19.3.12

Vamos ver Novela e Telejornal.

Aí você surge na casa dos seus pais, "dos seus pais" porque, apesar de ainda morar lá, você sente que não é mais apropriado chamá-la de sua. Afinal, são os quatro fins de semana de cada mês, juntando milhares de feriados do calendário ( exceto o Natal, por favor!) sem estar em família de sangue, mas sim entre as famílias de amizade, de namoro, do namorado, ou mesmo do trabalho.

Aí você aparece em casa, voltando do fim de semana + feriado curtidos na companhia dos amigos e do namorado. Você se materializa na sala e fala " Oi, Pai! Oi Mãe!" na maior cara lisa, lisa não, cara de pau mesmo, como se isso, sempre a escolha pelos amigos e namorado, fosse muito normal.

Quando a gente vai ficando um pouco mais velho, vai se afastando discretamente do lugar "debaixo da asa" dos pais. E quando agrava a sensação de " Meu Deus, o tempo! Passa rápido. Preciso aproveitar a vida já!", você não sai mais discretamente das asas. Chama atenção demais esse processo, já que seus pais estão sempre atentos a você. Então, eles fazem comentários do tipo:

- E as novidades, Filha? Não vai contar? Passa esse tempo todo longe da gente, e quando chega, se tranca, não vem conversar!

E aí você percebe que é o filho mais horrível do mundo! O remorso te ataca com unhas e dentes, - da mesma forma que seus pais defendem você -. Com unhas e dentes, eles viram onças mesmo.

Você fica um tempinho lá na sala de TV, onde eles sempre ficam, talvez menos pra assistir à programação da Globo e mais só pra esperar você desapegar do quarto e ir lá fazer ao menos um resumo de como anda sua vida, como foram os dias de trabalho ou de diversão, - com os amigos + namorado.

Você tinha decidido que não faz mais sentido assistir a novelas ou telejornais, mas seus pais nunca deixam esse hábito; esse hábito que se transforma em uma das formas de você se aproximar deles.

No meu caso, se eu optar pela novela, vou encontrar com minha mãe na sala. A gente, indignada, vai contestar o autor, pensar em deixar de assistir por conta dos vilões que estão dominando. Vamos também adivinhar o que é clichê de acontecer nos próximos capítulos. Eu fico impressionada com os anos de experiência da minha mãe como telespectadora de novela. Ela sempre acerta o que acontece depois, mesmo sem consultar as revistas do gênero "Minha Novela".

Agora, se for telejornal, vou encontrar com meu pai, fazendo o comentário que ele faz todos os anos:

- Olha isso! Você viu, Filha?! Coitadas dessas famílias! Que chuva devastadora!

Então, é isso mesmo. Depois de se sentir o filho mais ingrato do mundo, você decide que vai voltar a assistir às novelas sempre que puder, e também às notícias, sentado no sofá ao lado e bem pertinho do seu Pai.

Bem, se, no seu caso, seus pais não curtirem novela ou telejornal, você analisa bem quais as preferências e hábitos deles e tenta se incluir. Faça-se presente. Esteja sempre presente na vida dos seus pais, porque não é sempre que haverá essa abençoada oportunidade.

Agora eu vou, como diz minha Mãe, "desenfurnar" desse quarto, desligar isso aqui e jogar Damas & Ludos com Eles; aproveitar que não é novela dessa vez.

14.3.12

A Origem da Poeira Cósmica e do Muro da Lamentação

Um dia minha mãe chegou pra mim e disse:

- Filha, você é uma Estrela. O Vigia da Rua tava demonstrando as habilidades dele com as cartas e disse pra mim: " Sua filha é uma Estrela".

Eu nunca me esqueci disso, não da habilidade maluca do tal vigia de rua que eu mal via na rua, mas da cara de orgulho da minha mãe. Imaginei logo que a declaração do cara só podia ser pura generosidade. O vigia, entediado com cochilos profundos e baratas e ratos perambulando pelas ruas, na certa, queria finalmente flagrar algo de surpreendente: uma mãe-coruja muito contente.

Vigia Cartomante (...) “Ainda mais essa!”, pensei. Não acredito nesse tipo de coisa. Pra mim, cartas só deveriam ser usadas para truques mágicos ou jogos divertidos com amigos; e não pra enganar os outros. Ainda bem que o Vigia não cobrou minha mãe pela revelação. Fiquei me perguntando quais indícios e palavras minha mãe deve ter proferido pra ele vir com uma frase poética dessas: " Sua filha é uma estrela."

Não entendi, na época e até hoje, a tal revelação tão impactante, principalmente ao me lembrar de vários momentos da vida nos quais me sinto muito mais uma reles poeira cósmica do que uma Estrela propriamente dita. Muitas vezes nem eu mesma me enxergo no reflexo insignificante de grão de poeira só visto com o uso do microscópio. Sou aquela coisinha se escondendo nas lacunas do espaço interestrelar.

Tá, não é tão triste assim; tem dias que a autoestima vem em forma de luz, é a luz prateada da Estrela que atinge a minha poeira em cheio. Aí, chove a Chuva de Prata ao redor da minha aura. Porém, enquanto a luz não se inclina na minha direção, não incide na minha escuridão, eu busco refúgio no que chamo de Muro da Lamentação, ou melhor, Muro das Lamentações. No plural mesmo, porque são múltiplas penas, queixas e infortúnios.

Esse muro é o seguinte: você constrói ele desde que se entende por gente. Desde aquele " Buá, meu brinquedo quebrou!", que hoje, na sociedade consumista, virou " Buáaáá, eu quero isso e aquilo ...e aquilo! Por que não? Eu que-roô!"

No Muro daqui funciona assim: compartilho-o sempre com os poucos, os poucos amigos. A gente abre um pequeno buraco em um dos tijolos pra poder conversar cara a cara, cada qual encostado no seu lado. A conversa, neste sentido, significa troca de lamentos. Você faz o seu amigo ouvir seu chororô pelo leite derramado e, depois que passa um pouco o soluçar, - naquela sensação boa de não ouvir sua mãe ordenando "engole o choro!"-, diz pro outro no outro lado do Muro:

- Poxa, mas eu só falei de mim até agora, né! E você?

Outro dia cheguei até minha mais nova amiga, muito especial aliás, e desabafei meu descontentamento, assim, por alto mesmo:

- É, hoje foi um dia que me senti uma ervilha, de tão minúscula diante de uma situação.

Ela, fofa como é, comentou com um “Oww” e logo se fez toda ouvidos:

- O que houve?

E assim despedaçamos o primeiro tijolo, abrimos um círculo no meio dele. Começamos a compartilhar nossos Muros das Lamentações, transformando-os em um só, cada uma do seu lado, olhando para o lado da outra através do pedaço quebrado, como quem se posiciona pra encaixar o olho no olho mágico de uma porta, como pra saber quem aperta a campainha, pra depois convidar para entrar.

13.3.12

Há que se ter um Diário.

Há que se ter um Diário. Você tem que sentir essa necessidade, caso contrário, há algo de errado. Embora existam aqueles momentos em que você pensa " Estou cansado de pensar. Hoje eu não quero pensar."

Há que se alimentar a mente de pensamentos sigilosos; é saudável. É preciso criar e lapidar reflexões que só pertencem a você e a mais ninguém. Nem tudo se expõe aos outros. Deixe que os metidos se ocupem um instante de se meterem com suas próprias vidas.

Dividir uma vida com alguém que se ama não implica em ter de revelar o seu Diário, lê-lo em voz alta para o outro. Há de se manter viva a sua individualidade.

Quando me refiro a Diário, este não é necessariamente aquele mini-livrinho, antes todo em branco, agora escrito à mão, pacientemente, a cada dia. Um Diário pode ser simplesmente um diário, ocupando seu devido espaço lá na nossa cabeça, cuja fábrica de concepções pode ficar a todo vapor durante 24 horas ou quantas horas durar nossa existência.

Quando completei 15 anos, eu não fiz questão de festa, eu não dancei valsa com príncipe encantado algum. Eu já tinha príncipes e sapos inventados por mim mesma. Eu fantasiava muitos amigos, quando eu não tinha nenhum. Eu me escondia na minha delicada fase da Adolescência "encabulada".

Foi quando fiz um presente que eu me daria nos meus 15 anos. Busquei várias folhas de ofício A4 no armário. Dobrei-as ao meio e montei uma encadernação. Usei lápis de cor pra pintar a capa e a contracapa. Coloquei o título: " Elaine. 15 anos." Daí em diante, eu escrevia freneticamente reflexões de moça-menina. Eu descobri o gosto pela escrita. Na agenda do Colégio, eu derramava versos sobre coisas que nem entendia. Sobre amor, paixão, Lua, Flor e Sol. Eram rimas em clichês, das quais eu logo ria quando terminava de escrever. Sim, muitas vezes eu ria do que escrevia, mas também chorava, porque as palavras não eram suficientes pra afastar a solidão um pouco de mim.

O fato é que meu Diário não chegou a ter muitas páginas rabiscadas. Um dia, temi que alguém o lesse. Eu não queria que coisas só minhas pertencessem aos outros, aos meus pais, ao meu irmão, seja lá quem fosse. Decidi rasgar o Diarinho em vários pedacinhos. Todas as letras e palavras, frases toscamente formadas, foram direto para o lixo. Entretanto, os pensamentos que eu extraía delas continuavam incrustados na minha mente; na mente de onde, se eu guardasse bem a sete chaves, ninguém poderia ler os meus segredos. Afinal, há que se ter mistérios e, com isso, despertar fascínios. Há que se ter reflexões secretas. Tudo isso é preciso.

11.3.12

Pombo no jantar

O que leva uma pessoa a ter a perversa ideia de aproveitar que atropelou um pombo mesmo e carregá-lo pra servir de prato principal ( mistura) na refeição?

Tudo bem que eu fiz um texto aqui sobre minha suspeita de que os pombos vão dominar o mundo, mas esta pessoa má, dessa história que conto, não sou eu, não! Pobrezinho do Pombo, meu Deus!

9.3.12

A Dança de olhar nos olhos

Amanhã, todos os sábados, tem a aula de dança. Dança de Salão, de Samba, de Bolero, de Forró ( pé de serra, graças!). Também tem uma muito difícil: a dança de olhar fixo nos olhos do par.

Eu sempre tive dificuldades de olhar nos olhos de pessoas desconhecidas. A minha timidez se revela com tanta força, que só consigo levar meu olhar para qualquer canto do Mundo, menos para as pupilas do outro.

Com quem não conheço bem, sinto que, se eu olhar, estarei, sei lá, invadindo a intimidade alheia. Ao mesmo tempo, sinto o contrário: alguém a encarar algo que tenho, temos de mais profundo: a alma, o espírito, a aura, seja lá como for dado o nome a este boi.

O professor grita " Troca", e lá estou eu, no dois pra lá, dois pra cá, tentando me sentir confortável naquele ritmo imprevisível de olhares.

"Concentração!", me ordeno mentalmente. Par desconhecido, mas prossigo pra não perder a marcação.

E no meio do salão, eis que encontro alguém, - com quem não tenho nenhum receio de olhar bem no olho: é o meu par; aquele que chamei pra dançar juntinho alguns anos atrás. Foi este mesmo que passou e-mail, completamente empolgado, me convidando pra fazer a matrícula na aula do professor da Dança dos Famosos. Somos chiques, bem!

7.3.12

Bicho Papão, que nada!

