Quando achar que tudo está pra acabar
de esperança não restar
Olhe bem, pela fresta da janela o Sol nascer
Logo virá a vontade de ser
Se o ponteiro se arrastar
E o que é de mau disser
que vai demorar
Pense bem, aquilo foi o que é
Há coisas que não se pode mudar
Pare bem pra pensar,
hoje você tem a chance de consertar
é só juntar os pedacinhos que espatifou
e logo terá um lindo jarro
quase perfeito com uma flor
Você se espanta,
sente o peito arfar
Acha que está perto de morrer
só porque está com essa mania louca de viver
tudo de bom que o mundo tem a lhe oferecer
Quando achar que tem de aproveitar logo
porque desconfia que logo, logo vai morrer
estarei por perto pra dizer:
" - Que nada, isso é
só vontade de viver."
Porque janelas e portas abertas não são suficientes pra ver o mundo e as pessoas lá fora, tive que demolir uma das quatro paredes.
domingo, 31 de julho de 2011
sexta-feira, 29 de julho de 2011
O violão aqui do lado
Já deixei o violão aqui do meu lado, já pra criar afinidade.
Vai chegar o dia que vou saber tocá-lo!
Muitos já tentaram, mas desistiram fácil; eu também, mas nunca é tarde pra tentar novamente.
Desta vez eu insisto! Mesmo que me machuque os dedos no começo, vou saber seu tom de cor, de coração
Vai chegar o dia que vou saber tocá-lo!
Muitos já tentaram, mas desistiram fácil; eu também, mas nunca é tarde pra tentar novamente.
Desta vez eu insisto! Mesmo que me machuque os dedos no começo, vou saber seu tom de cor, de coração
Homem - Estátua
A polícia quis varrer o homem-estátua dali.
Continuou estático, só mexeu pra tentar secar a lágrima que acabava de cair,
quando ouviu sua plateia ao redor gritar:
"- Deixa o cara trabalhar"
Inspirada na reportagem:
http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2011/07/brasileiros-ganham-vida-nas-ruas-com-embaixadinha-castelos-de-areia-e-estatuas-vivas.html
Continuou estático, só mexeu pra tentar secar a lágrima que acabava de cair,
quando ouviu sua plateia ao redor gritar:
"- Deixa o cara trabalhar"
Inspirada na reportagem:
http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2011/07/brasileiros-ganham-vida-nas-ruas-com-embaixadinha-castelos-de-areia-e-estatuas-vivas.html
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Assim é o meu Tiê
@lacta #eumeentrego à canção como a uma oração
Me ajoelho sobre rosas
Rezo baixinho,
mesmo assim o Tiê passarinho ouve e decora
e não demora pra tristeza ir embora
É o Tiê passarinho, acalentando o meu, o seu coração
@lacta #eumeentrego ao encanto do Tiê sangue
Eu o vi no farfalhar das folhas
Ouvi a planta aplaudir o seu cantar
Vi a gota de orvalho chorar
@lacta #eumeentrego ao vermelho do Tiê. Sangue ele doa pra mim
É vida, uma doçura, uma dança
De tanto encanto, me faz rir
Assim é o meu Tiê
Até tweet deu de fazer
pra chegar até você
Participação na promoção: http://www.lacta.com.br/
Me ajoelho sobre rosas
Rezo baixinho,
mesmo assim o Tiê passarinho ouve e decora
e não demora pra tristeza ir embora
É o Tiê passarinho, acalentando o meu, o seu coração
@lacta #eumeentrego ao encanto do Tiê sangue
Eu o vi no farfalhar das folhas
Ouvi a planta aplaudir o seu cantar
Vi a gota de orvalho chorar
@lacta #eumeentrego ao vermelho do Tiê. Sangue ele doa pra mim
É vida, uma doçura, uma dança
De tanto encanto, me faz rir
Assim é o meu Tiê
Até tweet deu de fazer
pra chegar até você
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quarta-feira, 27 de julho de 2011
Crescidinha
Está uma mocinha
Não devora mais os dedos
Vai à manicure, enfeita as unhas
Podemos ver, está segura
no seu porte, nos seus modos
nem precisa de testemunhas
Fez amigos
Está crescidinha
Abriu mão dos mimos
Não escreve mais cartinha
Fala com delicadeza
Escreve letras
Erra rimas
Tem uma certa estranheza
Já foi mais doce
agora agridoce
Está mesmo crescidinha
Deixou a casa dos pais
Foi decidida
não é mais aquela menininha
Está uma mocinha, uma mulher
Faz planos, projetos
coisas que quer
Não devora mais os dedos
Vai à manicure, enfeita as unhas
Podemos ver, está segura
no seu porte, nos seus modos
nem precisa de testemunhas
Fez amigos
Está crescidinha
Abriu mão dos mimos
Não escreve mais cartinha
Fala com delicadeza
Escreve letras
Erra rimas
Tem uma certa estranheza
Já foi mais doce
agora agridoce
Está mesmo crescidinha
Deixou a casa dos pais
Foi decidida
não é mais aquela menininha
Está uma mocinha, uma mulher
Faz planos, projetos
coisas que quer
Risco alheio : a memorável A Banda ( Chico)
" Imaginem vocês que, um dia desses, entro em casa e encontro minha mulher, Lúcia, e a minha filhinha, Daniela, com olhos marejados. Acabavam de ouvir A Banda, ou seja, a mais doce música da Terra. Dias depois, eu próprio ouvi a marchinha genial. E a minha vontade foi sair de casa, me sentar no meio-fio e começar a chorar." (Coleção Chico Buarque - vol. 1, p. 29) - Escritor, dramaturgo e cronista esportivo carioca Nelson Rodrigues comentando sobre a música de Chico.
Segue a letra abaixo. Sei que já temos na memória, mas é sempre bom analisar com encantamento cada trechinho poético que só o Chico sabe fazer.
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Segue a letra abaixo. Sei que já temos na memória, mas é sempre bom analisar com encantamento cada trechinho poético que só o Chico sabe fazer.
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
sábado, 23 de julho de 2011
Uma dó dos cantores de barzinho
O Couvert artístico sempre foi motivo de piadas. Os amigos reunidos no restaurante vez ou outra brincam: " Olha, ninguém demonstra que tá gostando, ok? Nada de fazer ritmo com o pezinho ou dançar com a cabeça!" Tudo pra no fim das contas, acabarem, sim, pagando o temido couvert.
Embora não seja obrigatório, dá uma dó da pessoa lá tocando. Sempre achei essas batidas nas cordas do violão tão melancólicas. São canções perdidas entre os barulhos de talheres e pratos, falas e risadas mistas e desconexas.
Um cantor de barzinho deve ser meio tristinho ou talvez conformado das pessoas se aterem mais ao que estão devorando do que a canção da noite que exigiu tanto ensaio.
Quando o show de plateia "fantasma" (a concentração na comida parece sugar as forças daquelas pessoas, fazendo com que não se manifestem para aplaudir) chega ao fim, o músico - quer dizer, na maioria das vezes, o aspirante à músico, um tanto calado e cabisbaixo, guarda cuidadosamente os instrumentos nas caixas. Ele demonstra a sensação de dever cumprido. Bebe um gole d'água. Mal sabe ele que uma pessoa o aplaudiu. Imerso no repertório preparado, não ouviu. Vai ver o som confuso das pessoas interagindo entre si e com os pratos também não contribuiu.
Parece que de alguma forma, esses cantores de barzinhos encontram prazer em tocar pra muita gente, e ao mesmo tempo pra ninguém. Parece que eles nunca estão sós; estão na companhia de milhares de notas, mesmo que estas, por vezes, estejam tortas de desafino. Mesmo o cachê mínimo não impede que eles continuem admirando a música, achando o máximo tentar reproduzí-la.
Acabou que talvez a única observadora daquela situação ficou sozinha na mesa de bar. Ficou seguindo o artista com o olhar. Vendo-o ir embora com um objeto de roda, levando embora as caixinhas de som. O violão já descansava naquela espécie de "caixãozinho" com cinturinha de violão.
Embora não seja obrigatório, dá uma dó da pessoa lá tocando. Sempre achei essas batidas nas cordas do violão tão melancólicas. São canções perdidas entre os barulhos de talheres e pratos, falas e risadas mistas e desconexas.
Um cantor de barzinho deve ser meio tristinho ou talvez conformado das pessoas se aterem mais ao que estão devorando do que a canção da noite que exigiu tanto ensaio.
Quando o show de plateia "fantasma" (a concentração na comida parece sugar as forças daquelas pessoas, fazendo com que não se manifestem para aplaudir) chega ao fim, o músico - quer dizer, na maioria das vezes, o aspirante à músico, um tanto calado e cabisbaixo, guarda cuidadosamente os instrumentos nas caixas. Ele demonstra a sensação de dever cumprido. Bebe um gole d'água. Mal sabe ele que uma pessoa o aplaudiu. Imerso no repertório preparado, não ouviu. Vai ver o som confuso das pessoas interagindo entre si e com os pratos também não contribuiu.
Parece que de alguma forma, esses cantores de barzinhos encontram prazer em tocar pra muita gente, e ao mesmo tempo pra ninguém. Parece que eles nunca estão sós; estão na companhia de milhares de notas, mesmo que estas, por vezes, estejam tortas de desafino. Mesmo o cachê mínimo não impede que eles continuem admirando a música, achando o máximo tentar reproduzí-la.
Acabou que talvez a única observadora daquela situação ficou sozinha na mesa de bar. Ficou seguindo o artista com o olhar. Vendo-o ir embora com um objeto de roda, levando embora as caixinhas de som. O violão já descansava naquela espécie de "caixãozinho" com cinturinha de violão.
Uma tal de Veruski
Achou que a amiga poderia lhe descrever em palavras, almejando conhecer melhor ela mesma. Ingênua, não sabia o tamanho desafio que acabara de lançar para a outra que adorava treinar a escrita. Pediu nada mais, nada menos, que essa outra fizesse um poema sobre ela.
A mão nervosa cutucava insistente as costas estreitas da colega sentada na cadeira à frente. A pobrezinha da "escritora", sentindo-se pressionada, resolveu então se arriscar um pouco, tentando resumir em versos sua percepção sobre a amiga.
Aquele difícil pedido a fez lembrar da gente talentosa que ganha uns trocados desenhando os traços de alguém desconhecido num quadro. Pega-se o objeto que rabisca, pede pra pessoa ficar imóvel, baixa a cabeça e desenha as formas, levanta a cabeça, lança-se um olhar observador atento aos menores detalhes e se recomeça a tracejar o perfil daquele ser diante de você.
O que estava acontecendo era quase isso, só que tinha que descrever uma mente inquieta. Parecia que sua mão, detentora de uma caneta azul, tremia "de nervoso". Borrou muito a folha; pensou, parou um pouco e pensou mais.
Terminou, concluindo que não é possível traduzir ninguém em texto, nem se escrevesse um livro gordo como uma bíblia. Não conseguiria retratar nem um por cento daquela personalidade nomeada de "Veruski". Ficou apenas na dúvida se havia escrito o nome da própria amiga corretamente. Por fim, pensou " ow raça humana complicada de explicar e ainda mais de entender".
A mão nervosa cutucava insistente as costas estreitas da colega sentada na cadeira à frente. A pobrezinha da "escritora", sentindo-se pressionada, resolveu então se arriscar um pouco, tentando resumir em versos sua percepção sobre a amiga.
Aquele difícil pedido a fez lembrar da gente talentosa que ganha uns trocados desenhando os traços de alguém desconhecido num quadro. Pega-se o objeto que rabisca, pede pra pessoa ficar imóvel, baixa a cabeça e desenha as formas, levanta a cabeça, lança-se um olhar observador atento aos menores detalhes e se recomeça a tracejar o perfil daquele ser diante de você.
O que estava acontecendo era quase isso, só que tinha que descrever uma mente inquieta. Parecia que sua mão, detentora de uma caneta azul, tremia "de nervoso". Borrou muito a folha; pensou, parou um pouco e pensou mais.
Terminou, concluindo que não é possível traduzir ninguém em texto, nem se escrevesse um livro gordo como uma bíblia. Não conseguiria retratar nem um por cento daquela personalidade nomeada de "Veruski". Ficou apenas na dúvida se havia escrito o nome da própria amiga corretamente. Por fim, pensou " ow raça humana complicada de explicar e ainda mais de entender".
A fuga do pensamento
Pensou em escrever algo interessante, mas o pensamento foi embora rapidamente. Estava indignada; como poderia tamanha falta de imaginação? Doeu na vista o branco luminoso da folha de papel - se ao menos fosse a folha digital do blog com letras e símbolos já contidos obrigatoriamente ali, aquele vazio a perturbava.
