro, mas é que eu não consigo me encaixar em certas situações, como esta que sempre acontece comigo: estou eu entre os amigos e, como de costume, as mulheres, por afinidade, se aproximam pra bater um papo. Papo esse que acho interessante até o momento em que elas começam a falar com afeto exagerado sobre um vestido ou sapato lindíssimo que viram numa loja aí.
Aí eu olho fixo para a parede e pergunto a ela: “E aí, sou mulher mesmo?” Como não ouço resposta, me esquivo pro lado dos homens e aguardo elas voltarem a um assunto com o qual me identifico.
Acredite ou não, sou mulher que usa um só par de sapato, até o fim, até que a sola se despedace e até depois do ferrinho do salto pequeno surgir, fazendo barulho fora do comum.
Sou mulher que continua carregando uma bolsa que já dá sinais, há muito tempo, de sua incapacidade de ser exibida em público. Sou mulher vaidosa me utilizando da última das últimas gotas de corretivo líquido.
Mas, sabe, isso não faz de mim uma mulher excêntrica, nem "mulher-macho". Isso só demonstra que sou econômica e, principalmente, desapegada de tudo que não dura muito ou de tudo que não for capaz de me arrancar sorrisos ou lágrimas.
Escolho a minha Família
Feriado santo. Graças a deus, eu escolhi a família. Não só a família; escolhi ver um grilho caminhando cautelosamente sobre a água azul da piscina; tentei ajudá-lo porque percebi que ele estava querendo sair. A primeira coisa que vi no chão, uma folha morta e seca, usei para tirar ele dali, mas ele escorregou pro lado e eu só consegui molhá-lo mais. Minha mãe vendo minha preocupação, foi ajudar. Fez da sua mão uma concha e tirou-o junto a pequena poça de água com cloro.
Escolhi flagrar, assim, por acaso, um sapo grande camuflado igual pedra na beira da calçada, que estava sendo lavada pelos meus pais. Hoje, estava uma manhã muito quente e logo imaginei que ele só podia estar ali por pura esperteza, só aguardando a água da calçada escorrer sobre sua pele de sapo. Na noite anterior, nosso labrador tentou brincar com o tal sapo, mas só conseguiu fugir meio esquisito, tentando tirar algo do focinho.
Escolhi reunir a família do meu namorado com a minha e finalmente apresentar a eles a casa de sítio tão falada. Escolhi acompanhar minha mãe, enquanto ela apresentava para a minha sogra cada planta enfileirada no quintal comprido. Escolhi também ver as duas famílias interagindo num jogo de sinuca e na mesa durante o almoço.
Escolhi o canto insistente do bem-te-vi como substituto do despertador, e ouvir minha mãe imitando-o em seguida. Logo depois, optei por levantar da rede e ver o céu e o verde lá fora ainda em jejum. Escolhi ouvir meu pai perguntar se eu já tinha tomado café.
Escolhi, junto ao meu irmão, animar as noites de sexta e sábado dos nossos pais. Às 22h, vi que eles já se preparavam pra dormir, então fiz o convite:
- Vamos jogar Ludo, Damas, Sinuca e ouvir música?
E deu certo. Jogamos sinuca ao som de Queen nas alturas. Vimos meu pai finalizar uma jogada de mestre, comemorando sua vitória fazendo um solo do Queen na guitarra imaginária: o taco. Escolhi escutar o comentário feliz da minha mãe:
- Há muito tempo eu não via ele sorrindo assim.
Desta vez, escolhi passar o feriado todo com a minha família de sangue. Meu namorado até tentou me sequestrar, mas deixei ele ir e fiquei. A irmãzinha dele tentou convencer minha mãe de que eu deveria ir embora com eles, mas ouviu como resposta: "A Elaine é minha!"
Eu não queria ir e não fui, porque eu escolhi e vou escolher por mais vezes estar com a minha família de apenas quatro pessoas. Eu entendo que eu e meu irmão somos a fonte da alegria deles. E enquanto eles tiverem com a gente, eu vou doar o máximo do meu amor e da playlist selecionada por mim para animar a festa.
Escolhi flagrar, assim, por acaso, um sapo grande camuflado igual pedra na beira da calçada, que estava sendo lavada pelos meus pais. Hoje, estava uma manhã muito quente e logo imaginei que ele só podia estar ali por pura esperteza, só aguardando a água da calçada escorrer sobre sua pele de sapo. Na noite anterior, nosso labrador tentou brincar com o tal sapo, mas só conseguiu fugir meio esquisito, tentando tirar algo do focinho.
Escolhi reunir a família do meu namorado com a minha e finalmente apresentar a eles a casa de sítio tão falada. Escolhi acompanhar minha mãe, enquanto ela apresentava para a minha sogra cada planta enfileirada no quintal comprido. Escolhi também ver as duas famílias interagindo num jogo de sinuca e na mesa durante o almoço.
Escolhi o canto insistente do bem-te-vi como substituto do despertador, e ouvir minha mãe imitando-o em seguida. Logo depois, optei por levantar da rede e ver o céu e o verde lá fora ainda em jejum. Escolhi ouvir meu pai perguntar se eu já tinha tomado café.
Escolhi, junto ao meu irmão, animar as noites de sexta e sábado dos nossos pais. Às 22h, vi que eles já se preparavam pra dormir, então fiz o convite:
- Vamos jogar Ludo, Damas, Sinuca e ouvir música?
E deu certo. Jogamos sinuca ao som de Queen nas alturas. Vimos meu pai finalizar uma jogada de mestre, comemorando sua vitória fazendo um solo do Queen na guitarra imaginária: o taco. Escolhi escutar o comentário feliz da minha mãe:
- Há muito tempo eu não via ele sorrindo assim.
Desta vez, escolhi passar o feriado todo com a minha família de sangue. Meu namorado até tentou me sequestrar, mas deixei ele ir e fiquei. A irmãzinha dele tentou convencer minha mãe de que eu deveria ir embora com eles, mas ouviu como resposta: "A Elaine é minha!"
Eu não queria ir e não fui, porque eu escolhi e vou escolher por mais vezes estar com a minha família de apenas quatro pessoas. Eu entendo que eu e meu irmão somos a fonte da alegria deles. E enquanto eles tiverem com a gente, eu vou doar o máximo do meu amor e da playlist selecionada por mim para animar a festa.
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