Eu tinha, ainda tenho, esquecida dentro de algum compartimento do guarda-roupa imenso, uma colcha de cama do Michey fazendo seu espetáculo em completo breu, a não ser pela luz focada no seu palco de algodão. Uma luz bem amarela, tendo ao seu redor uma tinta especial que brilha na escuridão do quarto.

Eu lembro como se fosse hoje, do menininho bochechudo, meu amiguinho bem mais pequenininho do que eu, sair correndo na iminência do choro, - depois de eu desligar a luz e fechar a porta do meu quarto pra mostrar o Mickey muito exibido, cantando sobre o palco "montado" na minha cama.

Lembro que saí perplexa atrás dele, perguntando:

- Você tem medo de escuro? Mas é o Mi-ckey!!!

Pensando melhor, hoje, acho que o pavor dele pela minha colcha "espetacular" era por achar que o Bicho Papão podia se disfarçar de Mickey.


Eu não tinha medo de Bicho Papão. Eu não tenho medo de Bicho Papão até hoje. Tenho medo de coisa pior, de coisa real.

5.3.12

Derretidos

Sentada na parada de ônibus hoje, vejo um homem se derretendo inteiro num sorriso bobo. Olho na direção que ele olha com olhar que só me lembra paz, e o que vejo?

Uma neném feliz da vida, brincando de ficar em pé na barriga da mãe. Eu me derretí também. Contagiante que nem bocejar isso.

1.3.12

Da primeira vez em que fui assaltada

Brincando com o título do post anterior, mas falando sério agora:

Eu pensei que eu fosse noiada igual a minha mãe, mas o episódio de hoje me provou o contrário.

Eu pressenti que o carinha da bicicleta iria me assaltar em instantes. Ele até disfarçou bem. Olhava como quem não quer nada pra trás, especialmente pra euzinha aqui, baixinha e indefesa. Percebi e analisei as roupas dele; pensei: " Hum, ele tem aparência de ladrão." E o anjinho do outro lado disse:

- Olha, não julgue as pessoas assim. Isso é preconceito, hein!

E o diabinho flutuando no lado esquerdo resolveu desafiá-lo:

- Ah, é?! Então, espera. Se o cara ali olhar de novo pra trás é porque ele vai, sim, fazer maldade com a sua protegida. Espera, espera pra ver!

E o carinha, todo estiloso na sua moda de ladrão, além de olhar pra trás de novo, ainda fez mais: fez uma manobra de meia volta pra ir ao meu encontro. Freou, abandonou a bike possante no chão e disse, com as mãos embaixo da blusa:

- Tô armado. Passa só o celular, só o celular!

A minha vontade, guardada sigilosamente dentro dos meus pensamentos, era de sumir, 'pa-puf', desaparecer numa fumaça igual a do Gênio da lâmpada. Procurei o anjinho, e até o diabinho, mas eles já tinham sumido, e do jeito que eu desejava, na fumacinha branca.

Senti o sangue descer completamente e fiquei plantada que nem pé de bananeira na curva da esquina. Mas pensei na hora, que eu era mesmo uma sortuda. O cara fez questão de dizer que só queria meu celular ( meu pouco dinheiro na carteira, meus documentos e minha vida não, talvez sim, se eu não colaborasse). Quando lembrei do que eu chamava de "celular", veio uma espécie de alívio. "Já estava mesmo precisando trocar", pensei e entreguei o Motorola velho e arranhado.

O cara estava quase retornando pra bike, quando meu cérebro mandou que eu dissesse de jeito dengoso, como uma criança pedindo chocolate pro pai:

- Ow, me dá o chip! Por favor...

- Tira, tira!

- Vixi! Tá duro de sair. Tô nervosa. Tira pra mim, por favor!
( e a minha crise de riso deu o ar de sua graça. Estava morrendo de rir de mim mesma. Acho que o ladrão tinha certeza de que eu não ria dele. Por isso, não atirou.)

- É só dá uma batida no chão! Pega, pega!

Eu, nervosa com o troca- troca, quase que saía com o aparelho e ele com o chip. Mas ele, em mais um gesto de generosidade, tomou o corpo do celular da minha mão, entregando ao mesmo tempo o tão querido chip pra mim.

O que eu disse a ele?
- 'brigada, 'brigada. Obrigada, viu!

Quando estava me achando A Sortuda, os vizinhos, os benditos vizinhos gritaram da calçada:

- O que tá acontecendo aí?

Foi a hora em que eu mais temi pela minha sobrevivência. Apressei o passo pra me distanciar do "point" do crime. O ladrão saiu voando na bike e os vizinhos no carro atrás dele. Olha, eu posso até ser corajosa de pedir favores ao ladrão, mas sou fichinha perto dos vizinhos justiceiros.

No fim de tudo, eu percorri a rua da minha casa muito satisfeita com o chip na mão e com a minha vida tremendo, mas guardadinha dentro do meu corpo.

29.2.12

Da primeira vez em que fui pedida em namoro várias vezes

Lembro vagamente, afinal, isso significou quase nada naquela minha história de vida que nem engatinhava ainda, que nem tinha saído dos três pontinhos de "Era uma vez...".

Eu fazia a quarta série, tinha exatamente 10 aninhos. E foi nessa atmosfera colegial, de coelhos azuis e sorridentes pregados na parede da sala de aula, que me fizeram a famosa perguntinha " Quer namorar comigo?" - mais de uma vez -.

O menino da pergunta era só um amigo meu e um "menino" mesmo, que não tolerava o título de "pivete". Queria porque queria ser o mais maduro da turma. Na certa, se encontrava numa dessas fases que há um tempo atrás chamavam de pré-adolescência. Não sei se já existe outro nome pra isso; pré-aborrecência? Não sei.

Bem, minha resposta à pergunta número 1 foi:

- Ãn?

Não me recordo se respondi isso por realmente não ter escutado direito. Acho que a ex- "Tia", a "Professora" estava na lousa tentando impor silêncio na pivetada agitada. Desconfio de que não foi só o barulho que não me deixou ouvir. Talvez ele tenha soltado a pergunta extremamente coberto de timidez; provavelmente depois de tentar "criar" coragem por um bom tempo. Então, ele falou bem baixinho. Depois do meu "Ãn?" e do meu contorcer de sobrancelhas como quem olha pra lousa e não enxerga uma palavra, ele enunciou pela segunda vez a mesma pergunta, só que agora com um pouco mais de impetuosidade:

- Quer namorarcomigo?!

Aí, neste ponto, tenho certeza que escutei direito. Não acreditei. Eu, uma criança, ciente de que era uma "menina" e satisfeita com a minha fase infância, ouvindo outra criança perguntar isso pra mim. Eu estava pasma. Só consegui improvisar outro "Ãn?", com sobrancelhas fazendo a mesma inclinação da primeira reação, mas desta vez destinguindo bem palavra por palavra pronunciada e entendendo a situação mais do que a tabuada decorada.

O pobrezinho do meu amigo, acho que, ficou incrédulo com a resposta repetida, pior do que isso, com a ausência de resposta. Poderia ter me chamado de " Môca!". Mas, não, ele preparou outra porção de coragem pra repetir pela terceira vez A Pergunta. E eu me esforcei pra encontrar outras palavras, dizendo:

- Como é? Não tô entendendo!

Finalmente, depois dessa, ele desistiu com um "Deixa pra lá". Ôh, dó! Mas tudo terminou bem. Ele continuou sendo meu amigo e, depois de um tempinho, apareceu com uma namoradinha. Encontrou alguém que estava na mesma fase dele, a da pré-adolescência apaixonada.

Nunca mais o vi e não faço ideia por onde anda. Normal, em um mundo cheio de gente, onde milhares de pessoas passam por sua vida, somem, indo além do que sua vista é capaz de alcançar; alguns desaparecem pra sempre.

Olha a barata!

Neste exato momento, faltando pouco pra meia-noite, eu compartilho o espaço do meu quarto com uma barata. Ela parece bem desperta, e digo mais, bem esperta. Ouve o barulho que minhas chinelas fazem e abre caminho, enquanto a espanto como quem tange um gato de rua, ladrão de carnes descongeladas na pia. Dou a entender que o canto é meu, e que ela não é bem-vinda. Tenho indisposição pra procurar veneno para baratas perdido dentro de casa; além do mais, lembro que isso vai deixar os ares do meu cantinho um tanto tóxicos.

Concluo, enfim, que não vale a pena aplicar o veneno na tal da barata; meu estômago não suportaria se eu fizesse o que meu irmão faz: celebra seu sentimento de vingança contra a coitada da barata, afogando-a numa piscina de “lama” mortífera ou, como frequentemente acontece por conta da pouca eficácia desses inseticidas, de “lama” da morte lenta, em que a barata pira o "cabeção" e sai por aí com suas antenas tontas e pegajosas. Também está fora de cogitação esmagar isso, pisando e esfregando no chão com a dancinha diabólica do pé.

Eu prefiro nenhuma dessas alternativas. Acho que faço parte do percentual insignificante de mulheres adultas que não manifestam pavor por baratas. Ajo tranquilamente, com uma única condição: desde que a tal da barata seja “pedestre”. Qualquer indício de um par de algo que faça aquela coisinha alçar voo, meu cérebro automaticamente ordena uma gritaria involuntária e, definitivamente, incontrolável. Apenas duas reações: o grito e o simples instinto de manter total distância, correndo. Acho até que, pra me sair de uma dessas, seria capaz de fugir pra rua só de camisola mesmo, e doar meu quarto, minhas coisas, meus livros pra tal da barata.

Então, é assim: depois de identificada como barata “pedestre”, mantenho a serenidade que me resta ao final de cada dia. Claro, penso em tomar algumas medidas pra evitar a indesejável, evitar só, porque exterminar esse tipo de “coisa” é, com certeza, missão impossível.

Eu costumo pensar no lado bom: ora, se ela está em busca de alimento para baratas, nada vai me acontecer; jamais faria parte do cardápio dessa coisinha asquerosa. E no fim de tudo, eu até me identifico com a bandida! Ela tem hábitos noturnos e eu também. Ela sai atrás de comida, eu saio atrás de algo que eu goste muito de fazer no meu raro tempo livre da semana: escrever sobre bobagens e sobre outras coisas que ficam martelando na minha cabeça. E assim como a barata, usufruo do silêncio da calada da noite e de sua irresistível solidão.

27.2.12

O Morcego Invasor

Aqui, na casa dos meus pais, existe um morcego - dentro de casa. Sim, ele existe. Comprovei sua existência no mundo como morcego invasor de casas, da nossa casa só, talvez, na segunda de carnaval.

Tava de bobeira, matando a saudade de ficar em casa, grudada no sofá mais confortável da sala, quando ele se apresentou aos meus olhos. Estava descrevendo um voo da sala de jantar, passando pela cozinha, até o meu quarto; em seguida, voltando para a cozinha e para a sala de jantar. Parecia que fazia isso como de costume, como se já tivesse criado o hábito. Mas isso não foi nada normal; nada habitual a ideia de dividir um teto com um morcego de quintal. Então, é claro que entonei um grito de pavor.

Estava sozinha em casa, e só queria curtir meu momento "caseira". Foi nesse dia que eu acreditei na teoria da minha mãe. Qual a teoria da minha mãe? Bem, eu sou uma pessoa perturbada com luzes acesas sem precisão. Ela sabe disso e por isso, toda vez que vai dormir, me lembra de algo importante:

" Boa noite, filha! Ah, e não esquece que essa luz da cozinha é pra dormir acesa, porque, se não, a casa acorda toda cheia de fezes. Tem um morcego aí, que fica voando pela casa de madrugada."