Tentou, se esforçou e nada colheu de sua memória. Sim, esta havia novamente deixado ela na mão. Será que já estava velha com apenas vinte e poucos anos? Deu esta reflexão por encerrada e notou, com um sorrisinho de satisfação, que havia vencido a sabotagem que seu próprio cérebro arquitetou contra ela.
Tinha, sim, refletido e escrito outro pensamento, embora o outro tivera sido dissipado. Naquele momento, o espaço na folha branca até já estava escasso; todo estampado com letras arredias e feias, aquelas de quem não escreve à mão há um tempão. Matou essa saudade e encontrou nisso uma felicidade.
Tentou, se esforçou e nada colheu de sua memória. Sim, esta havia novamente deixado ela na mão. Será que já estava velha com apenas vinte e poucos anos? Deu esta reflexão por encerrada e notou, com um sorrisinho de satisfação, que havia vencido a sabotagem que seu próprio cérebro arquitetou contra ela.
Tinha, sim, refletido e escrito outro pensamento, embora o outro tivera sido dissipado. Naquele momento, o espaço na folha branca até já estava escasso; todo estampado com letras arredias e feias, aquelas de quem não escreve à mão há um tempão. Matou essa saudade e encontrou nisso uma felicidade.
O idoso-garoto
Sonhou com muito pouco; até achou que tava morto.
Mas quando viu o entardecer pegar fogo, seu olhar ganhou força
Podia ver com perspicácia o Sol se esconder aos poucos.
Sonhou muito pequeno, tão minúsculo quanto o Sol se pondo
Mas quando encontrou um bom canto na areia, entre o mar e a cidade,
enxergou melhor o que via.
Podia ver ele mesmo, um idoso-garoto,
começando a sonhar
maior que a imensidão do céu, do mar.
Foto: Beira-mar , Fortaleza - CE
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Risco alheio: A bailarina e O Astronauta (Tiê)
Eu sou uma bailarina e cheguei aqui sozinha
não pergunte como eu vim
porque já não sei de mim
do meu circo eu fui embora
eu sei que minha família chora
não podia desistir
se um dia como um sonho
ele apareceu pra mim
tão brilhante como um lindo avião
chamuscando fogo e cinza pelo chão.
De repente como um susto
num arbusto logo em frente aconteceu uma explosão
afastando a minha gente
mas eu não quis ir embora
eu não podia ir embora
como se nascesse ali
um amor absoluto pelo homem que eu vi
Poderia lhe entregar meu coração
alma, vida e até minha atenção?
Mas vieram as sirenes
e homens falando estranho
carregaram meu presente
como se ele fosse um santo
dirigiam um carro branco
e num segundo foram embora
desse dia até agora
não sei como, não pergunte, procuro por todo canto
Astronauta diz pra mim, cadê você
Bailarina não consegue mais viver...
http://www.vagalume.com.br/tie/a-bailarina-e-o-astronauta.html#ixzz1ShdPaA92
A Bailarina E O Astronauta por Tiê
não pergunte como eu vim
porque já não sei de mim
do meu circo eu fui embora
eu sei que minha família chora
não podia desistir
se um dia como um sonho
ele apareceu pra mim
tão brilhante como um lindo avião
chamuscando fogo e cinza pelo chão.
De repente como um susto
num arbusto logo em frente aconteceu uma explosão
afastando a minha gente
mas eu não quis ir embora
eu não podia ir embora
como se nascesse ali
um amor absoluto pelo homem que eu vi
Poderia lhe entregar meu coração
alma, vida e até minha atenção?
Mas vieram as sirenes
e homens falando estranho
carregaram meu presente
como se ele fosse um santo
dirigiam um carro branco
e num segundo foram embora
desse dia até agora
não sei como, não pergunte, procuro por todo canto
Astronauta diz pra mim, cadê você
Bailarina não consegue mais viver...
http://www.vagalume.com.br/tie/a-bailarina-e-o-astronauta.html#ixzz1ShdPaA92
A Bailarina E O Astronauta por Tiê
quarta-feira, 13 de julho de 2011
A moça do cadarço solto
Engraçado como um cadarço solto faz pessoas desconhecidas se preocuparem com você. Mas eu nunca caí! O cadarço parece querer me entreter. Vou andando, brincando com isso. O pé direito, depois o esquerdo desafiando derrubar o outro, mas sem ameaça alguma (juro pra você que eu realmente nunca tropecei). Novamente o pé direito, aí vem o esquerdo exibindo o branco sujo do cadarço pro outro. Esse outro mais correto e esteticamente mais agradável, além de não incomodar ninguém. Ele está ali, bonitinho, com aparência de laço, parecendo aqueles que cercam as embalagens de presentes.
"- Cuidado, moça!"
"- Ah, ok, obrigada!"
E não faço nada. Já tentei fazer o laço das outras vezes, só pra não ver a ruga de preocupação nos rostos desconhecidos. O que posso fazer se o laço quer sempre se desfazer? Deixo o cadarço fazer o que é de sua vontade. Deixo-o livre, buscando assim minha própria sensação de espontaneidade. O cadarço quer entrar em atrito com o asfalto ou com a areia; quer dançar com o vento.
"- Cuidado, moça!"
"- Ah, ok, obrigada!"
E não faço nada. Já tentei fazer o laço das outras vezes, só pra não ver a ruga de preocupação nos rostos desconhecidos. O que posso fazer se o laço quer sempre se desfazer? Deixo o cadarço fazer o que é de sua vontade. Deixo-o livre, buscando assim minha própria sensação de espontaneidade. O cadarço quer entrar em atrito com o asfalto ou com a areia; quer dançar com o vento.
domingo, 3 de julho de 2011
Espirituosa
O barulhinho do vento, avisando a chegada da chuva nesta noite de fim de domingo, só não é mais aflito que o dela, abafado por dentro de seu espírito magro, embora contornado de várias camadas firmes de auras.
Suas auras são princípios; são no que ela acredita; são, enfim, suas energias. Como uma pilha, tem seu polo positivo, mas também o negativo. Infelizmente, seu lado negativo é também a única porta de entrada de corrente. É estranho como ela parece se abastecer, se manter em pé a partir desta força que pende mais para o negativo ( o sentimento que nada vai dar certo)
Fica triste, quando percebe que a bateria preenchida é a da mente, não a do espírito. De repente se vê deixando de ser espirituosa – começa a notar as luzes de suas auras se apagando, deixando-a num breu - Sente apenas a corrente se encher de negativos, saindo com toda força pelo seu polo positivo, quando este deveria apenas liberar boas vibrações. No fim desse longo e complexo processo, sente que estragou o momento, perdendo o controle de si, perdendo o brilho que tinha há pouco.
Suas auras são princípios; são no que ela acredita; são, enfim, suas energias. Como uma pilha, tem seu polo positivo, mas também o negativo. Infelizmente, seu lado negativo é também a única porta de entrada de corrente. É estranho como ela parece se abastecer, se manter em pé a partir desta força que pende mais para o negativo ( o sentimento que nada vai dar certo)
Fica triste, quando percebe que a bateria preenchida é a da mente, não a do espírito. De repente se vê deixando de ser espirituosa – começa a notar as luzes de suas auras se apagando, deixando-a num breu - Sente apenas a corrente se encher de negativos, saindo com toda força pelo seu polo positivo, quando este deveria apenas liberar boas vibrações. No fim desse longo e complexo processo, sente que estragou o momento, perdendo o controle de si, perdendo o brilho que tinha há pouco.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
segunda-feira, 23 de maio de 2011
E me Distraí
Me distraio
E eu que nunca fui perfeita
a unha roída, o sangue na cutícula
a roupa velha, fora de moda,
me deixo por fora
me esqueço, de repente me entristeço
A tristeza destes versos
os pensamentos controversos
Vejo o bonde passar, sem poder o alcançar
De uma intensa concentração
me abstraio, me disfarço
perco o foco e não acabo
Não acabo de roer
de ruir em mim
Vez ou outra amanheço
A vez ou outra que o vejo, tem esse efeito
Então aí me distraio
Posso ver no espelho,
uma cara abobalhada
duas caras apaixonadas...
E eu que nunca fui perfeita
a unha roída, o sangue na cutícula
a roupa velha, fora de moda,
me deixo por fora
me esqueço, de repente me entristeço
A tristeza destes versos
os pensamentos controversos
Vejo o bonde passar, sem poder o alcançar
De uma intensa concentração
me abstraio, me disfarço
perco o foco e não acabo
Não acabo de roer
de ruir em mim
Vez ou outra amanheço
A vez ou outra que o vejo, tem esse efeito
Então aí me distraio
Posso ver no espelho,
uma cara abobalhada
duas caras apaixonadas...
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Falta emoção
Nem reparei no céu. O clarão veio primeiro, me espantou e logo me pus a fantasiar. Existirão mesmo alienígenas? Resolveram estacionar suas naves de vez aqui no mundo terreno? Nem notei que as nuvens estavam carregadas, na verdade não as observei por falta de tempo. Ando meio ocupada, preocupando-me com chateações terrenas, aquelas que quando a gente morre perdem sua total significância.
A maior parte do tempo perdemos a noção de tempo e esquecemos de pensar na gente. Será que lá fora está claro ou escuro? Vivemos assim, no meio termo.Por vezes, me pergunto, o que estou fazendo aqui mesmo? E daí vou buscar meus propósitos. Percebo que falta um suspense, uma emoção como dessas histórias fantásticas de cinema. Falta adrenalina. Aí, uma das saídas é fantasiar viajando pela trama fictícia que fala algo sobre como se viver melhor.
A madrugada de hoje até que teve alguma emoção! Mantive os olhos vidrados na janela. Parecia que lá fora ocorria um espetáculo a parte. Capricharam nos jogos de luzes. Chovia, vinha o relâmpago, chovia, vinha o trovão. Chovia, relâmpago, trovão, chovia...e assim foi até que deixou de ser novidade, perdendo assim o que tinha de irreal, ao menos a meu ver.
A maior parte do tempo perdemos a noção de tempo e esquecemos de pensar na gente. Será que lá fora está claro ou escuro? Vivemos assim, no meio termo.Por vezes, me pergunto, o que estou fazendo aqui mesmo? E daí vou buscar meus propósitos. Percebo que falta um suspense, uma emoção como dessas histórias fantásticas de cinema. Falta adrenalina. Aí, uma das saídas é fantasiar viajando pela trama fictícia que fala algo sobre como se viver melhor.
A madrugada de hoje até que teve alguma emoção! Mantive os olhos vidrados na janela. Parecia que lá fora ocorria um espetáculo a parte. Capricharam nos jogos de luzes. Chovia, vinha o relâmpago, chovia, vinha o trovão. Chovia, relâmpago, trovão, chovia...e assim foi até que deixou de ser novidade, perdendo assim o que tinha de irreal, ao menos a meu ver.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Você não é esse monstro
Não queremos herdar seu jeito. Não pode ou não deveria ser genético esse ódio imediato. Não é raiva, o que você sente com frequência é ódio. Ah, se você não se importasse tanto com coisas sem importância.
Não podemos herdar suas emoções, seu mau humor, seu olhar de desprezo. No íntimo, sabemos que você não é esse monstro que eles desenham. Não permitimos que falem mal de você.
Se pudesse respeitar quem te ama, se fosse menos temperamental, estaríamos em paz. Não é verdade que ninguém muda. Você pode mudar. Enquanto não houver transformação, vedaremos nossos ouvidos como para fazer de escudo. Assim, não sentiremos o impacto de suas palavras.
Não podemos herdar suas emoções, seu mau humor, seu olhar de desprezo. No íntimo, sabemos que você não é esse monstro que eles desenham. Não permitimos que falem mal de você.
Se pudesse respeitar quem te ama, se fosse menos temperamental, estaríamos em paz. Não é verdade que ninguém muda. Você pode mudar. Enquanto não houver transformação, vedaremos nossos ouvidos como para fazer de escudo. Assim, não sentiremos o impacto de suas palavras.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Do vasinho de barro
Você nasceu no raso do vasinho de barro e, mesmo naquele vazio, você decidiu resistir. Suas folhinhas secavam,embora tivesse muita água na telha ou na torneira. Encontrava-se em ambiente fechado: às vezes escuro, mais vezes claro. Mas a luz era um tanto esquisita. Tinha certeza que esta não vinha emitida da pequena bolinha de fogo amarelo-branco no céu. Algumas vezes pôde sentí-la enquanto estava sendo "criada".Logo ficou pronta para ser vendida no supermercado.Era como um filhotinho de cachorro, esperando ser comprada por alguém com sensibilidade aflorada.
