sábado, 25 de abril de 2015

Sou paga pra isto.

Meu trabalho é corrigir textos de material didático do ensino médio. Sou paga pra passar o dia todo lendo.Para alguns, sacrifício, para mim, exercício prazeroso de reconstrução de saberes. Claro, tem o lado tedioso da coisa. Ler por horas e horas é cansativo, tornando-se uma dura batalha contra desconcentração, barulhos inevitáveis no ambiente de trabalho, cansaço mental, problemas pessoais, entre outras coisas.

Naturalmente, surgem dúvidas que eu só posso tirar com quem escreveu. Meu trabalho é dizer para os professores-pesquisadores-autores(mestres, doutores, pós-doutorandos) que determinada frase não ficou clara, por exemplo. É comum  eles seguirem o instinto de ensinar e fazerem desse momento uma verdadeira aula para uma leiga no assunto. Explanam, explicam, rabiscam no papel e, no final, intrigados, dizem: "- Pronto! Como colocamos isso no papel?"

Numa dessas situações, entreguei uma folha em branco para o professor que, vale lembrar, não é escritor e não tem vocação para a escrita. Acredite, isso é comum entre os professores, o que não é absurdo ao meu ver. Assim como ler, escrever não é uma habilidade que nasce com a gente, precisamos desenvolvê-la um pouco a cada dia.

Com a folha em branco em mãos, o professor gostou do método, tinha conseguido organizar a fala traduzindo-a para a escrita. Mas até chegar a esse ponto, a ansiedade de se fazer entender sem o recurso oral paira no silêncio inquietante da sala. É você frente a frente com a língua portuguesa, tendo que encará-la como um problema matemático incomum, nada exato.

É preciso raciocínio, paciência, suor mental, é virar costureiro frasal.

Um comentário:

Margareth Itou disse...

Falou difícil, mas falou bonito, principalmente no final do texto.
Concordo com você quando diz que:"assim como ler, escrever não é uma habilidade que nasce com a gente, precisamos desenvolvê-la um pouco a cada dia".
Eu sou uma grande admiradora de quem fala e escreve bem o nosso idioma. Porém, não estudei em boas escolas. E tive pouco tempo dentro de sala de aula. Por isso, de uns tempos para cá procuro ler, sempre que posso e escrevo no meu blog, para treinar a escrita. Não é tarefa fácil. Nem um dos dois. Mas, confesso... É muito prazeroso e compensatório!