Pensei que fosse só mais uma nóia da Mãe; afinal, ela é cheia de nóias e, quando encasqueta estas, não há cristão que as tire de sua cabeça dura. Dava vontade de responder: " Mãe, deixa de invenção!", mas dava só uma risadinha, seguida de um: " Como assim?!".

Tá, a teoria do morcego invasor que defeca dentro de casa funciona mesmo, é real. Tão verdadeira, quanto a solução da luz acesa. No dia que eu o vi pela primeira vez, antes, eu tinha apagado a luz da cozinha.

Imediatamente me veio à mente a cena da minha mãe falando do morcego vândalo. Imediatamente, quer dizer, depois do meu grito, corri pra cozinha e liguei a luz. Isso enquanto o labrador da Mãe me seguia, franzindo a testa numa vã tentativa de entender por que diabos eu agia de um jeito tão medroso e infantil.

23.2.12

Pombos com toda pompa



Tenho quase certeza de que os pombos guardam segredos sombrios dentro de seus papos salientes. Estufam o peito e passam a nossa frente. Outro dia precisei frear bruscamente. Esperei o pombo desfilar pelo asfalto esburacado com toda sua pompa. Andou com elegância o ícone da paz e também da doença, por isso também conhecido como “ rato de asas”. Para mim, mais parecem mistérios de asas com sangue nos olhos; já encarei-os e, de fato, circunda em seus olhos uma névoa avermelhada que confere ao seu olhar algo um tanto vampírico.

Eu continuava aguardando com toda paciência do mundo o pombo atravessar a avenida. Eu sabia que um de nós teria de ceder, e esse um era eu, que não representava ameaça alguma para ele. Mostrava-me sua posição de o Sr. da rua, não só da rua, aliás, do país, do planeta. Tenho quase certeza de que falta pouco para os pombos dominarem o mundo. E o pombo que apareceu no meio do meu caminho era o representante, um dos líderes da revolucionária superpopulação de pombos moradores de praças e igrejas.


Eu seguia com movimento ocular o seu andar dançante. O pescoço, povoado por penas azuis de tão negras, se estica, em seguida, recua deslizando no ar com o mesmo impulso. Parece até que decidiram ter esse tipo de andar pra zombar da gente: “Olha só a dancinha de calango que sou capaz de fazer .” Dança com o pescoço de um calango o danado. Com isso, ostenta sua habilidade observadora e furtiva. Finalmente, completou o seu trajeto e eu pude prosseguir o meu.

No outro dia, despertei de um sonho esquisito. Aqueles sonhos em cujos episódios nos perdemos e a única certeza são as sensações mais que físicas, que atravessam a pele e passam a ser sentidas também pelo nosso espírito. Aqueles sonhos em que sentimos necessidades tão fortes, a ponto de despertarmos com elas e descobrirmos que são reais.

Eu dormia no meu quarto, mas este não era mais parte da minha casa. Localizava-se agora no centro de uma praça qualquer. Era dia e os ventos anunciavam uma tempestade. Eu rolava de um lado pro outro na cama, não em busca de uma posição favorável para adormecer, mas tentando fugir de um pesadelo como muitas vezes faço: diante da ameaça de morte, simplesmente fecho os olhos, pronunciando mentalmente “vou sair daqui, vou sair daqui”, e me teletransporto, me refugio na realidade que só meu quarto é capaz de me proporcionar; nele sou inatingível, quase imortal. Meio insano se sentir imortal num mundo real, onde conseguimos ser os seres mais mortais da face da terra.

No pesadelo, o céu de nuvens tinha se transformado num céu de pombos, muitos, muitos pombos, uma intensa concentração de “ratos” voadores. Suas fezes banhavam meu corpo inteiro; eu me sentia muito imunda. Estava tão suja, que só pensava em me lavar com álcool, pois água não seria suficiente. Doenças transmitidas por pombos se espalhavam célula por célula no meu corpo. Eu estava contaminada, morte sentenciada.

Mas consegui, me utilizando do meu super poder de teletransporte, acordar na minha querida realidade da qual tanto reclamo às vezes. Não reclamo mais; minha vida é um mar de rosas e devo agradecer todo santo dia por isso.

Não sei se por telepatia, mas no mesmo dia desse terrível pesadelo, quando, nesse nosso confortável mundinho real, já planejava escrever aqui uma história sobre pombos, um amigo propôs que eu postasse uma crônica sobre o pombo viciado em fast-food, especificamente em “Burguer King”. Ele flagrou três vezes um pombo se deliciando com as batatas fritas de um desses Burguers Kings.

Então, esses pombos não são tão espertos assim, pois li que em estado selvagem eles podem viver até 15 anos, porém, nas cidades, com um cardápio nada saudável, não passam de 5 anos de vida. Não que eu esteja desejando o mal a eles, mas que isso pode ajudar no controle de natalidade, isso pode.

15.2.12

Chatinha, vai ver se a gente tá na esquina!

A gente pode até não saber ainda, mas é mais fácil do que se imagina enganar a Rotina, mais respeito, por favor: - Dona Rotina. Quer saber? - Chata Rotina, chata mesmo, a ponto de ser rebatizada de "Chatinha".

Sabe aquela pegadinha das velhas em que se aponta e diz: " Olha aquilo!" - só pra distrair por breve instante o seu interlocutor que parece observar e vigiar cada reação sua? Ou mesmo aquelas velhinhas gagás expressões: "Vai catar coquinho", "Vai ver se eu tô na esquina!". Quando me canso, consigo pegá-la numa dessas.

É simples, muito simples acabar com Ela. Coisas pequenas que você decide fazer são capazes de levá-la à morte súbita. Claro que a Dita Cuja ressuscita depois, porque, no fundo, sabemos que se faz necessária pra ordenar nossa programação certinha de todo santo dia. Vamos aos exemplos de coisas pequeninas com as quais enganamos a Chatinha:

- Vez por outra, desça quantas paradas antes você puder da que normalmente você escolhe. Saia andando a avenida inteira, se preciso, e vá observando bem cada detalhe das casas, estabelecimentos comerciais abandonados, ciclistas, mendigos, enfim, qualquer coisa/pessoa que você não notaria se estivesse dentro de um veículo. Mas veja se tem um Ronda por perto para previnir eventuais assaltos ou sequestros;

- Chegue ao trabalho entrando por outra portaria;

- Deixe o elevador quieto um instante e desça de escada mesmo; subir também não vai te matar sem fôlego, é só aprender a respirar corretamente: encher a barriguinha de ar e depois soltar. Importante respirar pelo nariz, a não ser que tenha crises de rinite e a única saída fica sendo respirar pela boca mesmo;

- Mude o disco, troque a música que você faz questão de ouvir "trocentas" milhões de vezes;

- Escolha o sentido inverso da cama pra dormir; ah, você pode também mudar os objetos de lugar;

- Ao invés de ir direto pra TV ver "BBB", escolha um canto mais reservado e silencioso; escolha um bom livro e comece imediatamente a ler;

- Sugira novas ideias pro seu trabalho e pra sua vida, se preciso for, suba numa árvore pra ver as coisas sob diferentes ângulos. - Um ex-parceiro de trabalho criativo me fez subir numa árvore uma vez. Levou o setor inteiro pra passear no parque depois do almoço.

E de muitas e muitas outras formas você consegue trapacear a Chatinha da Rotina, dependendo, é claro, de como são seus hábitos hoje.

13.2.12

Coincide o passo

É engraçada a situação que paira no ar, quando a gente vem andando distraído,focado numa só direção do caminho, e quase esbarra em alguém. Ficam os dois atônitos querendo seguir cada qual seu rumo, só que não conseguem porque coincidem o passo outra vez e de novo. Você decide investir na direita. O desconhecido pensa a mesma coisa que você. Então, você, gentil, mais constrangido do que gentil, volta atrás e escolhe a direção esquerda. E lá está a pessoa de novo, fazendo um projeto de caminho igual ao seu.

Você decide que quer acabar com isso e fica imóvel; simplesmente espera o outro decidir seu trajeto e ir embora de vez. Você está evitando um conflito chamado: coincidência de passos. Mas tem certas vezes que a gente não evita. Dá boas risadas da tal situação e decide que não vai evitar porque gostou daquilo e quer repetir.

Seria mera coincidência mesmo? Será que aquela pessoa com quem você cruzou no corredor não teria de ficar pra sempre ou por muito tempo no seu caminho? Um dia, faz quase cinco anos, permiti, sem medo algum, que meu passo coincidisse com de um rapaz. E até hoje caminhamos juntos na mesma direção. A gente se esbarra todo dia, se não pessoalmente, em pensamento.

11.2.12

Da janela de Arnaldo Antunes

Toda pessoa já é talentosa por natureza, porque você sabe usar o discurso, você fala com sua mãe de um jeito, com o policial de outro, com o porteiro do prédio de outro, com seu filho de outro. Teu discurso se adequa. Eu, na verdade, tenho anseio de, de tá o tempo todo, de certa forma, alterando a sensibilidade, a consciência das pessoas. Mas, ao mesmo tempo, tem um desejo muito da simplicidade, da naturalidade de tá dizendo as mesmas coisas que são óbvias, assim, só que as pessoas não estavam vendo sob aquele ponto de vista.

E aí as pessoas falam essa coisa da alma ser aquilo que você tem lá dentro, escondido no fundo, e não, às vezes tá na pele. E a música traz muito isso, por isso que ela faz a pele arrepiar, o pé bater no ritmo, as pessoas dançarem. Ela move a coisa do corpo.

Acho que a questão da Arte tá muito no "o como" você faz as coisas, talvez mais do que no ˜o quê" você faz. Sempre que eu vou fazer alguma canção ou mesmo escrever alguma coisa parece que eu não sei se vou conseguir. É sempre aventura, assim, e aí eu acabo dando um jeito e consigo, mas "o não conseguir" tá sempre presente; eu posso não conseguir.

O tempo todo é um contraponto de ação e repouso, de fala e silêncio, de som e silêncio. Você tem o pé e o espaço pra dar o passo, então eu tenho o vazio e o (...) e isso que faz a coisa se movimentar.

Eu gosto da coisa profana, da coisa híbrida, da coisa mestiça, da coisa suja, gosto do berro, a voz que tem o elemento do ruído incorporado. Pra mim, criar sempre foi um sintoma de bem estar, um sintoma de que eu tô alegre.

Acho que qualquer pessoa quer estar bem, né?! Acho que isso deveria ser um princípio comum a todo mundo.

Copiado do áudio do DVD/ álbum "Lá em Casa- ao vivo"

Amada jaca.

A professora alto-astral da Academia ama jaca. Não sei como ela mantém o corpo bem desenhado, mas, pelo visto, o amor que ela tem pela jaca não afeta o aspecto sarado dela. "- Eu AMO jaca!", ela dizendo com um sorriso de ponta a outra, o abraço agarrado ao saco de onde escapava o cheiro muito característico do presente dado por uma aluna.

Falou intrigada que passou o treino inteiro se perguntando de onde vinha aquele cheiro tão gostoso. Depois, se lembrou que era a jaca, a jaca que ganhou de uma aluna depois que a mesma perguntou, sem esperança de uma resposta positiva, se ela gostava de jaca. Ela não gosta não, ela ama!