Ali, sentia tanta ausência. Faltava no ar a dancinha do vento que faria suas múltiplas "mãozinhas", tão murchas, bailarem junto. Faltava o carinho de gotinhas cristalinas deslizando sobre sua superfície. Diante de tamanha carência, percebeu que não lhe faltava esperança e persistência: contemplou seu próprio pedacinho, uma réplica minúscula, crescendo pacientemente a cada dia no canto do seu braço-galho exausto.
Outro dia, um grande dia, alguém não a rejeitou ao ver suas flores tristes, o que era um evidente contraste em relação às outras que chegaram há pouco ainda muito vistosas. Então, mãos pequeninas aproximaram-se para regá-la. Das pontinhas dos dedos redondos de alguma menininha que passava ali, pingaram gotinhas. Caíram sobre suas flores desbotadas, que em poucos instantes recuperaram a vida. Foi transportada pela aquela pessoinha e posta na esteira do Caixa, na qual observou uma troca. Viu na tela da máquina poucos números depois de uma sigla assim: R$. Como uma mercadoria qualquer foi enfiada, com um toque frio da moça do Caixa, dentro de um saco plástico.
A menininha a levou para um lugar onde havia outras plantas. De repente, viu-se fora do vaso. Acompanhada de adubo, muita terra úmida e outras semelhantes a ela,sentiu as mãos da menina em conchinha, diagnosticando o que estava morto em seu corpo para podar. E assim,voltou a ser tão completa quanto uma paisagem.
Ali, sentia tanta ausência. Faltava no ar a dancinha do vento que faria suas múltiplas "mãozinhas", tão murchas, bailarem junto. Faltava o carinho de gotinhas cristalinas deslizando sobre sua superfície. Diante de tamanha carência, percebeu que não lhe faltava esperança e persistência: contemplou seu próprio pedacinho, uma réplica minúscula, crescendo pacientemente a cada dia no canto do seu braço-galho exausto.
Outro dia, um grande dia, alguém não a rejeitou ao ver suas flores tristes, o que era um evidente contraste em relação às outras que chegaram há pouco ainda muito vistosas. Então, mãos pequeninas aproximaram-se para regá-la. Das pontinhas dos dedos redondos de alguma menininha que passava ali, pingaram gotinhas. Caíram sobre suas flores desbotadas, que em poucos instantes recuperaram a vida. Foi transportada pela aquela pessoinha e posta na esteira do Caixa, na qual observou uma troca. Viu na tela da máquina poucos números depois de uma sigla assim: R$. Como uma mercadoria qualquer foi enfiada, com um toque frio da moça do Caixa, dentro de um saco plástico.
A menininha a levou para um lugar onde havia outras plantas. De repente, viu-se fora do vaso. Acompanhada de adubo, muita terra úmida e outras semelhantes a ela,sentiu as mãos da menina em conchinha, diagnosticando o que estava morto em seu corpo para podar. E assim,voltou a ser tão completa quanto uma paisagem.
sábado, 9 de outubro de 2010
Literatura - sugas
"Não!" Grita o colecionador para aquelas criaturas estúpidas, famintas. Minúsculas, compridas. Já gordas, entupidas de papel que um dia serviu pra carregar e exibir narrativas envolventes. Sim, eram Traças traiçoeiras, agindo à surdina.
O mais inacreditável é que à pouco estava ali o árduo trabalho de pesquisa do escritor. As palavrinhas escolhidas à dedo e de coração descansavam tranquilas sobre as folhas; cheias de história pra contar.
Foi um Terror(!) aquele sábado de manhã ensolarado para o colecionador que se interessava, comprava, lia, guardava cada obra em um lugar até então seguro, sua estante. E agora é assim, resolve-se espanar a estante e as palavras já não estão mais onde foram impressas. Ficou imaginando as pobrezinhas espremidas naquelas bocas de papel sugas. A leitura foi reduzida a um banquete, a muita fartura para as pestes imundas.
Mas o tal colecionador não se conformou. A sorte é que a situação não estava tão preta assim, pois somente um livro foi atacado pra valer. Apoiou as vítimas da covarde ação de comilança sobre uns encostos para um belo banho de Sol. Não demorou muito e logo se viu a agonia dos pequenos bichos gosmentos a fugirem atordoados da quentura.
Sabe-se lá de onde a praga veio e como se multiplicou. O dono leitor resolveu não perder tempo pensando na origem daqueles seres destruidores. Agora seria ele a exterminá-los. Os livros continuaram expostos ao Sol, enquanto o colecionador, tomado por tamanha indignação e ódio, decidiu por abaixo a mobília embutida na parede do quarto. E assim fez, arrancou-a com as próprias mãos.
Assustou-se, depois, enquanto contemplava os ferimentos da pele em pleno pranto de pavor. Sentia-se doente e apenas procurava entender por que somente ele não conseguia suportar conviver com as milhares de pragas do mundo.
Feriu-se, mas ao menos tentou desabrigar toda espécie que morava na grande estante. Eram cupins, traças, aranhas, baratas. "Suas pestes. Argh(!)", pensou, "ou morrem vocês ou morro eu".
O mais inacreditável é que à pouco estava ali o árduo trabalho de pesquisa do escritor. As palavrinhas escolhidas à dedo e de coração descansavam tranquilas sobre as folhas; cheias de história pra contar.
Foi um Terror(!) aquele sábado de manhã ensolarado para o colecionador que se interessava, comprava, lia, guardava cada obra em um lugar até então seguro, sua estante. E agora é assim, resolve-se espanar a estante e as palavras já não estão mais onde foram impressas. Ficou imaginando as pobrezinhas espremidas naquelas bocas de papel sugas. A leitura foi reduzida a um banquete, a muita fartura para as pestes imundas.
Mas o tal colecionador não se conformou. A sorte é que a situação não estava tão preta assim, pois somente um livro foi atacado pra valer. Apoiou as vítimas da covarde ação de comilança sobre uns encostos para um belo banho de Sol. Não demorou muito e logo se viu a agonia dos pequenos bichos gosmentos a fugirem atordoados da quentura.
Sabe-se lá de onde a praga veio e como se multiplicou. O dono leitor resolveu não perder tempo pensando na origem daqueles seres destruidores. Agora seria ele a exterminá-los. Os livros continuaram expostos ao Sol, enquanto o colecionador, tomado por tamanha indignação e ódio, decidiu por abaixo a mobília embutida na parede do quarto. E assim fez, arrancou-a com as próprias mãos.
Assustou-se, depois, enquanto contemplava os ferimentos da pele em pleno pranto de pavor. Sentia-se doente e apenas procurava entender por que somente ele não conseguia suportar conviver com as milhares de pragas do mundo.
Feriu-se, mas ao menos tentou desabrigar toda espécie que morava na grande estante. Eram cupins, traças, aranhas, baratas. "Suas pestes. Argh(!)", pensou, "ou morrem vocês ou morro eu".
domingo, 19 de setembro de 2010
Grandes Coisas para Os Outros
Entende por que nunca se deu ao luxo de sonhar. Acha tudo isso aqui muito chato, no entanto, sabe que deveria sobreviver como os outros: agarrando-se a alguma verdade, abrigando-se no recanto aparentemente seguro do encanto. Mas sabe da constante iminência da mudança e receia que escape a ilusão como um solo a desintegrar-se sob seus pés.
Vê sua própria imagem, mas é uma estranha a olhá-la. Pode ver o desgosto no olhar e o desapego em todo o restante. Aquela refletida é só um corpo desvinculado da alma a encará-la. Pensa que para vir a esse mundo deve-se fazer grandes coisas para os outros. Acha que não fez nada até o momento, acha que perdeu o instante. Tenta seguir o conselho cantado de abandonar o que é pronto e dizer adeus. Isso, pra ela, é difícil. Não exibe a habilidade que seu criador lhe reservou, porque não rende, não lhe garante o pão com facilidade.
Reflete e sente que poderia sim estar fazendo grandes coisas para as pessoas. Poderia suavizar o dia a dia dessa gente com uma voz aveludada. Poderia disseminar mensagens bonitas de se dizer, de se fazer. Poderia, no clímax de seus feitos, fazer desaguar, das nascentes dos olhares alheios, lágrimas bentas de felicidade.
Vê sua própria imagem, mas é uma estranha a olhá-la. Pode ver o desgosto no olhar e o desapego em todo o restante. Aquela refletida é só um corpo desvinculado da alma a encará-la. Pensa que para vir a esse mundo deve-se fazer grandes coisas para os outros. Acha que não fez nada até o momento, acha que perdeu o instante. Tenta seguir o conselho cantado de abandonar o que é pronto e dizer adeus. Isso, pra ela, é difícil. Não exibe a habilidade que seu criador lhe reservou, porque não rende, não lhe garante o pão com facilidade.
Reflete e sente que poderia sim estar fazendo grandes coisas para as pessoas. Poderia suavizar o dia a dia dessa gente com uma voz aveludada. Poderia disseminar mensagens bonitas de se dizer, de se fazer. Poderia, no clímax de seus feitos, fazer desaguar, das nascentes dos olhares alheios, lágrimas bentas de felicidade.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Risco alheio - Móveis Coloniais
Pra Manter Ou Mudar
Tudo que eu queria dizer
Alguém disse antes de mim
Tudo que eu queria enxergar
Já foi visto por alguém
Nada do que eu sei me diz quem eu sou
Nada do que eu sou de fato sou eu?
Tudo que eu queria fazer
Alguém fez antes de mim
Tudo que eu queria inventar
Foi criado por alguém
Nada do que eu sou me diz o que eu sei
Nada do que eu sei de fato é meu?
Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar
Sempre que eu tento acabar
Já desisto antes do fim
Sempre que eu tento entender
Nada explica muito bem
Sempre a explicação me diz o que eu sei:
"Sempre que eu sei, alguém me ensinou"
Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar
Agora reinvento
E refaço a roda, fogo, vento
E retomo o dia, sono, beijo
E repenso o que já li
Redescubro um livro, som, silêncio
Foguete, beija-flor no céu,
Carrossel, da boca um dente
Estrela cadente
Tudo que irá existir
Tem uma porção de mim
Tudo que parece ser eu
É um bocado de alguém
Tudo que eu sei me diz do que sou
Tudo que eu sou também será seu
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Desligou-se
Reservou 1 semana pra não se cobrar tanto. Não escreveu o que deveria escrever, não leu o que deveria ler. Só resolveu escrever o que viesse à cabeça, assim não iria precisar recorrer a citações, coisas que os outros já disseram para embasar o que diabos estivesse ela pensando em balbuciar de forma escrita.
Certeza foi o remorso vir abordá-la, mas deixou-o lá incomodando e não fez nada por ele. Empurrou-o conscientemente para a região periférica da massinha pensante, assim como se esconde sujeira de baixo do tapete.
Aproveitou a breve folga que deu a si mesma e, depois de ativar seu reflexo automático nos afazeres do dia, jogou-se na rede, no sofá e aceitou passiva e paciente cada mensagem já pensada, elaborada, embalada e endereçada a mais um crânio recheado de vazio, completamente anestesiado, bem dizer, morto.
No fim de tudo, diagnosticou que seu grande mal era o sono, daqueles de derrubar as pálpebras tendo o mundo inteiro sobre elas. Era sono, era essa necessidade fisiológica mesmo. "É só o sono, não preguiça, ainda bem", pensou.
Certeza foi o remorso vir abordá-la, mas deixou-o lá incomodando e não fez nada por ele. Empurrou-o conscientemente para a região periférica da massinha pensante, assim como se esconde sujeira de baixo do tapete.
Aproveitou a breve folga que deu a si mesma e, depois de ativar seu reflexo automático nos afazeres do dia, jogou-se na rede, no sofá e aceitou passiva e paciente cada mensagem já pensada, elaborada, embalada e endereçada a mais um crânio recheado de vazio, completamente anestesiado, bem dizer, morto.
No fim de tudo, diagnosticou que seu grande mal era o sono, daqueles de derrubar as pálpebras tendo o mundo inteiro sobre elas. Era sono, era essa necessidade fisiológica mesmo. "É só o sono, não preguiça, ainda bem", pensou.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Aquele texto nostálgico
Chegou meio deprimida, disse o boa noite de costume pra mãe, sentou por alguns minutos na cama arrumada e deixou que a música dos fones a absorvesse. Achou incoveniente a velocidade do pensamento, a mil por hora sem placa, e a direção? Começou pensando em sua própria sorte e depois se estendeu imaginando como andava seu irmão e a amiga.
Jantou com fúria na ingestão e como sempre encontrou algum prazer naquilo, como se tivesse valido a pena mais aquele dia de batalha mesmo sem ela como guerreira. Buscou compensações pra tanta lamentação e encontrou uma long neck perdida na geladeira. Achou que agradaria a gelada companhia fora de contexto, na semana, sem festa, sem amigos.
Foi ao quarto abandonado e concentrou pela primeira vez a atenção no violão empoeirado do irmão, ao lado, a guitarra e a caixa de som muda. Lembrou que havia um microfone e teve certeza que onde quer que ele estaria, também deveria agora ser domínio dos ácaros. Enfim, adormecia, ali, o cenário do abandono do que verdadeiramente gostavam eles de fazer: fazer parte da música.
O irmão brincava com as cordas, quase fazendo todo mundo crer que as notas falavam. E ela; ela cantava sozinha, fazendo a mãe opinar dizendo que a filha só gostava de música triste.
E então a cerveja acabou e ela resolveu acabar logo com aquele texto nostálgico e também mais sem sentido de todos que já tinha tentado deixar bem escrito.
Jantou com fúria na ingestão e como sempre encontrou algum prazer naquilo, como se tivesse valido a pena mais aquele dia de batalha mesmo sem ela como guerreira. Buscou compensações pra tanta lamentação e encontrou uma long neck perdida na geladeira. Achou que agradaria a gelada companhia fora de contexto, na semana, sem festa, sem amigos.
Foi ao quarto abandonado e concentrou pela primeira vez a atenção no violão empoeirado do irmão, ao lado, a guitarra e a caixa de som muda. Lembrou que havia um microfone e teve certeza que onde quer que ele estaria, também deveria agora ser domínio dos ácaros. Enfim, adormecia, ali, o cenário do abandono do que verdadeiramente gostavam eles de fazer: fazer parte da música.
O irmão brincava com as cordas, quase fazendo todo mundo crer que as notas falavam. E ela; ela cantava sozinha, fazendo a mãe opinar dizendo que a filha só gostava de música triste.
E então a cerveja acabou e ela resolveu acabar logo com aquele texto nostálgico e também mais sem sentido de todos que já tinha tentado deixar bem escrito.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Risco Alheio: Saramago
" Na cama ao lado, a que se encostava à parede, o rapazinho dormia também, Fez como eu, pensou a mulher do médico, deu-lhe o lugar mais protegido, bem fraca muralhas seríamos, só uma pedra no meio do caminho, sem outra esperança que a de tropeçar nela o inimigo, inimigo, que inimigo, aqui ninguém nos virá atacar, podíamos ter roubado e assassinado lá fora que não nos viriam prender, nunca aquele que roubou o carro esteve tão seguro da sua liberdade, tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber quem somos, nem nos lembrámos sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que iriam servir-nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhes foram postos, é pelo cheiro que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra raça de cães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto, feições, cor dos olhos, da pele, do cabelo, não conta, é como se não existisse..."
Págs.63-64 [Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago]
Págs.63-64 [Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago]
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Pai e Mãe e Filho
Olha pra mãe e acha engraçado. Como ela ainda acredita em sorte? Compra toda semana o jogo de cinco prêmios acreditando fielmente que um dia todo o dinheiro investido encontrará o caminho da volta, voltando da mesma nota, só que mais rechonchudo e acrescido de não sei quantos zeros.
Olha pro pai e acha injusto. Como pode ele cair de sono recostado na cadeira desconfortável, depois de domingo a domingo batalhando pra honrar com os impostos? "É, boa noite pra quem fica, amanhã começa tudo de novo!"
O filho sente que hoje os papeis se inverteram,precisa cuidar dos seus pais,mimá-los na medida certa, e , principalmente, ensiná-los a conviver com os novos valores pra não se chocarem tanto: " O mundo está perdido, aonde vamos parar?"
O filho chega à conclusão de que pais são seres bastante carentes e aconselha que se tenha muito cuidado com qualquer palavra dita, especialmente a não dita. Ou terá que ouvir: "Seus ingratos, a gente faz tudo por eles..." O fato é que o filho não tem dúvida, todos os pais são iguais e só mudam de contexto.
Pai e mãe são coisas valiosas no banco sentimental, são extensões dos filhos.
Olha pro pai e acha injusto. Como pode ele cair de sono recostado na cadeira desconfortável, depois de domingo a domingo batalhando pra honrar com os impostos? "É, boa noite pra quem fica, amanhã começa tudo de novo!"
O filho sente que hoje os papeis se inverteram,precisa cuidar dos seus pais,mimá-los na medida certa, e , principalmente, ensiná-los a conviver com os novos valores pra não se chocarem tanto: " O mundo está perdido, aonde vamos parar?"
O filho chega à conclusão de que pais são seres bastante carentes e aconselha que se tenha muito cuidado com qualquer palavra dita, especialmente a não dita. Ou terá que ouvir: "Seus ingratos, a gente faz tudo por eles..." O fato é que o filho não tem dúvida, todos os pais são iguais e só mudam de contexto.
Pai e mãe são coisas valiosas no banco sentimental, são extensões dos filhos.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Círculo imperfeito
Tenho a intuição de que todo mundo se sente sozinho, assim como eu, talvez isso explique o incessante desejo de compensar o que falta somando coisas pequenas sem essência.
Sós é como se assistíssemos de camarote algo invisível levar embora aquelas pessoas únicas, de almas bonitas. Sem querer não mais as vemos, ficamos sem notícias.Apenas imaginamos por onde andam, se mudaram seus jeitos, vícios e defeitos, se realmente desapareceram da Terra abduzidos.
Sós, porque é mais confortável ficar inerte, ver o tempo fugir de nosso controle.É mais fácil manter o olhar fixo e deixar que nada ao seu redor interfira na sua órbita caótica particular.
Seria incrível vencer o cansaço pra reviver emoções, fazer ressurgir os encontros, e até os desencontros. Parece que às vezes os sentimentos falecem, nos vemos num deserto ouvindo o som de uma gaita protagonizar o que é triste na melodia.
Seria bom poder desgrudar do centro do círculo desenhado em torno de nós. Um círculo rabiscado com um giz especial, que não apaga com o vento e nem com as tentativas alheias. Essa esfera fica marcando nosso terreno, no qual os velhos amigos não podem mais pisar, são repelidos. Não há nem uma réstia daquele magnetismo de tempos atrás. Esquecemos, a memória vai apagando aquilo que um dia vivemos com tanta intensidade. Os rostos deles vão perdendo os formatos, vão perdendo os detalhes. Sobram apenas lembranças soltas, que misturam-se com outras, ficando confusas.
Quero tentar sair daqui, mas preciso de mais força. Aquela força que desvaneceu quando perdi a fonte da minha luz: as pessoas queridas que ficaram pra trás. Estou apagando sem elas. Vi que, como diz a música, "eu sou o que vocês são". Então sinto que é hora de nos movermos e destruirmos esse círculo imperfeito a nossa volta.
Sós é como se assistíssemos de camarote algo invisível levar embora aquelas pessoas únicas, de almas bonitas. Sem querer não mais as vemos, ficamos sem notícias.Apenas imaginamos por onde andam, se mudaram seus jeitos, vícios e defeitos, se realmente desapareceram da Terra abduzidos.
Sós, porque é mais confortável ficar inerte, ver o tempo fugir de nosso controle.É mais fácil manter o olhar fixo e deixar que nada ao seu redor interfira na sua órbita caótica particular.
Seria incrível vencer o cansaço pra reviver emoções, fazer ressurgir os encontros, e até os desencontros. Parece que às vezes os sentimentos falecem, nos vemos num deserto ouvindo o som de uma gaita protagonizar o que é triste na melodia.
Seria bom poder desgrudar do centro do círculo desenhado em torno de nós. Um círculo rabiscado com um giz especial, que não apaga com o vento e nem com as tentativas alheias. Essa esfera fica marcando nosso terreno, no qual os velhos amigos não podem mais pisar, são repelidos. Não há nem uma réstia daquele magnetismo de tempos atrás. Esquecemos, a memória vai apagando aquilo que um dia vivemos com tanta intensidade. Os rostos deles vão perdendo os formatos, vão perdendo os detalhes. Sobram apenas lembranças soltas, que misturam-se com outras, ficando confusas.
Quero tentar sair daqui, mas preciso de mais força. Aquela força que desvaneceu quando perdi a fonte da minha luz: as pessoas queridas que ficaram pra trás. Estou apagando sem elas. Vi que, como diz a música, "eu sou o que vocês são". Então sinto que é hora de nos movermos e destruirmos esse círculo imperfeito a nossa volta.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Risco alheio - Raul Seixas
Ouro de tolo
Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73
Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa
Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa
Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco
É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador
Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73
Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa
Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa
Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco
É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador
sábado, 19 de junho de 2010
Para tudo, o país entrou em campo!
Não mais que de repente, surge um patriotismo tolo.
Ninguém quer saber mais de nada. O comércio fecha. As pessoas não trabalham.
O mundo para.
A ansiedade fica estampada nas caras concentradas.
Os olhos dessa gente muda de cor, fica assim, metade verde, metade amarelo.
Unhas verdes e amarelas, ruas verdes e amarelas, Sol verde e amarelo.
Aposto que até o hino completo toda essa torcida é capaz de cantar. É a pátria, nosso Brasil entrou em campo, e nada mais importa, nem a política, nem a guerra, e muito menos uma galerinha cheia de fome.
É isso aí. Pra frente, Brasil!
Ninguém quer saber mais de nada. O comércio fecha. As pessoas não trabalham.
O mundo para.
A ansiedade fica estampada nas caras concentradas.
Os olhos dessa gente muda de cor, fica assim, metade verde, metade amarelo.
Unhas verdes e amarelas, ruas verdes e amarelas, Sol verde e amarelo.
Aposto que até o hino completo toda essa torcida é capaz de cantar. É a pátria, nosso Brasil entrou em campo, e nada mais importa, nem a política, nem a guerra, e muito menos uma galerinha cheia de fome.
É isso aí. Pra frente, Brasil!
sábado, 12 de junho de 2010
Dinâmica dos apaixonados

Pode faltar coragem pro dia-a-dia, mas ostentam um sorrisinho de leve no rosto.
Pode faltar vontade de vencer, mas se determinam, seguem adiante.
Pode alguns feitos parecerem impossíveis, deixam se tornarem concretos diante de seus olhos reluzentes.
Pode o mundo, as pessoas ficarem em desequilíbrio, mas vencem a inércia, seguram juntos as pontas.
Pra eles cairem é difícil, sempre tem aquela força divina os guiando, e aquela outra força que ninguém, até hoje, soube definir.
Esta força oculta, que só se sente,está nelas, está neles.
Assim, eles se complementam. E, por isso, parecem até perfeitos.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Colecionadores
De vez em quando me arrisco a ser breve, a entrar nessa mania contemporânea fast.Mas é torturante resumir em pouquíssimos caracteres o que vem à cabeça. É melancólico compactar a vida dentro de pequenos flashes, ver inúmeros fatos imprescindíveis se dissipando da memória.
E que censura, essa que impomos a nós mesmos.Isso de caminhar rápido, comer rápido, se expressar rápido(se calando novamente). Tudo simultâneo, enquanto problemas absurdos de grandes vão rolando em bola de neve - já invisível de tanto derreter -.
É difícil aceitar que natureza morta possa despertar tanto fascínio nestes olhos curiosos de quem a agride. Somos dotados de incrível agilidade. Somos colecionadores de catástrofes.
E que censura, essa que impomos a nós mesmos.Isso de caminhar rápido, comer rápido, se expressar rápido(se calando novamente). Tudo simultâneo, enquanto problemas absurdos de grandes vão rolando em bola de neve - já invisível de tanto derreter -.
É difícil aceitar que natureza morta possa despertar tanto fascínio nestes olhos curiosos de quem a agride. Somos dotados de incrível agilidade. Somos colecionadores de catástrofes.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Pânico da folha em branco
Não ter com o que preencher isso aqui é um tanto temeroso. Medo de que me falte conteúdo por tempo muito demorado.
Esses meus dedos que não mais se sentem instigados pela mente a tocarem a superfície de cada letra.
Ausente batuque nervoso nessas teclas. Silenciosos e abafados pensamentos.
Creio até que devo recorrer à divindade abstrata, que por vezes se faz tão concreta.
E tanta falta eu sinto do toque de reflexão a me deixar por demais inquieta.
Vou ali, ver se vivo cada vez mais.
Volto quando tiver algo que vale compartilhar, digitando aqui.
Esses meus dedos que não mais se sentem instigados pela mente a tocarem a superfície de cada letra.
Ausente batuque nervoso nessas teclas. Silenciosos e abafados pensamentos.
Creio até que devo recorrer à divindade abstrata, que por vezes se faz tão concreta.
E tanta falta eu sinto do toque de reflexão a me deixar por demais inquieta.
Vou ali, ver se vivo cada vez mais.