A tal aluna também tinha ganho a jaca de um cliente e parece que não tinha como levá-la pra casa. A professora ficou feliz e depois fez biquinho ao lembrar que ia viajar e a jaca se estragar. Mas sua colega de trabalho sugeriu uma solução para o grande problema. Aconselhou que ela cortasse a jaca inteira e guardasse os gominhos na geladeira. A professora ficou toda alegre de novo.

Achei engraçado a professora indo embora toda feliz por causa de uma jaca. Achei também um tanto raro em dias como os de hoje, quando se encontra facilmente suco de laranja ( "caseira") com gominhos confinados numa caixa cheia de conservantes, alguém amar tanto um alimento natural, vindo direto do pé de jaca.

Lembrei da minha mãe, também uma doida por jaca, toda eufórica de alegria ao descobrir que eu estava voltando de um acampamento, carregando uma jaca pra dar a ela. A jaca que eu mesma cortei e tirei do pé.

5.2.12

A Mãe jardineira que tenho

Tenho mãe jardineira; e tenho orgulho disso dela. Eu tenho mãe com quem aprendi a sentir a natureza como um ser vivo. Lembro bem, eu bem pequena questionando ela:

"- Por que aguar o jardim duas vezes no mesmo dia?" Ela, com aquele jeito dela impaciente para dar respostas, me respondeu com outra pergunta:

" - A gente só come e bebe água uma vez no dia?"

Tenho mãe que me ensinou a contemplar a beleza das flores e, principalmente, me fez entender que essas flores não são meros objetos de decoração, e sim vidas, como um coração a bater forte e vermelho no peito.

No começo desse ano, meus pais reformaram uma espécie de "jardim-garagem" daqui de casa. Uma pena quando percebi, já na metade das obras, que os antigos 50% de jardim perderiam para os 90% da nova garagem para dois carros. Eu, pasma, joguei pra ela mais uma pergunta polêmica com relação ao jardim:

" - Mas, Mãe, e o jardim? E o céu que nem dá mais pra ver daqui, - com essa cobertura toda aí de telhados! Desse jeito, nem o beija-flor volta mais aqui."

Desta vez, com paciência, ela se pôs a explicar que não iria se desfazer do jardim, que encontraria lugar para os jarros. Depois, não sei se por conta da minha indignação, ela me apareceu com plantinhas novas.

Trouxe jarrinhos com rosas dançantes e exibidas. Não se esqueceu de uns ganchos pra suspender os jarros nas colunas, já que não havia mais chão disponível. Então, me aparece meu pai como assistente daquela jardineira empenhada. Veio trazendo umas joaninhas e borboletas tão coloridas, que dão dor na vista. Estava munido de um martelo. Eles me contagiaram e me auto-candidatei a assistente. Minha função era indicar os melhores espaços sobre os quais possivelmente uma joaninha seria encontrada. Além disso, eu teria de prever as trajetórias dos voos das borboletas do nosso jardim.

Agora, as joaninhas e as borboletas estão lá, coladas na única parede do jardim sobre a qual se preservou o céu aberto e sob a qual foi mantido o estreito piso de terra com plantas enfileiradas.

Também agora está lá, um mini-burrinho de barro carregando, sem sair do lugar, dois jarrinhos floridos, um de cada lado da cela. Eu também ajudei a montá-lo. A mãe jardineira que tenho pediu que eu segurasse a miniatura de roseira, fragilmente enraizada no bloquinho de terra.

Enquanto a mãe preparava o mini-jarro do burrinho pra receber a roseira, eu segurava, eu abraçava, com certo receio, a terra com a qual a roseirinha indefesa se agarrava. Eu tinha tanto medo de deixar cair um grãozinho que fosse! Eu tinha receio de que a raiz desgrudasse da terra que eu tinha sobre minhas mãos em concha. Eu parecia uma menininha, segurando nos braços, pela primeira vez, um bebê recém-nascido bem fragilzinho. Acho que a mãe jardineira que tenho percebeu e ficou aconselhando:

- " Segura a bichinha com jeito, pra não derrubar!".

Eu me orgulho tanto da mãe jardineira que eu tenho. Achei tão lindo uma vez ela declarando:

" - Quando eu morrer, meu espírito vai estar nas florestas. Eu vou ficar vagando nos campos."

1.2.12

Pra ficar de bem com você mesmo

Aqui vai uma dica; dica não, se não vai parecer aquelas revistas bobinhas com o título em cor vibrante, dizendo " Dicas e truques incríveis para uma vida mais saudável".

Na verdade, é apenas uma pequena sugestão. Eu fiz isto uma vez e foi tão bom, que amadureci a pequena ideia na cabeça pra virar postagem aqui, - pra que chegue até aquelas(acho que poucas) pessoas que fazem visitinhas rápidas ou longas às minhas três paredes.

Desta vez, não me proponho a escrever texto "filosófico" com metáforas malucas. No fundo, só me deu vontade de espalhar serenidade - essa sensação boa por aí, pra ti, leitor.

Agora, chega de enrolação que a sugestão não é nada de mais. Garanto que não vai arrancar pedaço de ninguém e nem ocupar demais seu badalado tempo.

* Mantenha sempre, principalmente durante a semana, sua geladeira abastecida de água de coco guardadinha e esperando por você no interior do coco. Deixe sempre o canudinho por perto e o dispositivo de som no ponto pra encher o ar de Bob Marley.



Faça isso e, quando você chegar em casa à noite, cansado depois do trabalho e estressado depois do trânsito, parece que vai sentir aquela carga pesada e perigosamente inflamável sair de cima dos seus ombros.

Agora, se o tempo está complicado mesmo, pelo menos uma só musiquinha do Bob Marley, dançada enquanto se toma um coco geladinho, não faz mal nenhum, vai!


" Positive Vibration"

Live if you want to live
Rastaman vibration yeah! Positive
I and I vibration yeah! Positive
I a man Iration yeah! Irie Ites
Positive vibration yeah! Positive

If you get down and quarrel everyday
You're saying prayers to the devil, I say
Why not help another on the way
Make it much easier
Say you just can't live that negative way
You know what I mean
Make way for the positive day

Cause its a new day
New time, new feeling yeah!
Say it's a new sign
Oh what a new day
Picking up.
Are you picking up now
Jah love, Jah love, protect us (Repeat)

Rastaman Vibration yeah! Positive
I and I vibration yeah! Irie Ites
Vibes, got to have a good vibe
Picking up.
Are you picking up now (Repeat)

29.1.12

Carinho por algo

Quando a gente tenta, incansavelmente, melhorar algo - é sinal de que o carinho por esse algo é grande e saudável pra gente. Mudei de novo a aparência do meu blog e outras coisas de mim também.

28.1.12

Da espontaneidade dela

A Larinha, esperando comigo e o irmão que o shopping abrisse, começa a brincar com um neném ao lado, no colo da mãe.

Eu: - Olha, ele gostou de ti!
Ela: - Todo bebê gosta de mim, não sei por que.

A mãe da criança olha simpática pra gente.

Ela: - Eu brinco desse jeito com o cachorro da minha amiga.

A mãe vira a cara, e eu me limito a dizer, já não me aguentando de tanto rir:

- Meninaaa! Não se diz isso!

25.1.12

" Branca?! "

- Sim, é branca a minha mochila!

- Bonita ela, mas é branca!

- Eu sei que suja rápido (...) Se sujar, quando tiver bem suja, eu lavo!


Tá, tá, não vou mentir que, antes de bater o martelo pela compra dela, pensei bem nisso, no esforço que eu precisaria fazer para mantê-la sempre com aparência de nova e lim-pinha. Eu sabia que mentira seria eu jurar pra mim mesma que a lavaria toda vez que surgisse uma manchinha de nada. Logo, só prometi mentalmente que nunca a tiraria dos meus ombros para colocá-la no chão, pensando em aliviar o peso sobre mim. Não pensei nisso para prevenção da sujeira a qual ela estaria sujeita, porque é normal coisas ou pessoas brancas de pureza se corromperem ao longo do caminho e se sujarem também. Do contrário, seríamos ingênuos e bobos até o fim de nossas vidas. Não perceberíamos duplos sentidos nas coisas; não enxergaríamos maldade em nada. Enfim, seríamos uns indefesos.

Então, só fiz a promessa de manter minha mochila branca-suja sempre suspensa nos meus próprios ombros, porque o legal é sempre levar com a gente nossas bagagens, tanto as boas quanto as ruins. Não podemos simplesmente ignorar o peso pesado dos maus bocados se são esses que nos preparam pra vida. Não é só jogar a mochila de lado, e deixar os problemas esperando até você criar coragem para carregá-los novamente.

Somos todos uns brancos meio sujos; que nem minha mochila transparecendo as manchas que deixei cair sem querer querendo, como o sorvete que cai na blusa e a gente só nota o estrago depois.

Mas há ainda os que preferem preto, porque disfarça bem as imperfeições. Mal sabem estes que o bonito é mostrar o que não é perfeito com o destaque que dá o plano de fundo branco. Assim, os outros notam rapidinho o que falta em você e o que tem neles pra complementar o seu "você".

24.1.12

Aqueles dias

Tem dias que eu procuro meio que ansiosamente uma música perdida entre tantas canções do mp3. Fico aflita em busca daquela canção que desenhe na boca um sorrisinho de leve ou daquelas que jogam ciscos imaginários nos seus olhos e você tem que disfarçar o choro em público.

Esses são os dias em que a sensibilidade me abandona por uns bons instantes; cansa de mim e desaparece sem mandar notícias. Sim, ela me deixa só às vezes. Fico só comigo mesma, pior, com alguém que não parece comigo.

Hoje eu tentei resgatar o ânimo com Led Zeppelin; sem resultado, pensei: " É, é um caso pra se preocupar". Aí o meu dedo polegar nervoso e um tanto frustrado pressionou o mp3 e encontrou a "Gal Costa Novelas". Fiquei esperando uma lagrimazinha que seja molhar meu rosto sem expressão e tão frígido quanto o de uma defunta ( tá, já bati na madeira).

Dei chance pra Gal e, em troca, ela me deu uma paz sem tamanho. Escutei mais um pouco até que surgiu na sequência a "Sorte". E assim, a sensibilidade veio junto com o sorrisinho de leve no rosto e no coração. Eis a letra que na voz dela fez o milagre em mim:

" Tudo de bom que você me fizer, faz minha rima ficar mais rara
O que você faz me ajuda a cantar! Põe um sorriso na minha cara.
Meu amor, você me dá sorte! Meu amor, você me dá sorte!
Meu amor, você me dá sorte na vida!
Quando te vejo não saio do tom, mas meu desejo já se repara!
Me dá um beijo com tudo de bom e acende a noite na Guanabara!
Meu amor, você me dá sorte! Meu amor, você me dá sorte!
Meu amor, você me dá sorte de cara!"

22.1.12

Diariamente


Diariamente acontece em todas as praias do planeta a cerimônia do casamento do Mar com o Céu. Só pode ser. Ora, você não já reparou não, como as ondas do Mar são na verdade um grande e espaçoso véu de noiva? Já notou como as noivas são espaçosas?

Os convidados ficam com receio de pisar, sem querer, naquele tecido tão delicado quanto simbólico. Fui a um casamento um dia desses em que a daminha pausou o passo, esboçando no rosto uma expressão como de quem entra numa fria e passa um bom tempo pensando numa solução imediata. A pequena dama ficou ali, separada dos noivos pelo véu; ficou pensando no que faria para que as alianças chegassem até o casal. Eu, que estava mais perto, testemunhei o olhar aflito que a menininha lançava para os noivos. O noivo já não continha as risadas quando, felizmente, resolveu-se o impasse. O carinha que estava filmando guiou-a, de forma que circundasse o véu como quem anda à beira-mar.