Volto quando tiver algo que vale compartilhar, digitando aqui.
sábado, 24 de abril de 2010
Mais perto

Eu devo estar mais perto.
Apesar das pernas curtas, preciso me distanciar o mais depressa possível da frieza do longe. Vou percorrer esse chão gelado através de grandes passadas e chegar mais perto das pessoas queridas.
Eu devo estar mais perto pra apertar alguns laços que o tempo e a distância muitas vezes podem deixar frouxos,quase a desatar. Eu realmente sinto essa necessidade de agir.
Vou ligar esses elos fragilizados e sei que na outra ponta, como numa brincadeira de cabo-de-guerra que acaba em paz, vão estar aquelas preciosas pessoas cheias de força pra compartilhar.
sábado, 3 de abril de 2010
Tantinho de história pra contar

Meu maior receio é não ter um tantinho de história pra contar. É por conta disso que tenho deixado as portas sempre abertas pra ir e voltar assim que me der vontade. Tenho deixado papel e caneta fáceis de encontrar.
Vou juntando os pedacinhos de contos que decidi fazer parte, primeiramente como um tímido personagem, posteriormente como peça-chave. Vou unindo as partes pra quem sabe, no final, resultar em algo de caráter surpreendente. Vou assimilando no decorrer dos capítulos que é do resto que se tira o maior proveito.
Estou aqui como uma criança, daquelas desengonçadas que, de tanta espontaneidade, fazem rir; daquelas de olhos redondos fixados no que parecer novo.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Tristeza faz um bem.

É bom ter uma certa admiração pela melancolia. Ela consegue ser tão sedutora, tão fascinante para quem sente. Como se estivéssemos dentro de um filme, fazendo gênero drama. Somos a vítima, o centro de tudo.
E quando aquela tristinha vem, vem forte, avassaladora. Esse fardo se infiltra primeiramente por meio dos olhos. Deixa o olhar vazio, fixo em algo do mundo paralelo. A sensação é quase a ideia de uma alma inteira dentro de um corpo complexo se encaminhar para o pequeno espaço atrás do vidro da janela ocular.
Exatamente, é como se sua essência estivesse querendo escapar. A cada pulsação lenta por conta da bombinha de sangue debilitada, da aura melancólica, o forte impulso por um triz capaz de libertar sua alma de vez.
Parece ser algo fantástico. Por mais contraditório que seja, quem sente isso tudo está na verdade resgatando a vaidade de pensar em si mesmo, por uns instantes em relação ao universo.
É triste, mas faz bem.
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Dois lados: folia x melancolia
Folia de si. Tem sido sempre assim: ansiedade pelos 4 dias pra pensar em si, ou, como a maioria, esquecer de si, fantasiando-se de personagens que outrora tiveram desejo de ser.
Como um ópio, todos buscam num feriadão avivar a alegria esquecida. A viagem tá marcada. Vão às compras. O homem transporta o carrinho de supermercado e neste só tem garrafas de cerveja empilhadas como se para construir o império da espontaneidade. Já viu gente alta não dizer verdade? Então, chega a hora de abastecer o carro. A bebedeira já se inicia no posto, alguém reza para que o motorista da vez não caia em tentação.
Desta vez, não trago essa tentativa de diversão para esses dias de folga. Mas claro, tenho formas particulares de acordar o bom humor, a descontração, afinal é carnaval. Mas como há sempre os dois lados,lembro de coisas não muito felizes e que nada têm a ver com esse clima carnavalesco. Algo que se encaixou milimetricamente na memória, algo que se tem certeza: vai permanecer ali, até você achar que é o fim.
Algo que jurei ter sido parte de um pesadelo. Na época, estava voltando a pé da escola. Era o mesmo caminho de todos os dias, mas aquele dia resolveu não ser igual a todos os outros. Eu passei em frente a uma casinha simples, prestes a ser reformada. Por isso, uma carroça cheia de material de construção estava estacionada lá.
De longe, eu podia ver um cavalo amarrado junto a carroça. Ele estava parado no meio do asfalto e aparentava cansaço por conta da carga pesada. Não vi só ele, vi também uma criança igual a mim, só que menino e não menina. Eu não tinha idade adequada pra perceber que tinha algo de errado.
O cavalo aguardava impaciente o menininho levar todos os tijolos para dentro da casa. Era visível a qualquer um que o animal estava um tanto arredio àquela prestação de serviço. A medida que o menino transportava a carga, o carrinho ficava mais leve. Não sei explicar com detalhes o que aconteceu em seguida até hoje, foi tudo muito rápido. Mas sei que um desequilíbrio causado pelo movimeto brusco do cavalo fez com que uma ferramenta sobre a carroça deslizasse, atingindo e atravessando parcialmente a cabeça da criança. Não me recordo agora qual era o tipo de ferramenta, mas sei que era pontuda.
Observei a reação do menino com olhar obscurecido de terror. Franzi as sombrancelhas e imaginei ser aquilo pesadelo muito pior do que olhos felinos reluzindo no escuro. Naquele momento, meus passos se tornaram mais apressados. Eu caminhava nervosa e encontrava-me perto o suficiente pra ver a agonia dos gestos do menino. Este corria em desespero ao longo do corredor na lateral da casa.
Não entendo por que não fiz nada pra ajudar, devia ser mais novinha do que imagino. Lembro que além dos gritos, ouvi os vizinhos chamando o nome do responsável pelo depósito de construção. As vozes adultas ameaçavam denunciar o ocorrido e pediam que levassem o menino ao hospital mais próximo.
É estranho lembrar disso agora. Faz tanto tempo; mais parece nunca ter acontecido ou que faz parte de um antigo pesadelo. E no entanto,tudo que descrevi foi absolutamente real.
Como um ópio, todos buscam num feriadão avivar a alegria esquecida. A viagem tá marcada. Vão às compras. O homem transporta o carrinho de supermercado e neste só tem garrafas de cerveja empilhadas como se para construir o império da espontaneidade. Já viu gente alta não dizer verdade? Então, chega a hora de abastecer o carro. A bebedeira já se inicia no posto, alguém reza para que o motorista da vez não caia em tentação.
Desta vez, não trago essa tentativa de diversão para esses dias de folga. Mas claro, tenho formas particulares de acordar o bom humor, a descontração, afinal é carnaval. Mas como há sempre os dois lados,lembro de coisas não muito felizes e que nada têm a ver com esse clima carnavalesco. Algo que se encaixou milimetricamente na memória, algo que se tem certeza: vai permanecer ali, até você achar que é o fim.
Algo que jurei ter sido parte de um pesadelo. Na época, estava voltando a pé da escola. Era o mesmo caminho de todos os dias, mas aquele dia resolveu não ser igual a todos os outros. Eu passei em frente a uma casinha simples, prestes a ser reformada. Por isso, uma carroça cheia de material de construção estava estacionada lá.
De longe, eu podia ver um cavalo amarrado junto a carroça. Ele estava parado no meio do asfalto e aparentava cansaço por conta da carga pesada. Não vi só ele, vi também uma criança igual a mim, só que menino e não menina. Eu não tinha idade adequada pra perceber que tinha algo de errado.
O cavalo aguardava impaciente o menininho levar todos os tijolos para dentro da casa. Era visível a qualquer um que o animal estava um tanto arredio àquela prestação de serviço. A medida que o menino transportava a carga, o carrinho ficava mais leve. Não sei explicar com detalhes o que aconteceu em seguida até hoje, foi tudo muito rápido. Mas sei que um desequilíbrio causado pelo movimeto brusco do cavalo fez com que uma ferramenta sobre a carroça deslizasse, atingindo e atravessando parcialmente a cabeça da criança. Não me recordo agora qual era o tipo de ferramenta, mas sei que era pontuda.
Observei a reação do menino com olhar obscurecido de terror. Franzi as sombrancelhas e imaginei ser aquilo pesadelo muito pior do que olhos felinos reluzindo no escuro. Naquele momento, meus passos se tornaram mais apressados. Eu caminhava nervosa e encontrava-me perto o suficiente pra ver a agonia dos gestos do menino. Este corria em desespero ao longo do corredor na lateral da casa.
Não entendo por que não fiz nada pra ajudar, devia ser mais novinha do que imagino. Lembro que além dos gritos, ouvi os vizinhos chamando o nome do responsável pelo depósito de construção. As vozes adultas ameaçavam denunciar o ocorrido e pediam que levassem o menino ao hospital mais próximo.
É estranho lembrar disso agora. Faz tanto tempo; mais parece nunca ter acontecido ou que faz parte de um antigo pesadelo. E no entanto,tudo que descrevi foi absolutamente real.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Estrondo no crânio
A cada dia me convenço de que os loucos são os seres mais normais desse mundo.
Ontem, fui testemunha e vítima de uma insanidade que todos deveriam fazer e deixar um terceiro fazer, por você, em você, ao menos uma vez na vida.
Estava eu a caminhar de mãos dadas com o meu digníssimo par num passeio de sexta-feira à noite pela avenida nobre da cidade. Estávamos um pouco anestesiados, - leve efeito de quem não está muito acostumado a beber, logo, duas latinhas de cerva já fazem total diferença durante a viagem do sangue em sua rotineira corrente sanguínea -, quando senti parcialmente um estrondo alastrar-se sobre meu crânio.
Atônitos, meus neurônios buscaram entender o que diabos afinal estava acontecendo; não durou muito, de maneira tal que nem as sinapses, com todas suas qualidades ágeis e instantâneas, puderam encontrar uma explicação sensata para aquilo. Então, ouvi o namorado balbuciar algo em tom indeciso olhando para trás à minha esquerda. Resolveu calar-se e afagar minha cabeça - que, aliás, muitos já apelidaram de cabeção. Talvez uma das explicações do fato ocorrido ter ocorrido justamente comigo.
Quando meu cérebro pareceu desistir de entender o que houve, achou uma solução por instinto e mandou que minha cabeça e visão se virassem para trás. Pude finalmente ver o que havia me atingido me ultrapassar num vulto indistinto. Assim que me recuperei do baque, vi a indivídua, minha agressora.
Ela tinha o cabelo curto, amarrado com fios entrelaçados num habitual desalinho. Vestia um blusão surrado, todo sujo em cor de lama abaixo da cintura e um calção acima do joelho. Observei essas características enquanto a criatura corria desvairada. Segundo meu namorado, momentos antes ela deu sinais de que ia se jogar sobre os carros, mas na verdade queria mesmo era bater na minha cabeça num tradicional pedala robinho, só que com 4 vezes mais potência.
Depois de pensar um pouco, entendi o propósito dos atos daquela mulher. Ela pretendia me acordar, remexendo minhas ideias para que eu pudesse me mover, sair de mim por alguns instantes. E não foi meu cabeção o atrativo para que eu fosse o alvo da vez, foi por outra razão ainda desconhecida a mim.
Ontem, fui testemunha e vítima de uma insanidade que todos deveriam fazer e deixar um terceiro fazer, por você, em você, ao menos uma vez na vida.
Estava eu a caminhar de mãos dadas com o meu digníssimo par num passeio de sexta-feira à noite pela avenida nobre da cidade. Estávamos um pouco anestesiados, - leve efeito de quem não está muito acostumado a beber, logo, duas latinhas de cerva já fazem total diferença durante a viagem do sangue em sua rotineira corrente sanguínea -, quando senti parcialmente um estrondo alastrar-se sobre meu crânio.
Atônitos, meus neurônios buscaram entender o que diabos afinal estava acontecendo; não durou muito, de maneira tal que nem as sinapses, com todas suas qualidades ágeis e instantâneas, puderam encontrar uma explicação sensata para aquilo. Então, ouvi o namorado balbuciar algo em tom indeciso olhando para trás à minha esquerda. Resolveu calar-se e afagar minha cabeça - que, aliás, muitos já apelidaram de cabeção. Talvez uma das explicações do fato ocorrido ter ocorrido justamente comigo.
Quando meu cérebro pareceu desistir de entender o que houve, achou uma solução por instinto e mandou que minha cabeça e visão se virassem para trás. Pude finalmente ver o que havia me atingido me ultrapassar num vulto indistinto. Assim que me recuperei do baque, vi a indivídua, minha agressora.
Ela tinha o cabelo curto, amarrado com fios entrelaçados num habitual desalinho. Vestia um blusão surrado, todo sujo em cor de lama abaixo da cintura e um calção acima do joelho. Observei essas características enquanto a criatura corria desvairada. Segundo meu namorado, momentos antes ela deu sinais de que ia se jogar sobre os carros, mas na verdade queria mesmo era bater na minha cabeça num tradicional pedala robinho, só que com 4 vezes mais potência.
Depois de pensar um pouco, entendi o propósito dos atos daquela mulher. Ela pretendia me acordar, remexendo minhas ideias para que eu pudesse me mover, sair de mim por alguns instantes. E não foi meu cabeção o atrativo para que eu fosse o alvo da vez, foi por outra razão ainda desconhecida a mim.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Narrador-observador
Inicio mais um risco neste lugar já um tantão rabiscado. E como é divertido, prazeroso este ato, mesmo que não faça o menor sentido nessas postagens blogásticas. Apenas procuro mesclar estados de humor e espírito, e estes vêm desordenados, - aproximadamente como sou -, preencher a folha gasta.
No início predominava majestosamente o pronome "eu" , agora contemplo minha nova fase de enxergar outras pessoas sob gestos, emoções e ações inusitados. Por surgirem de fatos cotidianos não significa que não sejam fora do comum. Engraçado como apaguei várias observações antes como se elas fossem da menor importância. Estiveram sempre visíveis a mim, a qualquer outra pessoa.
É enaltecedor assumirmos com frequência a condição de narrador-observador. É como se estivéssemos contando histórias de vários gêneros simultaneamente, como se descobríssemos a forma de legendar as tão complexas emoções humanas. É realmente enriquecedor perceber em fatos simples e realísticos situações fantasiosas e tão curiosas envolvendo pessoas.
Portanto, pretendo continuar me arriscando como narradora-observadora. Essa história, espero, terá sempre continuidade; infindável com fins de mentirinha em cada parágrafo final.
No início predominava majestosamente o pronome "eu" , agora contemplo minha nova fase de enxergar outras pessoas sob gestos, emoções e ações inusitados. Por surgirem de fatos cotidianos não significa que não sejam fora do comum. Engraçado como apaguei várias observações antes como se elas fossem da menor importância. Estiveram sempre visíveis a mim, a qualquer outra pessoa.
É enaltecedor assumirmos com frequência a condição de narrador-observador. É como se estivéssemos contando histórias de vários gêneros simultaneamente, como se descobríssemos a forma de legendar as tão complexas emoções humanas. É realmente enriquecedor perceber em fatos simples e realísticos situações fantasiosas e tão curiosas envolvendo pessoas.
Portanto, pretendo continuar me arriscando como narradora-observadora. Essa história, espero, terá sempre continuidade; infindável com fins de mentirinha em cada parágrafo final.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Desconcertante meio sócio-familiar
Há momentos em que você pede pra não estar em determinado lugar não determinado por você, já que outra pessoa se encarregou disso, uma pessoa bem familiar, aliás.
Há momentos em que você pede para não existir e/ou daria tudo para se transformar num desses bichinhos que se escondem em baixo da terra.
É duro ligar essas conclusões à ideia de estar reunido por pura coerção a um monte de seres não identificados com a incrível habilidade de se multiplicarem a cada segundo. Às vezes me pergunto se esses indivíduos supostamente familiares são penetras ou sou eu que ando um tanto afastada de pessoas próximas a mim perante a árvore genealógica. Com resignação, concluo que a segunda opção é a mais adequada para o caso. Atribuo grande parte da culpa a terceiros, mas também admito que não me arrisco à aproximação diante do distanciamento geográfico e sociográfico.
Quando em momentos desconcertantes, de início, adere-se à postura padrão do agradável e simpático sorriso colgate. Aí, você finge que está super à vontade diante de tanta gente que não convive há 11 meses, desde a última festinha “em família”. Claro que a simulação de se sentir em casa, como dizem, está na cara para quem quiser ver que não passa de uma fachada. A partir do momento em que você tenta puxar assunto, dizendo: “- Nossa, que calor. Esse clima hein”, você já se denunciou; e o único conforto é que você ao menos tentou sair da enrascada.
De certo, não há nada mais constrangedor ao redor de uma mesa com pessoas do que o silêncio, considerando a hipótese de que não ocorrerá nenhum barraco por parte de outra pessoa supostamente da família.
E nomes, por que temos que ter nomes próprios? Pró-prios! Mais que carência patética essa invenção de termos nomes para chamá-los de nossos. É assustador como algo tão mínimo quanto um nome possa causar tanto desconforto quando, confusamente, não o chamamos ou não o pronunciamos corretamente; ou quando numa situação sociável você apresenta alguém que você tem o nome na ponta da língua, mas o bendito teima em se restringir a ficar somente na língua e não sair verbalmente. Para evitar tais embaraços, simplesmente não deveríamos dar nomes aos próximos bebês que estiverem para nascer, talvez imagens simbólicas que fizessem as pessoas associarem de imediato à pessoa em questão: - moranguinha, como está?, a alguém muito meiga. Ou: “- E aí, onnda?!, ao surfista.
Essa época festiva de fim de ano é mesmo muito cruel ao nos colocar em apuros sociológicos. E continuo resmungando e concluindo que há desconcertantes momentos que não deveriam ocupar o espaço-tempo desse mundinho.
Há momentos em que você pede para não existir e/ou daria tudo para se transformar num desses bichinhos que se escondem em baixo da terra.
É duro ligar essas conclusões à ideia de estar reunido por pura coerção a um monte de seres não identificados com a incrível habilidade de se multiplicarem a cada segundo. Às vezes me pergunto se esses indivíduos supostamente familiares são penetras ou sou eu que ando um tanto afastada de pessoas próximas a mim perante a árvore genealógica. Com resignação, concluo que a segunda opção é a mais adequada para o caso. Atribuo grande parte da culpa a terceiros, mas também admito que não me arrisco à aproximação diante do distanciamento geográfico e sociográfico.
Quando em momentos desconcertantes, de início, adere-se à postura padrão do agradável e simpático sorriso colgate. Aí, você finge que está super à vontade diante de tanta gente que não convive há 11 meses, desde a última festinha “em família”. Claro que a simulação de se sentir em casa, como dizem, está na cara para quem quiser ver que não passa de uma fachada. A partir do momento em que você tenta puxar assunto, dizendo: “- Nossa, que calor. Esse clima hein”, você já se denunciou; e o único conforto é que você ao menos tentou sair da enrascada.
De certo, não há nada mais constrangedor ao redor de uma mesa com pessoas do que o silêncio, considerando a hipótese de que não ocorrerá nenhum barraco por parte de outra pessoa supostamente da família.
E nomes, por que temos que ter nomes próprios? Pró-prios! Mais que carência patética essa invenção de termos nomes para chamá-los de nossos. É assustador como algo tão mínimo quanto um nome possa causar tanto desconforto quando, confusamente, não o chamamos ou não o pronunciamos corretamente; ou quando numa situação sociável você apresenta alguém que você tem o nome na ponta da língua, mas o bendito teima em se restringir a ficar somente na língua e não sair verbalmente. Para evitar tais embaraços, simplesmente não deveríamos dar nomes aos próximos bebês que estiverem para nascer, talvez imagens simbólicas que fizessem as pessoas associarem de imediato à pessoa em questão: - moranguinha, como está?, a alguém muito meiga. Ou: “- E aí, onnda?!, ao surfista.
Essa época festiva de fim de ano é mesmo muito cruel ao nos colocar em apuros sociológicos. E continuo resmungando e concluindo que há desconcertantes momentos que não deveriam ocupar o espaço-tempo desse mundinho.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Olhar da janela urbana
Constantemente, meus olhos atentos registram imagens através da janela urbana. A miséria é tanta que não posso me manter imune.
É imensurável o número de gente que circula naquele semáforo da avenida, e posso deduzir que a maioria não se deixa seduzir pela imagem que fotografei dia desses; ela instantaneamente revelou-se em mim por meio de sentimentos.
O sujeito que ocupa essa imagem está sentado tão desajeitadamente, mais parecendo que alguém o jogou ali por desprezo. Se você passar por lá, verá - caso se permita enxergar - um velhinho no canteiro central, próximo à faixa de pedestre. Ao seu lado, sua companheira: uma cadeira de rodas tão fragilizada quanto seu proprietário; pressinto ser ela incapaz de sustentar a dor que sobrevive no vazio dos olhos do homem.
Os olhos, parte de mais destaque a ocupar o segundo plano de uma dentre as milhares de cenas soturnas da cidade ou do campo.
Na circunstância, permiti que eles ocupassem o primeiro plano. Concentrei-me em buscar o que aqueles olhos sombrios (embora de cor clara) estavam mirando e não encontrei. Pensei que eles poderiam ser cegos por vontade própria de seu dono, e até agora permanece a dúvida.
Analisando mais um ângulo da imagem, posso visualizar a mão esquerda da personificação da exclusão social. A mão permeada de sinais da velhice não está estendida pedindo trocado; parece estar conformada descansando muito quieta sobre o chão.
E minha mente sob efeitos de relâmpagos me mostrou diversas cenas que contrastavam com o momento. Eu podia ver imagens do luxo cômodo de poucos. Poucos encarcerados e invisíveis atrás dos vidros fumês de seus veículos.
Foi então que, olhando através da janela, deixei que a forte emoção cuidasse de desaguar a misericórdia, - que disputava com o coração o cantinho apertado do meu peito-. Foi o contato mais próximo que já tive com aquele e aquilo que considero Divino.
É imensurável o número de gente que circula naquele semáforo da avenida, e posso deduzir que a maioria não se deixa seduzir pela imagem que fotografei dia desses; ela instantaneamente revelou-se em mim por meio de sentimentos.
O sujeito que ocupa essa imagem está sentado tão desajeitadamente, mais parecendo que alguém o jogou ali por desprezo. Se você passar por lá, verá - caso se permita enxergar - um velhinho no canteiro central, próximo à faixa de pedestre. Ao seu lado, sua companheira: uma cadeira de rodas tão fragilizada quanto seu proprietário; pressinto ser ela incapaz de sustentar a dor que sobrevive no vazio dos olhos do homem.
Os olhos, parte de mais destaque a ocupar o segundo plano de uma dentre as milhares de cenas soturnas da cidade ou do campo.
Na circunstância, permiti que eles ocupassem o primeiro plano. Concentrei-me em buscar o que aqueles olhos sombrios (embora de cor clara) estavam mirando e não encontrei. Pensei que eles poderiam ser cegos por vontade própria de seu dono, e até agora permanece a dúvida.
Analisando mais um ângulo da imagem, posso visualizar a mão esquerda da personificação da exclusão social. A mão permeada de sinais da velhice não está estendida pedindo trocado; parece estar conformada descansando muito quieta sobre o chão.
E minha mente sob efeitos de relâmpagos me mostrou diversas cenas que contrastavam com o momento. Eu podia ver imagens do luxo cômodo de poucos. Poucos encarcerados e invisíveis atrás dos vidros fumês de seus veículos.
Foi então que, olhando através da janela, deixei que a forte emoção cuidasse de desaguar a misericórdia, - que disputava com o coração o cantinho apertado do meu peito-. Foi o contato mais próximo que já tive com aquele e aquilo que considero Divino.
domingo, 20 de dezembro de 2009
"- Olha a á-gua e o salgado!...Olha a á-gua ..."
Devo insistir em relatar fatos curiosos ocorridos nas circunstâncias em que estou como carga humana transportável.
Como moro absurdamente longe dos lugares mais requisitados, passo a maior parte do tempo dentro de um veículo e quase a mesma duração esperando por ele.
E é à espera dele, do querido e raro ônibus, - independente da linha a qual ele pertence, sempre terá essa qualidade única de jóia rara e o hábito de se fazer de difícil quando mais se precisa dele -, que costumo ouvir o fascinante aviso persuasivo, se me permitem a ironia:
"OLHA A ÁGUA... E O SALGADO,
OLHA A ÁGUA... E O SALGADO,
OLHA A Á-GUA E O SALGADO,
OLHA A Á-GUA E O SALGADO..."
A vendedora ambulante de cabelos longos e negros parece não se cansar. Queria eu ter tamanha obstinação. Ela está sempre a passos lentos de um lado para outro, pronunciando o mesmo imperativo com vago jeito de slogan:
"OLHA A ÁGUA... E O SALGADO,
OLHA A ÁGUA... E O SALGADO,
OLHA A Á-GUA E O SALGADO..."
Eu e as pessoas da parada somos capazes de calcular corretamente o intervalo entre uma frase e outra: Olha a água e o salgado! - [3 segundos] - Olha a água e o salgado! - [3 segundos] -; e assim se segue.
Sempre que ouço o slogan, fico imaginando a tal combinação entre água e salgado e logo me dá aquela azia em pensamento. Sábia é a química ao afirmar que água e óleo não se misturam.
Certa vez, aproveitei uma oportunidade para esclarecer uma dúvida e, fingindo estar interessada no salgado, perguntei também:
-Pra beber, você só tem água mesmo, então?!