Fico pensando em como o casamento do Mar com o Céu é diferente desse. Não há formalidade e nem frescura alguma. Os noivos fazem é convidar a gente pra pisar, e até pular sobre o véu (a onda). Parece até que a gente também casa com eles.

P.S:

A minha amiga Larinha, uma menina linda de 10 anos, me deu sua opinião sobre esse texto. Sugeriu que, no fim, eu aconselhasse você, escrevendo mais ou menos assim:

" Não separe esse casal. Não jogue sujeira, se não você vai estragar o casamento mais bonito que já vimos. Então, deixe eles viverem felizes para sempre como nos contos de fada!"

Ah, se der, comente aqui o que achou do fim do texto. A Larinha está ansiosa pra saber. Bem, de qualquer forma, já garanti a ela que você vai adorar, afinal, quem não gostaria de preservar melhor o planeta?!

19.1.12

É amanhã

Amanhã completa-se mais um ano da minha pequena existência nesse mundão tão imenso, tão repleto de outras existências que cruzam com a minha. Feliz aniversário pra mim! Já me auto-presentiei com coisas materiais e tantas outras sentimentais.

11.1.12

E aí, como é?

Tenho um amigo-irmão meio durão, mais parece um vilão. Mas que bom que as aparências enganam sim.

Outro dia perguntei a ele a pergunta que sempre faço: "como é a sensação de ser mamãe ou papai de um nenenzinho assim?". Eu esperava que ele seria sucinto na resposta, como todas as outras pessoas que já foram alvo dessa minha pergunta tão difícil de responder. Então eu esperava que ele dissesse apenas: " É muito bom!", e ao mesmo tempo aquele olhar cheio de amor só de lembrar. Bem, o olhar ele fez, só na resposta que ele veio todo inspirado, despejando pensamentos que só um pai de uma filha linda é capaz de formular. E aí ele disse:

" - Minha vida não tinha sentido antes. Mas eu não era depressivo por causa disso, porque é normal a vida não ter sentido, até a gente ter um nenenzinho pra cuidar. O sentido da minha vida é viver pra cuidar da neném."

Se você me conhece bem, eu nem preciso confessar que um monte de ciscos caíram nos meus olhos, e que a vontade de ser mamãe um dia se sentiu muito bem alimentada e acalentada, bem aqui, no meu interior.

7.1.12

A história do Calo

Calo. Desta vez, escrevo sobre calo; calo mesmo e não um calo conjugado do verbo calar, até porque já não tenho cara de me calar toda vez que um grande amigo insiste:

" - Escreva, escreva uma crônica do calo lá no blog!"

É esse meu amigo que me ensina o quanto é bom conhecer a história de vida das pessoas, muitas vezes tão próximas da gente, mas que não paramos pra sentar e puxar uma conversa mais profunda, digamos que filosófica. O meu amigo sempre me diz:

"O Fulano tem uma história bem interessante. Converse com ele, que ele vai te contar"

Mas eu nem preciso investigar, depois de dizer isso, ele vai relatando uma sinopse da biografia daquela pessoa e de outra pessoa, aponta para outra pessoa na mesa e conta, para outra e mais outra. Tantas histórias e eu me esforçando pra que não me escapem da memória depois. Mas uma, em particular, foi a que mais prendeu minha atenção: a história do homem de Q.I elevado. Tá, onde entra nessa história o tal do calo? Entra nos assuntos de pauta das reuniões do emprego dele.

Toda manhã ele reclama do calo no dedo mindinho e da unha encravada do dedão. Ele culpa o sapato e pode até pensar: "Só uma cachaça pra me fazer esquecer desse bendito calo!".

Ah calos para nos incomodar. O curioso é que todo o mundo tem um, não necessariamente no pé, e esses são os piores.

Calo é assim: se você tenta andar com classe, aquele negocinho ardoroso o impede de seguir em frente de forma confortável. E embora o calo esteja lá, deixando uma parte preciosa do seu pé em "carne-viva", você não deve parar no meio do caminho, diante da sociedade civilizada, e simplesmente "pendurar suas chuteiras" apertadas para prosseguir de pés descalços. Pegaria mal e confundiriam você com um mendigo. Ah, seria tão mais relaxante. Eu faria questão de procurar uma grama bem macia e infringir a ordem da plaquinha "Não pise na grama!"

29.12.11

Da janela de Shakespeare

JULIETA

É só seu nome que é meu inimigo:
Mas você é você, não é Montéquio!
O que é Montéquio? Não é pé, nem mão,
Nem braço, nem feição, nem parte alguma
De homem algum. Oh, chame-se outra coisa!
O que há num nome? O que chamamos rosa
Teria o mesmo cheiro com outro nome;
E assim Romeu, chamado de outra coisa,
Continuaria sempre a ser perfeito,
Com outro nome. Mude-o, Romeu,
E em troca dele, que não é você,
Fique comigo.

ROMEU

Eu cobro essa jura!
Se me chamar de amor, me rebatizo,
E, de hoje em diante, eu não sou mais Romeu.

(p.50-51; ROMEU E JULIETA - Saraiva de bolso)


Deve ser por isso que, quando meu amor me chama de "Elaine" - quando tá com raiva -, eu acho tão estranho:

- Não me chame de "Elaine"!
Chega a ser quase uma ofensa.

28.12.11

Uma mensagem de fim de ano.

Eu não sou boa de mensagens de fim de ano. Tem uma lousa branca lá na academia à disposição. Mas eu não, eu não consigo pensar em algo além de: " Feliz Natal e um próspero Ano Novo". Mais uma vez tenho a convicção de que não ligo pra datas. O que são datas, se não apenas números? O que é um monte de números espremidos num calendário?

Acho que poderia haver, não uma contagem, mas uma coletânia de sentimentos; aí sim, faria sentido. Todo dia uma confraternização mais animada que a do dia anterior. Ninguém precisaria se perguntar: " que data é hoje?", e os números não teriam a menor importância.

Amanhã, de manhã cedinho, vou encarar novamente a lousa branca, já riscada por alguns frequentadores da academia, e vou reler as mensagens lá esquecidas: "Feliz Natal e um próspero ano novo"; " Vamos fazer do mundo a casa de todos"; e até um " Vendo carro...".

Então, eu vou pensar de novo no que eu poderia deixar para um casual leitor daquela lousa; vou passar direto, fazer alongamentos e, ao mesmo tempo, dedicar minha atenção novamente a uma planta pequena de quatro folhas. Ela fica no topo do muro da academia. Nasceu ali não sei como; minha nossa, brotou de uma parede! Além de crescer de dentro da superfície de um muro, atrás dela tem outro muro que se levanta da altura do seu caule curto até (...) lá no alto. E como se não bastasse, uma cerca elétrica anti-ladrões curva-se à sua frente; quer dizer, a planta que cito aqui nasce de um muro e mora entre outro muro e uma cerca que dá choque.

Como uma fã declarada de metáforas, eu colho dessa observação diária uma mensagem positiva pra você, que considera a ideia de um novo começo representada por uma simples, na verdade, complicada e quantificada mudança de calendário:

Eu lhe proponho que, a partir de 2012 ou de agora mesmo, você seja como essa planta do muro. Mantenha-se firme e forte, e verde de esperança, mesmo nas situações mais adversas ou nos cantos mais incomuns de se viver. Se, para isso, for preciso a proteção dos outros que lhe servem de muros ou de porto seguro, não faz mal, não seria demonstração de insegurança; só se proteja da auto-superproteção e dos superprotetores, mas não abra mão dos cuidados. Cuide de si e de quem você ama.

Não gosto de livros de autoajuda, nem de mensagens repetitivas de fim de ano, mas é que me deu uma vontade de plantar esses pensamentos em você que me ler.

Então, já sabe, né? Seja uma plantinha; ou um plantão de muro, como queira.

19.12.11

"- Cala a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu!"

Diz a pequena tagarela, que não liga se é banguela, que ainda faz questão de soletrar, embora já tire de letra o bê a bá das placas que passam rápido pela janela. Segue a viagem toda tagarelando tanto, que a própria língua atropela.

Enquanto nós, gente grande, só lembramos da nossa língua, no máximo, quando comemos apressados e a queimamos. Afinal, crescemos ouvindo: "Quem cala, consente." Fomos educados a nos acomodar, a deixar que outro alguém decida por nós. Assim, calados, nos poupamos de maiores esforços. Teriam os pais uma parcela de culpa nisso? Teriam eles, não por mal, pulado a fase de crescimento dos filhos? Disso não sei, mas conheço uma menina tagarela que só ela.

Dá voltas e voltas a menina, mas sempre volta. Tem nas mãos a Imaginação, no pé a poça da chuva. Fala tão rápido quanto cresce e, como toda criança, quer mais é sua atenção quando faz biquinho dizendo no idioma do chororô: " - Eu só quero o seu amor por vinte e quatro horas!"

18.12.11

O Papai Noel condenado à forca


Eu acho muita graça dessas gracinhas de Natal. Em cada beco, avenida, casa pequena, casa grande, casa mais humilde, casa mais nobre, em todo canto sinais de que as pessoas estão cada dia mais carentes, não só de espírito natalino, mas de tudo que preencha o próprio, o nosso espírito. Mas afinal, em qual estado de espírito a gente anda se encontrando, ou pior, se perdendo? Difícil dizer ao certo.

Aqui em casa também, todo ano tem a tal carência comum na época próxima ao Natal. Meus pais põem enfeite até onde não cabe mais. Não deu pra pendurar na árvore, então pendura no prego cravado no ápice da porta da sala, onde agora tem uma cabeça de um desses bons velhinhos de boneco; só a cabeça mesmo, sabe-se lá onde foi parar o resto do corpo, talvez os membros e o tronco estejam espalhados na vizinhança.



A cabeça sabemos que está na porta, correndo o risco de ser esquecida e permanecer lá o ano inteiro. Eu não a esqueço, pois a minha imaginação fértil fica buscando mil e uma explicações para compreender, afinal, o que essa imagem de cabeça separada do corpo de Papai Noel representa para os meus pais ou para as possíveis visitas. Para mim, mais parece um Papai Noel que fugiu dos padrões morais e perdeu a personalidade do bom e velho "bom velhinho". Saiu dos contos de Natal pra virar vilão na vida real. Terá feito alguma perversidade com alguma criancinha, meu Deus? A cabeça, assim, arrancada do corpo, deduzo que, com as próprias mãos, alguém fez o "olho por olho, dente por dente" contra o tal Papai Noel.

Foi tão malfeitor assim que o levaram para a forca? Imagino uma morte martirizada tal como a do Tiradentes. Aquele Papai, dono da cabeça pendurada na minha sala, teria vivido seus últimos momentos como um autêntico herói ou o cortaram em pedacinhos para servir de exemplo a outras versões malvadas de Papais Noéis?

Toda vez que chego em casa, me pego olhando para a cara de gente boa de velhinho do Bem, de óculos, bochechas cor-de-rosa, rosto fofinho, barba longa e branca como neve. O vento vem do jardim balançando a pobre cabeça saudosa do corpo. Ele ainda me parece vivo.

Não fico me perguntando se existe Papai Noel, me pergunto mesmo é: "Será que existe um Papai Noel do Mal? Assim como: "Será que existe um padre, ou seja lá como é chamado alguém que exerça uma profissão de fé, que não seja de todo do Bem?" Existe sim, afinal não é do ser humano a qualidade de santíssimo ou 100% do Bem em todos os atos e pensamentos.

16.12.11

Não um dia 13 como outro qualquer

Esses dias, indiretamente, uma pessoa muito linda, linda mesmo, por dentro e por fora (se me permitem o clichê) tem me ensinado algo também muito lindo. Ela nem sabe que deu uma aula sobre a vida pra mim, mas faço questão de confessar e divulgar o bem que ela me fez.

Não a conheço de longas datas, não há convívio, não é minha amiga, ou pelo menos ainda não ( torço que seja), mas sabe aquelas pessoas transparentes que você consegue distinguir cada pedacinho da alma só de olhar bem nos olhos? Ela é uma.

Trabalha na sala em frente à minha. Ainda bem que, lá no meu trabalho, as paredes são de vidro; assim pude perceber a animação do setor naquele dia e o motivo da alegria. Lembrei de que a terça-feira dessa semana, dia 13 de dezembro, não era uma terça como todas as outras. Era o aniversário dela.

Como pude esquecer, se enquanto ela me dava carona, uma semana atrás, deu-se um silêncio momentâneo e do nada ela pensou alto, com uma empolgação quase incomum de se ver por aí: “ – Dia 13 é meu aniversário!” E pra minha surpresa, completou: “ – Dá um frio na barriga. Fico tão ansiosa”. Achei esquisito; não que ela seja esquisita, só achei diferente, porque eu nunca liguei muito pra datas, na verdade, nunca dei bola para uma data específica, a do meu aniversário.

Veja só, ano passado, cheguei pela manhã no trabalho, entrei na sala meio desconfiada e disse um “Bom dia!" normal e a sala de mulheres devolveu o meu “Bom dia!" normal também com o mesmo “Bom dia!" normal. Mas eu sabia que elas sabiam que era meu aniversário, da mesma forma que eu sabia que para elas tudo é motivo de festa, motivo da cota de refrigerante, bolo e salgado. Mesmo assim, respeitei o mistério do dia e fiquei na minha matutando: “ Elas vão aprontar alguma, ora se não!”

Passaram-se longos minutos até que libertaram o riso e sumiram comigo num abraço coletivo. Fui questionada pela indignação de uma delas: “ Como pode, menina, você aparece assim tão normal no seu dia?!”

Sempre achei normal, afinal todo o mundo faz aniversário uma vez por ano, todo mundo já nasceu um dia, o dia tal, do mês tal, ano tal, em que as mães deram à luz a um serzinho. Será que nunca dei importância por não me achar uma “luz”, não assim uma indivídua Brastemp?

Sei lá, só sei que a pessoa linda me fez enxergar o dia especial que é o Dia em que a gente veio ao mundo. Só sei que, enquanto voava sobre meus “tecos-tecos” apressados pelo corredor, parei um momento e reparei que o departamento da frente era só palmas e “parabéns pra você”(pra ela). Quando a vi - de pé, agitando as mãos no ar como quem pede aplausos e pulando como uma pipoquinha baiana- dissolveu-se a imagem decorada da minha agenda de afazeres do dia que circundava minha cabeça. Fiquei pensando: “ É, é essa vontade de celebrar minha existência que eu devo ter.”

Não pensei em mais nada, só mesmo em ir lá na mesa colorida dela dar um abraço pra lá de verdadeiro, de pura admiração. Ela transmitiu uma energia tão positiva pra mim. Entendi então o sentido da expressão que diz "dar à luz". Iluminada ela, pois além de adorar seu próprio aniversário, adora Deus.

Ontem, na carona, ela me deu mais uma lição, refletindo assim: " - Com tantas tragédias no mundo, comemorar mais um ano de vida é uma benção."

Agora sim, juro que sempre vou reafirmar com ansiedade: “ Dia 20 de janeiro está chegando! Meu Aniversário!" Juro que sempre vou celebrar cada ano de minha existência nesse mundinho de nosso Deus. E que venham os cabelos brancos!

13.12.11

T.P.T: tensão pré-tristeza

Você vai montando aos pouquinhos um arquivo particular de memórias de tudo que já achou mesquinho em suas próprias atitudes e nas atitudes dos outros.

Quando você, pelo impulso de um certo momento, trata mal alguém ou alguém te trata mal.

Quando você nota gente ao seu redor chorando baixinho, abafado, tudo pra não demonstrar sequer o menor sinal de fraqueza que seja, porque alguém determinou que o mundo é para os fortes. Você é forte? Eu, definitivamente, não e nem um pouco. Não tenho força suficiente, principalmente quando falam com alguém querido ou comigo de uma forma tão insensível a ponto de deixar o outro tão murcho quanto um bolo sem fermento. Ou quando o coração aperta tanto quanto um sapato bicudo e menor que o pé.

Quando entregamos muito menos do que alguém da família espera da gente. Quando sabemos que não estamos vivendo a vida que nossos pais sonharam pra gente. Você não está tentando passar num concurso público. Você não tem aquela quantia de dinheiro pra construir uma família logo, logo.

Você vai arquivando essas coisas, ou algo parecido, e outras coisas mais pequenas e deprimentes, somando com outros sintomas muito comuns em mulheres com t.p.m e acaba resultando em algo bem mais tenso: T.P.T -tensão pré-tristeza, ou seja, uma enxurrada de lágrimas de desabafo, capaz de inundar o rosto e o corpo inteiro abaixo. Um temporal que pode passar logo ou durar mais tempo que o esperado. Uma nuvem carregada que parece levar a abate sua mente e alma. E olha que não é exagero de alguém viciado em novela, é só um aviso prévio da chegada dEla, dessa tristeza bandida, que se instala na gente de supetão. E às vezes vem de mala e cuia a danada.

Mas sem desespero, ninguém vai mandar você engolir o choro. Pense que, daí em diante, você só aliviará essa T.P.T atraindo mais gente querida pra bem perto.

Consulte seu amigo, seu namorado(a), quem seja, mas busque alguém que massageie seu espírito. E nem é preciso muito, só um carinho, um abraço daqueles, bem apertado.

8.12.11

Ele é incrível

Não tem jeito, faz quase 24 anos que eu tenho Pai incrível e até hoje não deixo de ficar pasma com as atitudes dele. Meu Pai do céu, como cabe tamanho altruísmo num pai terreno, assim, de carne e osso? Ele trabalha há 31 anos na mesma empresa o dia todo, às vezes o fim de semana todo. E isso só pensando em garantir o máximo de conforto que conseguir oferecer a sua família. Ele faz tudo pensando em agradar a gente.

Essa semana mesmo, só comentei por alto que estava precisando urgente de uma mochila resistente. Ele decidiu então que compraria pra mim, eu disse: "não, pode deixar, que eu mesma descubro onde vende mochila resistente às minhas trocentas tralhas de fins de semana fora de casa". Eu insisti: "- Não precisa!", e quando achei que tinha conseguido convencê-lo de que o ideal seria que eu mesma escolhesse a melhor mochila do melhor preço, ele me liga durante seu horário de almoço, procurando saber quais características eu buscava em uma mochila.

Disse-me as opções de cores, esperando uma resposta, estava mesmo prestes a comprar. Eu disse mais uma vez que não precisava, achando que a loja fazia parte do seu caminho. E acredite, ele fez ainda uma apurada pesquisa em várias lojas (descobri logo à noite na volta pra casa, enquanto descrevia com propriedade os tipos e preços de mochilas que viu).

Agora, me diz, leitor(a), se não é de admirar uma pessoa dessas? Se dependesse dele, ele poderia passar fome, andar por aí maltrapilho, mas sua esposa? Seus filhos? Esses não! Fico até pensando: se algum dia, por alguma razão, não tivesse comida suficiente no jantar pra toda sua família, certeza que mentiria, sendo bastante convincente, ao afirmar que não sente fome.

Meu Pai de carne e osso é realmente incrível, de um incrível beirando ao inacreditável. Meu Pai é o cara, meu Pai é um santo. Oh, meu Deus, e eu o amo tanto!

Quer me ver triste, arrasada? É eu saber que ele está triste e extremamente preocupado, fazendo as contas do mês na mesa da cozinha, sem nem ao menos dormir direito. Como me dói ouví-lo desabafar às 5h30 da manhã: " - Como eu queria dormir mais! Sinto minha cabeça oca..."

4.12.11

Xih...faltou enfeite!


Entrou no quarto do irmão agarrada a um pinheiro de plástico raquítico, segurando-o com um bracinho de menina de 10 anos. Exibia a novidade com uma felicidade incontida. A mãe acabara de comprar o que seria dali a instantes uma mini-árvore de Natal como manda o figurino: enfeites, enfeites, enfeites e uma estrela brilhante na ponta. Quer dizer, não foi bem assim como manda o tal figurino natalino. Mas elas se esforçaram. Ouvi da sala as duas matutarem como se enfeitava uma árvore. " Ah, isso aqui é assim, aqui, filha!" Foi assim até que enfim:

" - Vai, Filha , mostra a ela a árvore coitadinha, quase sem enfeites. (risadas)"

- Cadê? Onde? Não tô vendo!(a mãe reagiu à minha pergunta com boas risadas) Eu indagava sem malícia, sem notar se poderia ofender a menina que sonhava com uma árvore de Natal na sala sempre bagunçada de sua casa. E lá estava o pinheirinho de plástico, tão minúsculo e escondido pelo braço do sofá.

Cheguei mais perto para averiguar se havia mesmo carência de decoração e, de fato, da metade pra cima haviam coisas fofas penduradas. Da metade pra baixo não havia nada, apenas as pontas dos braços do pinheirinho feito um pedinte na rua implorando por uma moedinha, neste caso, por um enfeitinho que lhe desse mais cor, mais vida, mais clima de Natal. Apesar disso, eu não desprezei o pinheirinho, pois havia, uma, uma não, "A Estrela" com grãos reluzentes no topo; meio torta, mas estava lá, é o que importa. Não conta a tal história que foi a estrela que guiou os Reis Magos? Então?! O pinheirinho de Natal me satisfez, mas não a menina exigente que olhava-o com a expressão de quem sente falta de alguma coisa muito importante.

Quando a mãe me confessou que há muito tempo ela pedia uma árvore de Natal, aí eu entendi que ela não estava sendo exigente não; apenas queria que tudo fosse fiel ao seu sonho de Natal.

E agora eu devo cumprir a promessa de levar mais enfeites para o pinheirinho de Natal da Larinha.

30.11.11

Tarefas de casa para adultos

Só eu mesma, pendurando roupas no varal quase meia-noite, meio da semana. O pobrezinho do varal segurando as pontas com tanto peso e eu tentando fazer o milagre da multiplicação de pregadores.

Só eu mesma. Ou não?

Dias corridos pra todo mundo. Dias difíceis, não sei, mas dias cronometrados por um tempo concorrido, sim.

Essas tarefas de casa para adultos...Não sei não; tão simples, mas tão necessárias.

28.11.11

Intriga


Fico intrigada. Eu não sei o que acontece.

Toda vez que volto pra casa, -raramente -, vou decidida na direção do meu 1/4 de Quarto. De início, só pra tirar das costas e dos ombros até rechonchudos para uma magra ("falsa magra"?), o peso das bolsas. É aí então que começo a me intrigar.