Sim. O anúncio repetidamente irritante para olharmos para a água, que é apenas água, e o salgado, que é apenas salgado - visto que nossa vendedora poupa adjetivos aos simplórios produtos- é baseado em informação verídica. Ela realmente só vende água e salgado. Até perguntei por que não vender refrigerante também, e olha que curioso: ninguém sente falta dele. Disse ela que já tentou investir no refri e não deu certo.
A maioria dos clientes se veem levados até a vendedora para comprar só uma simples garrafinha d'água mesmo. Vai ver o calor estonteante do local faz as pessoas negarem a existência do salgado e terem a certeza saudável de que H2O é insubstituível.
Os salgadinhos, tadinhos, ficam confinados em saquinhos plásticos, se sentindo uns velhos abandonados num asilo. Se estivessem bem acompanhados, duvido que seriam desprezados.
Acho que a mulher do olha a á-gua e o salgado deveria desistir deles ou então criar uma nova categoria de casadinhos não-doces: cerveja bem gelada + salgadinhos de recheios irresistivelmente bem temperados.
Então, vai uma água e um salgado aí?!
Como moro absurdamente longe dos lugares mais requisitados, passo a maior parte do tempo dentro de um veículo e quase a mesma duração esperando por ele.
E é à espera dele, do querido e raro ônibus, - independente da linha a qual ele pertence, sempre terá essa qualidade única de jóia rara e o hábito de se fazer de difícil quando mais se precisa dele -, que costumo ouvir o fascinante aviso persuasivo, se me permitem a ironia:
"OLHA A ÁGUA... E O SALGADO,
OLHA A ÁGUA... E O SALGADO,
OLHA A Á-GUA E O SALGADO,
OLHA A Á-GUA E O SALGADO..."
A vendedora ambulante de cabelos longos e negros parece não se cansar. Queria eu ter tamanha obstinação. Ela está sempre a passos lentos de um lado para outro, pronunciando o mesmo imperativo com vago jeito de slogan:
"OLHA A ÁGUA... E O SALGADO,
OLHA A ÁGUA... E O SALGADO,
OLHA A Á-GUA E O SALGADO..."
Eu e as pessoas da parada somos capazes de calcular corretamente o intervalo entre uma frase e outra: Olha a água e o salgado! - [3 segundos] - Olha a água e o salgado! - [3 segundos] -; e assim se segue.
Sempre que ouço o slogan, fico imaginando a tal combinação entre água e salgado e logo me dá aquela azia em pensamento. Sábia é a química ao afirmar que água e óleo não se misturam.
Certa vez, aproveitei uma oportunidade para esclarecer uma dúvida e, fingindo estar interessada no salgado, perguntei também:
-Pra beber, você só tem água mesmo, então?!
Sim. O anúncio repetidamente irritante para olharmos para a água, que é apenas água, e o salgado, que é apenas salgado - visto que nossa vendedora poupa adjetivos aos simplórios produtos- é baseado em informação verídica. Ela realmente só vende água e salgado. Até perguntei por que não vender refrigerante também, e olha que curioso: ninguém sente falta dele. Disse ela que já tentou investir no refri e não deu certo.
A maioria dos clientes se veem levados até a vendedora para comprar só uma simples garrafinha d'água mesmo. Vai ver o calor estonteante do local faz as pessoas negarem a existência do salgado e terem a certeza saudável de que H2O é insubstituível.
Os salgadinhos, tadinhos, ficam confinados em saquinhos plásticos, se sentindo uns velhos abandonados num asilo. Se estivessem bem acompanhados, duvido que seriam desprezados.
Acho que a mulher do olha a á-gua e o salgado deveria desistir deles ou então criar uma nova categoria de casadinhos não-doces: cerveja bem gelada + salgadinhos de recheios irresistivelmente bem temperados.
Então, vai uma água e um salgado aí?!
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Comércio rosinha cruel.
O comércio quer me ver pelas costas, com toda a força da expressão. O comércio deve querer cravar uma linda faca reluzente covardemente nas minhas costas, sem que eu tenha qualquer chance de defesa. Se você acha esse comentário exagero de mente insana, peço que se situe na situação em que me encontro.
Dia desses estava eu numa sala de mulheres (qualquer sala em que só contém mulheres), e tirei a conclusão de que ser do sexo feminino seja a minha única semelhança com elas. E será que sou mesmo mulher? Mas que dúvida estúpida, sou mulher e tenho uma sensibilidade cor de rosa. Mas será que o fato de não me atrair muito por produtos rosinhas nega essas evidências biológicas?
Vou dar continuidade à descrição da situação que gerou todas essas crises existenciais.
Uma das mulheres entrou na sala exultando. Afinal, ela poderia enfim mostrar a novidade tirando-a da sacola. Eram sandálias, dessas rasteiras com um toque glamouroso de pedrinhas brilhantes. Deu um sorriso descomunal ao informar o valor super em conta e de imediato calçou um dos pares; acho que se pudesse, ela usaria os dois ao mesmo tempo.
E, falando em sandália, logo uma segunda mulher se manisfestou desabafando toda sua preocupação quanto à festa que a aguardava. Ela precisava de conselho se determinada sandália combinava com a roupa que pretendia ir. E, sinceramente, não sei que obsessão é essa de querer combinar tudo. Talvez isso exista desde o princípio do Universo. A Eva devia se perguntar se a pessoa dela realmente combinava com Adão. Caso ela julgasse que não, estaríamos perdidos, não teríamos a chance de existir hoje.
Certamente você deve imaginar que não só essas duas mulheres interrompiam o silêncio do recinto. Outra mulher criou um novo assunto. Tratava-se de seus relatos de experiências cirúrgicas anteriores e da próxima a se realizar. Por curiosidade consegui estabelecer contato, procurando entender por que as pessoas se submetem ao tira daqui coloca acolá das cirurgias plásticas. Obviamente que os motivos são infinitos, mas a razão maior não é novidade pra ninguém: ter a beleza inspirada das bonecas Barbies.
Continuei sustentando o contato apenas com interjeições comuns, como hum, ah, sério?. E cometi o terrível erro de fazer breves perguntas, o que só alongou ainda mais as falas da interlocutora, fazendo do diálogo algo chatissimamente maçante, embora tenha eu extraído parte interessante.
Quando o assunto pareceu calar, voltei ao que fazia antes: somente observar. Então, olho para o lado e vejo a consumidora feliz tirar fotos com todo cuidado para os enquadramentos das mais novas sandálias saírem perfeitos. Imaginei ela postando no twitpic para as outras mulheres ficarem por dentro da nova aquisição. Olha, não é linda? E aí daria-se a sequência de todo aquele blá blá blá novamente.
Você que se deu ao trabalho de ler até aqui deve estar pensando: Essa garota deve ter alguma anomalia! Vai dizer que você também nunca ficou alegre e satisfeita com uma compra?. Devo responder que sim, mas não, quando o produto é rosinha. Desse tipo compro raramente, e sempre em último caso, a tal ponto da sandália ou vestido quase implorarem pedindo que eu os deixe viver seus últimos dias no recanto do guarda-roupas mórbidas ou caridosamente sob o poder dos mais necessitados.
É por isso que tenho toda essa convicção de que o comércio de produtos rosados quer me apunhalar pelas costas. Ouço até uma voz rouca e voraz me chantageando:
-COMPRE ISSO AGORA MESMO OU VOCÊ SERÁ FEIOSA POR TODA A ETERNIDADE!
Ele não só ameaça, como também debocha de mim ao ofertar produtos com curtíssimos prazos de vida. Oh, céus, já sinto até a pontada da faca entrando na minha pele não melecada por milagrosos hidratantes.
Dia desses estava eu numa sala de mulheres (qualquer sala em que só contém mulheres), e tirei a conclusão de que ser do sexo feminino seja a minha única semelhança com elas. E será que sou mesmo mulher? Mas que dúvida estúpida, sou mulher e tenho uma sensibilidade cor de rosa. Mas será que o fato de não me atrair muito por produtos rosinhas nega essas evidências biológicas?
Vou dar continuidade à descrição da situação que gerou todas essas crises existenciais.
Uma das mulheres entrou na sala exultando. Afinal, ela poderia enfim mostrar a novidade tirando-a da sacola. Eram sandálias, dessas rasteiras com um toque glamouroso de pedrinhas brilhantes. Deu um sorriso descomunal ao informar o valor super em conta e de imediato calçou um dos pares; acho que se pudesse, ela usaria os dois ao mesmo tempo.
E, falando em sandália, logo uma segunda mulher se manisfestou desabafando toda sua preocupação quanto à festa que a aguardava. Ela precisava de conselho se determinada sandália combinava com a roupa que pretendia ir. E, sinceramente, não sei que obsessão é essa de querer combinar tudo. Talvez isso exista desde o princípio do Universo. A Eva devia se perguntar se a pessoa dela realmente combinava com Adão. Caso ela julgasse que não, estaríamos perdidos, não teríamos a chance de existir hoje.
Certamente você deve imaginar que não só essas duas mulheres interrompiam o silêncio do recinto. Outra mulher criou um novo assunto. Tratava-se de seus relatos de experiências cirúrgicas anteriores e da próxima a se realizar. Por curiosidade consegui estabelecer contato, procurando entender por que as pessoas se submetem ao tira daqui coloca acolá das cirurgias plásticas. Obviamente que os motivos são infinitos, mas a razão maior não é novidade pra ninguém: ter a beleza inspirada das bonecas Barbies.
Continuei sustentando o contato apenas com interjeições comuns, como hum, ah, sério?. E cometi o terrível erro de fazer breves perguntas, o que só alongou ainda mais as falas da interlocutora, fazendo do diálogo algo chatissimamente maçante, embora tenha eu extraído parte interessante.
Quando o assunto pareceu calar, voltei ao que fazia antes: somente observar. Então, olho para o lado e vejo a consumidora feliz tirar fotos com todo cuidado para os enquadramentos das mais novas sandálias saírem perfeitos. Imaginei ela postando no twitpic para as outras mulheres ficarem por dentro da nova aquisição. Olha, não é linda? E aí daria-se a sequência de todo aquele blá blá blá novamente.
Você que se deu ao trabalho de ler até aqui deve estar pensando: Essa garota deve ter alguma anomalia! Vai dizer que você também nunca ficou alegre e satisfeita com uma compra?. Devo responder que sim, mas não, quando o produto é rosinha. Desse tipo compro raramente, e sempre em último caso, a tal ponto da sandália ou vestido quase implorarem pedindo que eu os deixe viver seus últimos dias no recanto do guarda-roupas mórbidas ou caridosamente sob o poder dos mais necessitados.
É por isso que tenho toda essa convicção de que o comércio de produtos rosados quer me apunhalar pelas costas. Ouço até uma voz rouca e voraz me chantageando:
-COMPRE ISSO AGORA MESMO OU VOCÊ SERÁ FEIOSA POR TODA A ETERNIDADE!
Ele não só ameaça, como também debocha de mim ao ofertar produtos com curtíssimos prazos de vida. Oh, céus, já sinto até a pontada da faca entrando na minha pele não melecada por milagrosos hidratantes.
Risco alheio - Marisa Monte
O Bonde do Dom
Marisa Monte
Composição: Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown / Marisa Monte
Novo dia
Sigo pensando em você
Fico tão leve que não levo padecer
Trabalho em samba e não posso reclamar
Vivo cantando só para te tocar
Todo dia
Vivo pensando em casar
Juntar as rimas como um pobre popular
Subir na vida com você em meu altar
Sigo tocando só para te cantar
É o bonde do dom que me leva
Os anjos que me carregam
Os automóveis que me cercam
Os santos que me projetam
Nas asas do bem desse mundo
Carregam um quintal lá no fundo
A água do mar me bebe
A sede de ti prossegue
A sede de ti...
Marisa Monte
Composição: Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown / Marisa Monte
Novo dia
Sigo pensando em você
Fico tão leve que não levo padecer
Trabalho em samba e não posso reclamar
Vivo cantando só para te tocar
Todo dia
Vivo pensando em casar
Juntar as rimas como um pobre popular
Subir na vida com você em meu altar
Sigo tocando só para te cantar
É o bonde do dom que me leva
Os anjos que me carregam
Os automóveis que me cercam
Os santos que me projetam
Nas asas do bem desse mundo
Carregam um quintal lá no fundo
A água do mar me bebe
A sede de ti prossegue
A sede de ti...
Obrigada, amor.
E quando o que é triste resolve me abordar novamente quase me sequestrando, sem a menor chance de minha devolução a quem tanto gosta de mim, o que se chama amor fala em voz suave ao mesmo tempo forte.
Como por intermédio de um milagre, ele me traz de volta sem deixar rastros para o sequestrador.
Obrigada, amor.
Como por intermédio de um milagre, ele me traz de volta sem deixar rastros para o sequestrador.