Sento na cama e fico encarando um imenso guarda-roupas equivalente a 3/4 do meu Quarto. Observo-o da cabeça aos pés. Ele surge do teto e é grudado na parede. Lá no compartimento do alto, uma boneca gigante de olhos azuis até demais e vidrados. Outra boneca, que parece ser a miniatura da primeira, também é branquela de olhos vidrados e também azuis por demais. O mais intrigante é que nenhuma delas é ou foi minha. Da minha mãe. Ganhou-as de presente, mesmo já bem crescidinha e com dois filhos, na época, adolescentes. Meu pai que a presenteou.

Eu lembro que eu já tentava entender de onde vinha aquela fascinação da minha mãe por bonecas de plástico, donas de olhos fixos aterrorizantes. Eu sempre tive pavor desses olhares longínquos; parecem visualizar um futuro drástico e, por consequência, têm uma visão perplexa a qual, nós, meros humanos, nos tornamos incapazes de compreender ou de desvendar o mistério que se esconde ali, do fundo dos olhos ao fundo da alma. Mas boneca não tem Alma, tem? Não, acho que não. Ou será que ganhavam almas espontaneamente no processo de fabricação e numa das etapas finais, existia alguma máquina que sugava da boca de formato "pede bico" uma alma que quem sabe habitaria ali, dentro do corpinho plastificado, simulação imperfeita do corpinho de um bebê.

Fico intrigada quanto a isso até hoje. A invenção do Chucky nos cinemas teria sido uma conspiração da Associação das Bonecas Pavorosas para me apavorar ainda mais? Pior! O barulho de roedores de madeira tinindo de dentro do meu guarda-roupas, toda vez que preciso pegar uma roupa, seria só o início para o estopim do plano maquiavélico das Bonecas de olhos penetrantes na carne humana? Ahhhhh, um Terror!

E permaneço intrigada me questionando ainda por que minha mãe insiste em me doar suas Bonecas bizarras, numa também bizarra exposição sobre meu guarda-roupas mutilado por cupins.

25.11.11

Você vai longe

Amigos têm isso de botar você pra cima: " Você vai longe!"

E é claro que se eu tiver de ir bem longe, imponho apenas uma condição: que eles, meus poucos e grandes amigos, também venham junto. Aí sim, podemos ir até os planetas. Vamos visitar um a um, até a gente cansar da rotina e resolver criar o nosso próprio universo.

Posso ir longe sim, mas só se for com vocês!

O que tem de ser, será. Será?

Será mesmo que temos um destino traçado? E quem teria definido onde você foi parar? Seria quem chamam de "Deus"? Acho que não. Não sei, nunca acreditei nisso. Pra mim, o que você quer que seja, talvez seja, depende de suas próprias ações. Depende de você. Não há saída, só depende mesmo de você.

"O que tem de ser, será!"

Acho que as pessoas dizem e repetem isso como uma busca desesperada para se livrarem de uma grande parcela de culpa do que aconteceu ou do que deixou de acontecer ou mesmo do que estar para acontecer.

22.11.11

Da janela do Vinícius



Desespero Da Piedade

Vinícius de Moraes

Meu senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias Mas tende mais piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende píedade das mulheres Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta - que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçada
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados - sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!

20.11.11

mini Planetas Musicais

Meu mais novo vício é colecionar discografias completas de artistas pouco conhecidos por mim e, claro, aqueles clássicos que ninguém deve partir dessa para melhor sem antes ouví-los.

Neste sábado pacato peguei meu arquivo de CDs, uma bolsinha sigilosamente escondida no fundo do armário, sufocada por dois travesseiros. (Bem, agora o esconderijo não é mais secreto. Tudo bem, invento outro.) Escondo porque morro de ciúmes! Imagino alguém tocando-a displicentemente e todos meus planetas musicais, redondinhos achatados, prateados e cristalinos como um espelho, caindo no chão e, no fim, feios arranhões irreparáveis. Não, não posso permitir que qualquer um tenha acesso a eles, principalmente meu irmão, que já demonstrou uma vez não ser capaz de devolvê-los exatamente como os encontrou (em perfeito estado).

É isso. Meus Cds, ou melhor, meus mini-planetas musicais são todinhos meus. Seria egoísmo? Não, não; se isso fosse eu faria questão de entupir minhas orelhas com os fones para somente eu flutuar nas ondas de notas harmonicamente combinadas. Ao contrário, ponho entre o volume 20-28 (máximo suportado pelo aparelho lá de casa) para ecoar de todas as divisas da minha casa até as dos vizinhos.

Ah, nem que seja por pura coerção eles (os meus vizinhos) ouvem música de verdade. Não sou cruel, é pelo bem deles. Ora, não são eles que me obrigam a ouvir o barulhento embate entre dois ou mais paredões de forró NADA-PÉ DE SERRA todos os anos, nas festas de fim de ano?! Então! Também tenho direito de fazê-los assimilar o que é de meu apreço.
Fico tão orgulhosa da minha bolsinha protetora desses meus planetas musicais.

Listo, abaixo, o que já tenho na minha adorada coleção. Certeza ser só o começo do infinito que ainda falta tocar no som da minha sala.

- Raul
- Vinícius de Moraes
- João Gilberto
- Tom Jobim
- Elis
- Caetano
- Belchior
- Beatles
- The Mamas & The Papas
- Elvis
- Queen
- Maria Betânia
- Strokes
- Luiz Gonzaga
- Cazuza
- Marcelo Jeneci
- Tiê
- Marisa Monte
- Adriana Calcanhoto
- Los Hermanos
- Rita Lee
- Maria Rita
- Coldplay
- Franz Ferdinand
- Gal Costa
- Djavan
- Zeca Baleiro

Enfim, muitos e diversos. Meu orgulho concentrado numa pilha imensa de CDs.

Este fim de semana, esse orgulho foi tão grande, que quase chegou a transbordar dos olhos, ao ver minha mãe desapegar de sua mania de limpeza e de dizer " - Desliga esse som, menina!" e, ao invés disso, vir me pedir com emoção escancarada: " - Coloca o Gonzagão de novo, filha! Ihuu!" E quando me dei conta, ela já estava tirando meu pai pra dançar. E pra animar ainda mais a festinha, vem o meu irmão, fazendo suas tradicionais palhaçadas, com um chapelão de mexicano. Imagine só, um mexicano nordestino, dançando Luiz Gonzaga.

Nunca estive tão feliz em minha vida. Não haviam brigas, nem preocupações, apenas pé-de-serra nos pés de uma família, a minha família, mais feliz que aquelas de propaganda de Margarina.

19.11.11

Homem-menino passarinho


Essa bolinha de penas coloridas é o Tangará dançarino ou, cientificamente nomeado Chiroxiphia caudata. Os machos são azul-celeste com uma coroa vermelha na cabeça, enquanto as fêmeas são verde-escuras.

Se, assim como eu, você, leitor(a), tem admiração e inexplicável encanto por pássaros, você precisa ler e assistir à matéria do programa Globo Repórter, intitulada "Ornitólogo consegue identificar espécies de pássaros ouvindo o som." Convidaram um ornitólogo e olha só que linda história ele conta:

" - As memórias que eu tenho da minha infância, no sul de Minas Gerais, na casa dos meus avós, eu era sempre envolvido correndo atrás de pássaros. Eu caçava passarinho com estilingue e botava em gaiola. Quando eu tinha por volta de 13 anos, eu estava na sexta série e teve uma feira de profissões no meu colégio. Eu pensei: ‘Se é possível viver de ver passarinho, eu quero viver de ver passarinho’”, lembra Luciano. “Itatiaia foi onde eu comecei minha fissura, minha paixão pelas aves. No começo, eu levava meu irmão, com binóculo pendurado no pescoço, e saía procurando os passarinhos. Não demorou para que as pessoas começassem a me chamar de menino passarinho.”

E o homem-menino passarinho, enquanto dava entrevista e pesquisava, capturando as diversas espécies da Mata Atlântica por meio de uma rede, eu agonizava de inveja branca dele. A rede que ele usa não machuca os pássaros, pelo contrário, é para o bem deles. O pesquisador pega os bichinhos cantores, envolvendo-os nas mãos. Depois de anotar o peso e medidas, devolve-os para a natureza. Cheguei até mais perto da TV pra observar bem como ele fazia pra soltá-los. O ornitólogo deita o passarinho com papinho pra cima nas costas da mão e em seguida sopra. Tão rápidos os movimentos do bichinho penudo, que quando percebemos, já está voando longe.

Ah, meu Deus, como tenho vontade de formar uma grande concha com as minhas duas mãos pra envolver um pássaro lindo desses num abraço moderado, que não o machuque, e enchê-lo de beijinhos até o momento de libertá-lo.

Assim como o Menino Passarinho da matéria, ainda serei uma Menina Passarinha. Ô, se não!

A plantinha da minha sala de trabalho

Quase uma hora; da manhã. Contando carneirinhos não, mas pensando seriamente na plantinha que esqueci lá na sala do trabalho. Não mais ficará lá. É como prender um passarinho na gaiola, só que entre paredes e com o ar de um ar-condicionado. E viagens de leva e traz é um tanto cansativo para a bichinha. Ela ficará definitivamente no Jardim da minha mãe.

Es-que-ci a plantinha no trabalho. Oh, Céus, se ninguém da Limpeza notar a presença dela, morrerá de sede este fim de semana. Acho que vou buscá-la. Ou melhor, ligar para o colega de trabalho e pedir pra ele dar água e sol a ela.

Memória,querida,bendita,sua ausência ainda custará uma vida.

18.11.11

Sem graça

Procurei o negro bichano, hoje, no mesmo lugar que o vi da primeira e única vez e, poxa, ele não estava lá.

Olhei para aquele mato já calvo e invadido pelo que foi simplesmente descartado - o que chamam de "lixo", e a intuição me disse que alguém o descoloriu. Será que o gatinho foi levar cor para outro canto?

...

Sem ele, vazio aquele espaço. Vazio o coração.

Sem graça hoje.
Por favor, gatinho preto, dê o ar de sua graça!

17.11.11

Negro bichano



Dia desses, acompanhei só com o olhar um momento alheio de descontração. Era de um bichano preto. Supertições à parte, era apenas um gatinho preto, sem magia negra, sem simbolizar sorte, sem sete vidas, enfim, era só um gatinho num terreno baldio com tapete de mato assanhado e careca em algumas partes.

Ele estava ali, logo na descida da ponte, de manhã cedinho, trânsito caótico, clima de segunda-feira, de compromissos à espera. Só ele não tinha compromisso algum. Estava brincando de caçar borboletas invisíveis aos nossos olhos. Tinha um olhar astuto de gato. Ainda bem que não era de noite, se não, me assustaria com o brilho intenso de seus olhos enigmáticos.

Lembro de quando era criança. Havia uma grande janela sempre aberta na área de inverno, pela qual os bichanos desconhecidos invadiam minha casa toda noite. Quer dizer, não sei se era toda noite; só flagrei uma vez um perto da porta do meu quarto. Libertei um grito de pavor. Afinal, era um invasor na calada da noite. Mais pareciam duas bilas fluorescente a flutuarem na escuridão. Encaravam-me fixamente; não eram como vagalumes piscando. As bolinhas não titubeavam, mantinham-se acesas, brilhando pra mim.