Obrigada, amor.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Os Jesuítas dos terminais
É realmente inspiradora essa vida de passageira de ônibus. Se você ler de vez em quando este blog meio 'grog' já deve ter observado que a maioria dos temas que extraio para destilá-los aqui vem dessas experiências cotidianas dos terminais de ônibus de Fortaleza - CE.
Já comentei que Riscos em Rascunhos está mais para "Diário de uma passageira contente". Sim, contente. Afinal, temos a séria tendência de rir de tudo, até dos problemas mais esdrúxulos.
Jaz logo abaixo uma observação que venho cozinhando há tempos dentro da minha panelinha que ferve sempre ao pensar:
" - Jesuuuus está voltando". Grita o profeta que migra pelos terminais de ônibus da cidade.
Logo ali, na fila em forma de serpente (dessas de jogo de celular), ele voltou. Não ele Jesus, como diz o profeta do terminal, mas ele: o jesuíta.
Sabe aquela velha história do processo de catequisação dos índios contada onde foi um dia o seu colégio? Pois é, a verdade é que essa velha história está mais viva do que nunca, tão viva que você pode respirá-la. Até você que nem lembra qual a última vez que passou por um terminal de ônibus na vida. Isso porque eles têm o poder da onipresença.
Tenho quase certeza que em toda parte eles estão com suas bíblias bem preservadas em volta de couro preto, isso sem esquecer do cheiroso e arrumadinho marketing pessoal. Os jesuítas de hoje não precisam de vestimentas sagradas, basta uma gravatinha e calça social. Eles têm como missão propagar a fé.
Não pense, internauta-leitor, que eu venho aqui para criticá-los; acho isso bonito, sério. Não generalizo. Isso é bonito porque , ao contrário de muita embalagem humana oca se anunciando por aí, eles acreditam em algo. Eles creem, e creem com tanta força que, ingenuamente esquecem de dar um alívio pros nossos tímpanos; estes um tanto sensíveis e já desgastados pela ação dos mp3 (música preferida móvel elevada ao cubo) e dos paredões de som dos vizinhos malcriados.
Resolvi teimar em ver o lado bom dos fatos, de modo que agora tenho certeza que nem todas essas figuras contemporâneas querem tirar proveito de tudo ou de toda sua boa vontade. E termina aqui mais um relato dessa talvez eterna passageira de ônibus.
Já comentei que Riscos em Rascunhos está mais para "Diário de uma passageira contente". Sim, contente. Afinal, temos a séria tendência de rir de tudo, até dos problemas mais esdrúxulos.
Jaz logo abaixo uma observação que venho cozinhando há tempos dentro da minha panelinha que ferve sempre ao pensar:
" - Jesuuuus está voltando". Grita o profeta que migra pelos terminais de ônibus da cidade.
Logo ali, na fila em forma de serpente (dessas de jogo de celular), ele voltou. Não ele Jesus, como diz o profeta do terminal, mas ele: o jesuíta.
Sabe aquela velha história do processo de catequisação dos índios contada onde foi um dia o seu colégio? Pois é, a verdade é que essa velha história está mais viva do que nunca, tão viva que você pode respirá-la. Até você que nem lembra qual a última vez que passou por um terminal de ônibus na vida. Isso porque eles têm o poder da onipresença.
Tenho quase certeza que em toda parte eles estão com suas bíblias bem preservadas em volta de couro preto, isso sem esquecer do cheiroso e arrumadinho marketing pessoal. Os jesuítas de hoje não precisam de vestimentas sagradas, basta uma gravatinha e calça social. Eles têm como missão propagar a fé.
Não pense, internauta-leitor, que eu venho aqui para criticá-los; acho isso bonito, sério. Não generalizo. Isso é bonito porque , ao contrário de muita embalagem humana oca se anunciando por aí, eles acreditam em algo. Eles creem, e creem com tanta força que, ingenuamente esquecem de dar um alívio pros nossos tímpanos; estes um tanto sensíveis e já desgastados pela ação dos mp3 (música preferida móvel elevada ao cubo) e dos paredões de som dos vizinhos malcriados.
Resolvi teimar em ver o lado bom dos fatos, de modo que agora tenho certeza que nem todas essas figuras contemporâneas querem tirar proveito de tudo ou de toda sua boa vontade. E termina aqui mais um relato dessa talvez eterna passageira de ônibus.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Por que não redes?
No sufoco do transporte hoje ocorreu-me uma imaginação relaxante:
Por que não, ao invés de rígidas cadeiras ou pequeno espaço do chão para colocar o pé, redes! Por que não redes? Imagine só você pegando o busão do dia, subir, passar a roleta, tirar do bolso ou da bolsa uma rede de bolso. Aí você montaria em lugar disponível e ficaria ali, cochilando na matina a caminho do trabalho.
Entrariam dois novos produtos no mercado: rede de bolso e transporte público adaptado para os viajantes chegarem tranquilamente aos seus destinos sob o embalo da rede. Abriria-se vaga para profissional que teria como função avisar que a parada de cada passageiro está próxima.
E alguém tenta apagar o balão da minha imaginação sentenciando: "A ideia da rede é legal, mas diminuiria muito a capacidade de lotação dos ônibus". Então, despreocupo-me pensando que não custa nada fantasiar só o lado bom e vantajoso das ideias mirabolantes.
Humm, seria bem confortante e divertido. O veículo lá naquela inércia tola, sua rede batendo na do vizinho e você dizendo quase sonhando: Bom dia! Desculpa aí.
Seria uma brincadeira de navegantes no mar revolto.
Por que não, ao invés de rígidas cadeiras ou pequeno espaço do chão para colocar o pé, redes! Por que não redes? Imagine só você pegando o busão do dia, subir, passar a roleta, tirar do bolso ou da bolsa uma rede de bolso. Aí você montaria em lugar disponível e ficaria ali, cochilando na matina a caminho do trabalho.
Entrariam dois novos produtos no mercado: rede de bolso e transporte público adaptado para os viajantes chegarem tranquilamente aos seus destinos sob o embalo da rede. Abriria-se vaga para profissional que teria como função avisar que a parada de cada passageiro está próxima.
E alguém tenta apagar o balão da minha imaginação sentenciando: "A ideia da rede é legal, mas diminuiria muito a capacidade de lotação dos ônibus". Então, despreocupo-me pensando que não custa nada fantasiar só o lado bom e vantajoso das ideias mirabolantes.
Humm, seria bem confortante e divertido. O veículo lá naquela inércia tola, sua rede batendo na do vizinho e você dizendo quase sonhando: Bom dia! Desculpa aí.
Seria uma brincadeira de navegantes no mar revolto.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Que está mesmo para cair.

Não sei se é paranóia, essa criatura a ocupar o conturbado espaço de minha massa cerebral pensante. Essa coisa chamada iminência, repleta de qualidade de iminente, última palavra essa que o nosso ilustríssimo dicionário explica em pouca e esclarecedora expressão: "que está mesmo para cair". Oh não, algo vai 'realmente mesmo' cair e não se sabe de qual direção ou dimensão.
Se a velhinha vai tropeçar na escada, se alguém vai pisar no meu dedo machucado, se esse planeta vai parar assustadoramente estático. E por que tudo isso é absolutamente incessante? As sinapses, as mazelas, os passantes.
Poderia listar aqui milhões de coisas que estão quase para acontecer que não podemos prever. Seremos pegos de surpresa, como um assaltante de banco pegando carona do policial incorrupto.
E a minha querida iminente está sempre martelando na minha cabeça, se propagando em ecos surdos.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Uma vozsinha aqui.

Que bom essa minha necessidade de transporte público. Sempre tenho boas vivências e observações a fazer no interior dos ônibus. Ontem mesmo pude contemplar uma projeção do que sempre pensei ser.
Caminhando por meio de passos apreensivos até o meio do ônibus, pude ouvir aquela vozinha de menina cantarolando canções de sonhos. O repertório era extenso e durou quase a viagem inteira.
A menina cantava em alto e bom som, sem medo de qualquer recriminação dos adultos que a cercavam. Estes sim, ao contrário do que se pensa, não se sentiram incomodados pela "rádio" da menina.
O repertório era assim: começava com aquelas canções comuns de natal, e depois partia para aquelas cantadas no 'jardim 1' em formação de filinhas no estilo trenzinho da alegria. Foi assim até que a vozinha sofreu uma interrupção abrupta e a pequena cantora disse em tom tranquilizador:
- Calma, gente. Em 10 minutos a rádio volta com novas canções. Humm...Olha só, mal completou 1 minuto e já lembrei de mais músicas pra vocês.
E assim o som da vozsinha logo voltou a viajar pelo vento que vinha pela janela. Não me engano, tenho por mim que o ar da noite esperava ansiosamente por novas melodias pueris, quase sendo capaz de atravessar o vidro.
Ao mesmo tempo que essa situação singela me fazia esboçar um sorriso cheio de esperança e paz, logo me recordei de meu antigo costume: de cantar no chuveiro, no espelho, num cantinho só meu, em que ninguém pudesse adentrar de surpresa.
Acho que abri mão de muitas coisas que fazem eu me sentir viva: cantar, dançar, sonhar, imaginar. Hoje, me refugio dentro de histórias clássicas que me trazem a magia da infância esquecida. E essa tem sido a minha forma de ver o essencial com o coração( ideia sábia de O PEQUENO PRÍNCIPE).
Esquecendo agora um pouco de mim, volto a me lembrar da vozinha. Tive tanta vontade de pedir um autógrafo pra menininha na hora da descida do ônibus; mais uma vontade, vinda direto do pedacinho pulsante de mim, que sufoquei.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Risco alheio - O Pequeno Príncipe
"As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo
amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua
voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas? "Mas
perguntam:
"Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa?
Quanto ganha seu pai?" Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos
às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas
no telhado. . . " elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. É preciso
dizer-lhes: "Vi uma casa de seiscentos contos". Então elas exclamam: "Que beleza!"
Assim, se a gente lhes disser: "A prova de que o principezinho existia é que ele era
encantador, que ele ria, e que ele queria um carneiro. Quando alguém quer um carneiro, é
porque existe" elas darão de ombros e nos chamarão de criança! Mas se dissermos: "O
planeta de onde ele vinha é o asteróide B 612" ficarão inteiramente convencidas, e não
amolarão com perguntas. Elas são assim mesmo.
É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito indulgentes
com as pessoas grandes.
Mas nós, nós que compreendemos a vida, nós não ligamos aos números !
...
Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci."
amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua
voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas? "Mas
perguntam:
"Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa?
Quanto ganha seu pai?" Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos
às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas
no telhado. . . " elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. É preciso
dizer-lhes: "Vi uma casa de seiscentos contos". Então elas exclamam: "Que beleza!"
Assim, se a gente lhes disser: "A prova de que o principezinho existia é que ele era
encantador, que ele ria, e que ele queria um carneiro. Quando alguém quer um carneiro, é
porque existe" elas darão de ombros e nos chamarão de criança! Mas se dissermos: "O
planeta de onde ele vinha é o asteróide B 612" ficarão inteiramente convencidas, e não
amolarão com perguntas. Elas são assim mesmo.
É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito indulgentes
com as pessoas grandes.
Mas nós, nós que compreendemos a vida, nós não ligamos aos números !
...
Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci."
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Passamos rápido.

Costumam dizer que a vida passa rápido, mas nesses últimos anos tenho notado que não é ela que vai embora sem aviso, são as pessoas. Surgem, ressurgem, desaparecem como uma mágica sem truques.
Dessas pessoas, muitas te marcam, tanto pelas suas qualidades quanto pelos seus defeitos. E por mais que a tendência maior seja uniformizar, tornar as semelhanças tão evidentes a ponto de só visualizarmos coisas, expressões, formas parecidas, essas pessoas que já passaram ou que ainda vão cruzar nosso caminho são únicas e só elas por si mesmas.
Cansei de tentar encontrar definições para o que diabos é vida.
Não precisamos alcançar isso que se chama vida, ela que se esforce para acompanhar esse nosso ritmo frenético. Uma hora somos assim, outra já não somos, nem pensamos como antigamente.
E diante de nós, a vida se vê desafiada.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
O pior dos pesadelos

Devoro minúsculas partículas de mim, como se o gesto pudesse me contentar com tão pouco, como se essa tentativa vã pudesse dissipar essa ansiedade que aqui se instala. A inércia me incomoda e mesmo assim me submeto como se fizesse mesmo parte de mim,algo que abomino.
E só eu posso me tirar daqui, onde até seres inanimados me vigiam, apenas esperando uma imaginação fértil de minha mente para se revelarem na penumbra,fantasmagóricos. Eles são indiscutivelmente reais, exatamente como são em meu pior pesadelo: o da autoanálise.
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