Felizmente, já superei esse trauma de infância; ou pelo menos acho que sim, já que desde esse dia nunca mais fui surpreendida ao ter de corresponder, mesmo que sem querer, ao olhar de um negro gato nas trevas de uma ausência de luz.

O fato é que aquele lindo gatinho, concentrando-se na caça invisível, depois dando pulinhos e atirando suas patinhas contra o vento, deram um novo significado para minha rotina e para a de quem mais olhou, enxergando, aquela cena como um presente enviado dos céus. E embora aquele animalzinho peludo tivesse uma cor tão escura, conseguiu colorir bem nossos arco-íris preto e branco.

11.11.11

O labrador aqui de casa

Tão esperto o labrador aqui de casa. Esperto à espera do afago que memorizou onde receber um dia desses:

" Se eu encostar aqui, bem perto do sofá onde ela está deitada, certeza que vai pentear meu pêlo com a mão e vai coçar atrás da minha orelha"

Acho que ele pensa assim, mas sabe que me assusta os seus movimentos bruscos e desengonçados. Afinal, ele é maior do que eu. Parece até que me conhece profundamente. Sabe que não gosto do molhado da baba dele. Então, ele fica aqui, bem quietinho, aceitando minha forma de querê-lo bem.

Outro dia, ficou com as patonas pra cima, deitado e curtindo a coceirinha que eu fazia na barriga de pele loura-branca rosada e tão macia!

Meu presente : )


Este, sim, um dos melhores presentes que já ganhei.

Foi assim: a pequena inquieta, 6 aninhos, danada, quando eu menos esperava, quando eu só esperava que fosse aprontar mais uma peripécia, me veio com essa folha do meu bloquinho de anotações.

- Olha, a setinha tá apontando pra onde?

Inclinei minha cabeça para a esquerda com a mesma delicadeza do gesto dela, e com olhar surpreendido, concluí:

- Ah, pra mim! Não é?

- É sim! Pra você!

- Que lindo, um coração com duas asas!

- Não, não, são duas mãos!

- Ah, mas parecem asas.

Pra mim, pareciam asas sim. Meu coração voou longe de tanta alegria pela demonstração de carinho que só uma criança sabe dar. Engraçado, era praticamente a primeira vez que ela me via. Quando me viu da última vez, a filha de minha madrinha ainda era bem pequenininha. Ah, ela não lembraria. E mesmo assim, meu Deus, ela gostou de mim. Não sou convencida não, ela mesma me disse. Não só disse, como também encontrou a forma mais simples de provar o seu gostar de mim.

A danada ainda alfinetou meu irmão com sua espontaneidade de criança:

- Eu ia fazer um pra ele também. Mas esqueci, porque gosto mais de você!

E o tadinho do meu irmão, levando na esportiva e falando baixinho pra ela não ouvir:

" - Crianças...ainda não sabem que sinceridade demais dói."

2.11.11

No money, No eu nem você.

Dinheiro. Ah, se eu tivesse. E só do que estou precisando (de necessidade) e desejando ( coisas que posso viver sem, mas não sou feliz sem) a lista é infindável. Vejamos, sem ordem de importância:

- Mochila
- Violão
- Bolsa preta
- Mala nova
- ao menos mais um par de sandálias
- óculos novos com grau revisado
- um aumento
- grana para aulas em autoescola
- carro
- celular novo
- roupas novas
- grana para pós-graduação
- promoção
- pagar as contas do mês, pagar menos impostos
- ler a pilha de livros novos
- comprar mais livros novos
- aulas de canto e violão
- viajar a lazer
- silêncio, barulho
- aconchego, muvuca
- mais convivência com a família
- mais convivência com o namorado
- mais convivência com os amigos
- formar uma banda autoral
- ouvir mais música, ouvir mais o outro
- conversar mais, falar menos, falar mais sozinha
- planejar menos, fazer mais
- chorar menos, cantar mais
- reclamar menos, solucionar mais
- uma casa nova e menos longe de tudo
- mais manhãs na praia
- mais bike, menos ônibus/topic/caronas
- mais encontros
- mais descontos

Et cetera e tal.

Quer dizer, no money, no eu nem você. E sem essa de que dinheiro não compra felicidade. - Bendito Dinheiro, quem inventou que nós precisamos de você? Aliás, quem inventou você?

25.10.11

Em movimento


Quando pus os tênis, os fones e saí por aquele portão, não imaginava que cairia em algo parecido com a toca do coelho de Alice. A princípio, eu só pensava em me aprofundar mais na onda "Geração saúde", indo além da academia a semana inteira e partindo de corpo e alma em movimento para um domingo de Sol.

Aliás, sugiro que domingo não seja só um dia pacato e melancólico em que ficamos de pernas pro ar. É injusto delegar uma função tão triste aos domingos amigos, de doces maravilhas ao lado de quem te faz uma pessoa melhor - família, amigos, amores, seja quem for, pessoas que naturalmente têm o dom de recarregar seu espírito com uma carga forte e extraordinariamene durável. Domingo deveria ser um misto de disposição e preguiça. A partir das 8h da manhã, uma boa caminhada ou corrida numa trilha ecológica pra deixar o sangue avisar a você que você é mesmo um ser vivo, com aquele sangue queimando sua face, suas pernas e tudo o mais. E depois, bem, depois poderíamos tomar uma água de côco bem gelada, almoçar e se deixar levar pelo balanço de uma belíssima rede rendada.

Mas o meu domingo não foi bem assim.

Eu saí naquele dia quente planejando caminhar apenas no limite circular da praça. Eu faria exatamente igual ao que via os outros praticarem em outras praças mais concorridas que aquela. Aquela é deserta. Aposto que ela ainda está lá a esta hora, tão solitária como sempre esteve. Se eu tenho medo de caminhar ali? Não, eu não tenho receio algum; talvez porque nunca tenham encostado uma arma em minha cabeça como fizeram ao meu pai, ou talvez porque a liberdade me encanta tanto, que perco por algumas horas meu lado racional.

Se o meu plano, desde o início, era fazer daquela praça uma grande esteira de cimento em que eu partiria de um ponto e chegaria sempre a esse mesmo ponto, vendo sempre a mesma paisagem redonda, por que eu nem sequer caminhei até ela? Eu avistei outro caminho que logo julguei ser mais envolvente que aquele. Deixei que minhas pernas fossem levadas pela minha decisão emocional. E eu sei muito bem porque desviei da trajetória circular. Eu sabia que aquela outra, disforme, se transformaria na forma que eu quisesse por meio das minhas próprias pegadas.

Passei um bom tempo caminhando sob as árvores, porque estas sim, exercem um imenso poder de atração sobre mim, é como se eu me sentisse protegida por elas. Decidi depois que seria bom experimentar como seria a tão famosa caminhada na praça. Porém, não gostei não. Senti-me avessa àquele costume. Logo, fugi da delimitação com forma de círculo. Se houver mesmo um espírito bondoso observando a gente lá de cima, com certeza deve ter visto um pontinho branco se afastando do anel cinzento da praça.

Distanciei-me da praça no exato momento em que vi o lago e um bando de pássaros negros voando sobre ele. Parti para a beira do lago. Lá a terra chega a ser tão úmida que mais parece areia movediça. Mesmo assim, ainda consegui achar um canto confortável pra sentar e observar o início da imensidão que se apresentava aos meus olhos. Pressenti que os pássaros se exibiam pra mim. Voavam tão livres eles e cantavam bem mais alto quando os vi. Mas já era hora de partir. Eu sabia que não terminava ali, que havia mais algos pra se contemplar. Algos bem maiores que eu. Acredite, eu me sentia bem menor do que já sou. Parecia mesmo que meu tamanho havia diminuído bastante, como o da Alice do País das Maravilhas, só que sem o efeito reverso, já que não tenho a menor estrutura para gigantismos.

Levantei e tentei manter o equilíbrio na terra fofa. Por um segundo, veio o medo, mas logo achei solução. Fugi da beira do lago dando pulinhos, feito pisando em ovos num campo minado. Disse um breve tchau ao lago e já nutria um outro plano. Daqueles planos que a gente deixa muito tempo martelando na mente pra encontrar o momento certo de colocá-lo em prática. Meu plano era chegar perto da Montanha de mato verde musgo. Parece que ela sempre esteve ali, ao contrário da praça. E eu queria chegar o mais perto possível, talvez na vontade de adentrar de verdade na paisagem, como entrar numa fotografia.

Mas algo me intrigou. Quanto mais eu me aproximava, mais a montanha se distanciava de mim ou eu dela. Parecia até que me desafiava. Queria que eu me sacrificasse. Queria que eu deixasse meu presente pra trás, meus amigos, minha família, minhas paixões. Isso eu não poderia jamais. Então, tratei logo de encontrar outro canto quase confortável pra sentar.

Eu poderia ficar ali o tempo que eu desejasse. Eu saberia o caminho da volta, tendo como referência a praça. Eu sabia que eu logo voltaria. Estava começando a ficar meio encabulada no meio de toda aquela natureza. Sim, querendo ou não, eu era uma intrusa no ambiente e me sentia cada vez mais envergonhada cada vez que avistava uma garrafa de plástico seca ou embalagem esvoaçante no meio do caminho das pedras, dos matos, do rio. Eu sei que não foi eu, mas a Mãe Natureza pode ter pensado: "Ela também é um deles, um desses humanos destrutivos." Eu era, então, uma ameaça. Ué, será que Ela não notou que mantive minha garrafa d'água na mão, mesmo completamente seca em grande parte do percurso, e que não haveria cristão no mundo que me convencesse a largar o plástico naquele verde tão lindo?

A vegetação crescida estava tão arredia comigo. A planta quase atingiu em cheio meu tornozelo com seus espinhos. A sorte para os meus pés foram os tênis super protetores. Felizmente, o saldo final dos incidentes foram só alguns carrapichos grudados e obstinados a continuarem agarrados aos cadarços dos meus tênis. Apenas isso, nenhum arranhão, - é que a Natureza não é vingativa como o homem, ela apenas reage pra sobreviver, não é vingança não.

Eu decidi retornar. Já não cabia em mim de tamanha vergonha por conta da invasão do lixo ali. E quando voltei, logo notei que já fazia falta. Era minha mãe na praça, perguntando : " - Por onde você andava, menina? Achei que tinha se perdido!" Mas não, não me perdi não. Na verdade, me encontrei na aventura daquela caminhada, no roçar do mato alto, no dosar de cada pegada minha marcada naquele espaço.

18.10.11

Na gaveta mais bonita do coração.



Eu posso não ter uma memória muito confiável, mas a imagem ao vivo e a cores, à vida e aos amores, que registrei hoje, já guardei a sete chaves na gaveta mais bonita que tem o meu coração.

Eu não sei nomes, nem idade, nem o desenho do rosto da pequena, mas havia hoje, no ônibus, sentados lado a lado nas cadeiras preferenciais, um senhor tão lindo, com cara de vovô, a brincar com a bebê encaixada no colo de sua mamãe.

Ele fazia cócegas na mão pequena e depois no joelhinho dela. Tive a sensação de que não se conheciam, mas havia naquilo uma afetividade de outros tempos. Mais parecia que ele se encontrava, sem espelho no meio, com ele mesmo quando bem pequenino. E aquele reencontro não lhe causava nenhum arrependimento. Não sentia nem mesmo vontade de voltar no tempo. Como se todas as lágrimas, as dádivas, os encontros, as rupturas, tivessem valido, sim, uma vida inteira; com ruga e sem fuga de quem foi e de quem pode ainda vir a ser.